'Emergência 53' quer reinventar drama hospitalar nas ruas - 03/09/2026 - Luciana Coelho - Folha

🗓️ 2026-09-04 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Drama de hospital é quase um gênero em si, e um bem prolífico. A diferença de "Emergência 53", que estreou no Globoplay no fim de agosto e agora está com todos os dez episódios no ar, é tirar a ação dos corredores hospitalares e levá-la às ruas do Rio de Janeiro, onde atende a equipe que dá nome à série.

De resto, a produção da Conspiração não procura invencionices. Ampara-se em um elenco bem escolhido que dá vida a personagens densos e nuançados, frutos de um texto inteligente e uma direção precisa.
O resultado é um drama intenso, que acelera os batimentos de quem vê, mas econômico em sentimentalismo e muito atual, assinado por Márcio Maranhão —o consultor médico por trás de "Sob Pressão"—, Cláudio Torres e Andrucha Waddington.

Direção, dividida entre os dois últimos com Pedro Waddington e Rebeca Diniz, e edição fogem do aspecto novelesco do gênero mesmo ao lidar com morte, crime (não se pode falar do Rio sem isso), desigualdade e dilemas pessoais tão variados quanto verossímeis.

Com duas protagonistas, a obra tem nas personagens femininas seu motor principal —aos masculinos, coube uma ou duas doses de clichês.

Irene, uma médica experiente à frente da unidade de emergência, está às voltas com as doenças da mãe idosa e com a precariedade das condições de trabalho da equipe de desgarrados que escolheu. Entre colegas e pacientes, ela lida com gente ferrada, basicamente. Gente com transtornos, com processos e passado no crime.

No papel, Yara de Novaes, atriz mais vista nos palcos do que nas telas, está imensa. Sem escorregar nos maneirismos em que tantos recaem ao retratar mulheres em posição de comando, ela traz o comedimento e o calor humano ao papel que funcionam como condutor elétrico das cenas.

A coprotagonista é Manu, uma novata de família rica posta na unidade pelos pais, que a obrigam a encarar as desgraças da vida a fim de demovê-la de virar enfermeira de guerra. Valentina Herzage, de "Ainda Estou Aqui", condensa bem esse choque de mundos.

O resto da trupe é igualmente disfuncional, a começar por Pedro (Emílio Dantas), o médico bipolar assombrado pelo suicídio da mãe, e Glória (Heloísa Jorge), a médica que emergiu da Maré com o sonho de ajudar gente pobre, embora negligencie o próprio filho. Os dois se escondem na hipercompetência.

Contam com Átila (William Nascimento), enfermeiro militar evangélico com problemas para conter seus ímpetos de violência; Vanessa (Raquel Villar), enfermeira que serve de arrimo emocional a Pedro e almeja ser médica; e os motoristas Vandam (Jaffar Bambirra) e Duda (Ana Hikari), ele filho de um assaltante de bancos, ela com histórico de prostituição.

Cada um deles tem a vida desdobrada em um dos episódios desta primeira temporada, o que permite ao roteiro extravasar os enredos hospitalares e se embrenhar por temas como violência doméstica, crime organizado, corrupção e outros traumas nacionais.

As participações especiais são um deleite: Fernanda Montenegro (como a mãe de Irene, uma senhora cuja idade não inibe os vícios), Júlia Lemmertz, Stepan Nercessian, Antônio Grassi, Evandro Mesquita.
A produção nacional mantém-se em alto nível há anos, mas desde a estreia de "Justiça", em 2016, não aparecia uma série com tamanha força por aqui.

*

Voltei à resenha de "Fúria" após o episódio final e coloquei a quinta estrela.

LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.