El Niño: empresas preevem perdas e oportunidades - 22/08/2026 - Economia - Folha

🗓️ 2026-08-23 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

O El Niño, fenômeno de aquecimento atípico das águas do oceano Pacífico, tem embaralhado padrões de clima e elevado temperaturas em todo o globo desde junho –e algumas empresas do Ibovespa começaram a antever quais poderão ser suas principais vulnerabilidades aos eventos climáticos. Outras, porém, enxergam oportunidades para suas operações.

De acordo com levantamento feito pela Folha com as 76 companhias listadas no principal índice da Bolsa, a expectativa para o primeiro grupo é que o super El Niño traga riscos de crédito e calotes no setor rural, aumente sinistralidades, quebre safras agrícolas e crie gastos adicionais com logística. Os dados levam em conta o conteúdo das teleconferências de resultados do segundo trimestre deste ano.

Para o outro grupo, o calor pode ser um trunfo de vendas. Empresas como Magazine Luiza e Assaí analisaram como os termômetros nas alturas podem influenciar o comportamento do consumidor e catalisar vendas de segmentos específicos.

"O calor faz muita diferença para nós. A linha de ar-condicionado e ventilação vende muito e mexe muito o ponteiro, assim como a categoria de refrigeração, que é a que vende mais na companhia. No calor, vendemos muito", afirmou Fabrício Garcia, vice-presidente de operações da Magazine Luiza, na teleconferência do início do mês.

"Estamos bem programados, bem planejados com os fornecedores, e já começamos a receber os itens."

A indústria de climatização, como mostrou a Folha, tem se mobilizado diante da perspectiva de um dos El Niños mais fortes de todos os tempos. Varejistas antecipam encomendas e fabricantes reforçam estoques, atentos a uma demanda que pode disparar no verão. A previsão da Abrava, associação que representa o setor, é que o faturamento chegue a R$ 55,62 bilhões neste ano, alta de 10% ante 2025.

Especialmente para o brasileiro, o calor também impulsiona outro mercado: o de bebidas. Carlos Lisboa, CEO da Ambev, afirmou que a empresa se amparou na experiência do El Niño de 2024 para embasar estratégias para os próximos trimestres.

"O ano de 2024 ilustrou que temperaturas mais altas podem, sim, influenciar a demanda", afirmou. No balanço daquele ano, a Ambev reportou que a receita líquida de cerveja no Brasil somou R$ 40,22 bilhões, alta de 3,2% em relação a 2023.

A previsão, segundo a Bloomberg, é que essa cifra encerre 2026 em R$ 43,4 bilhões, avanço de quase 8% ante 2025, também impulsionado pelo consumo durante a Copa do Mundo.

Já o Assaí vê que as margens podem aumentar diante da possível volatilidade nos preços das commodities, de efeito direto na inflação de alimentos.

"A capacidade de repassar preços, ela vai ocorrer. O El Niño tende a influenciar commodities que já estão com o preço depreciado, então pode ser que tenhamos um efeito positivo em relação a isso [no faturamento]", afirmou o CEO Belmiro Gomes.

Castigado pelos juros altos e pelo endividamento recorde das famílias, o setor varejista é um dos poucos que têm no El Niño alguma janela possível de oportunidade –embora não o suficiente para reverter o momento ruim, que culminou em ao menos cinco pedidos de recuperação judicial neste ano.

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Para os demais setores –em especial agronegócio, logística, transporte e seguros–, o El Niño dificilmente é uma oportunidade de negócio. No levantamento da Folha, SLC Agrícola, Minerva, Klabin, Rumo, Banco do Brasil e Caixa Seguridade são algumas das companhias do Ibovespa que citaram riscos às operações.

O agronegócio, segundo Aline Cardoso, líder do departamento de pesquisa e estratégia de ações do Santander, é o mais penalizado –e isso cria um efeito cascata para outros segmentos da economia.

"O El Niño, historicamente, traz seca para o Centro-Oeste, o que causa quebra de safra. Por consequência, o setor financeiro acaba penalizado porque dá crédito para o agro, então podemos ver um aumento de inadimplência por conta disso. Setor de transportes, especificamente ferrovias e hidrovias, tende também a sofrer, porque, se há quebra de safra, há menos volume para transportar", afirma.

Nesse sentido, grandes bancos têm colocado a SLC Agrícola como uma das mais expostas negativamente ao El Niño.

A companhia, uma das maiores produtoras de soja, milho e algodão do país, costuma ter queda média de 7% na produtividade da soja em anos com o fenômeno, segundo a UBS BB, enquanto o algodão de segunda safra apresenta queda em torno de 10%.

Quando o fenômeno climático vem mais forte do que o previsto, as perdas tendem a ser maiores também –em 2016, por exemplo, a quebra de safra da SLC chegou a 15%, afetada sobretudo pela falta de chuvas no Nordeste e no Centro-Oeste.

Para o super El Niño deste ano, a companhia anunciou mudanças no manejo, focando em coberturas de solo para reter umidade e evitando o revolvimento da terra para reduzir a evaporação de água. A empresa também antecipou o plantio do algodão na Bahia para aproveitar as chuvas do começo do ano.

"A expectativa é que as perdas de 2027 sejam bem menores do que as de 2016", afirmou o CEO Aurélio Pavinato na teleconferência de resultados.

A Minerva, de agropecuária, segue nessa mesma esteira. A seca nas regiões pecuárias pode atrasar a recomposição dos rebanhos e manter elevados os custos do gado por mais tempo.

"Com menos pasto para o gado se alimentar, o produtor tem que complementar a alimentação com ração, que acaba sendo bem mais cara do que o pasto. Tem uma pressão de margem, no caso do produtor, que ele repassa para os frigoríficos também", diz Cardoso, do Santander.

No setor de transportes, a Rumo pode ser afetada pela possível queda no volume de grãos transportados e no fechamento de contratos agrícolas. "O El Niño tradicionalmente atinge todas as pontas, do sistema Norte ao sistema Sul, e de maneiras diferentes", afirmou Guilherme Machado, diretor financeiro da empresa.

Para as seguradoras, a imprevisibilidade do fenômeno torna difícil mapear quais serão os efeitos na sinistralidade. O Banco do Brasil, expoente no seguro do agronegócio, afirmou ter enviado 280 profissionais de ciências agrárias para campo para monitorar as lavouras em tempo real e está incentivando produtores a terem mais de um contrato de seguro.

"Estamos falando para ter mais seguro, seja de Proagro [vinculado ao Banco Central], seja o seguro normal, e tentando incentivar produtores onde a tendência é ter seca a fazer investimentos em irrigação", disse Gilson Bittencourt, vice-presidente de agronegócios e agricultura familiar do BB.

O banco afirma ter levado o El Niño em conta na PDD (Provisão para Devedores Duvidosos, ou Perdas Esperadas em Operações de Crédito), reserva contábil destinada a cobrir calotes, de 2026. No braço BB Seguridade, a companhia ainda utiliza contratos de excesso de danos ("stop loss") para as carteiras e mantém discussões com o governo federal sobre fundos de catástrofe.

ENERGIA ELÉTRICA EM CIMA DO MURO

Empresas de energia elétrica estão dos dois lados: algumas veem o possível aumento da demanda para driblar o calor como forma de aumentar as margens; outras já engataram planos de manutenção preventiva de redes elétricas e podas de árvores para minimizar riscos de apagões e volatilidade de preços.

Copel e Auren efalam em oportunidades com o El Niño, desde reservatórios mais cheios no Sul até alta demanda no Sudeste e Centro-Oeste pelas ondas de calor. Energisa, Cemig e Axia, porém, já mencionam riscos de interrupção de danos a fios e à rede elétrica aérea, apagões e volatilidade nos preços de energia.

"Como o Brasil tem dimensões continentais, cada região é afetada de forma diferente pelo El Niño. E dependendo da região onde cada concessionária, distribuidora ou geradora de energia opera, o efeito vai ser diferente", diz Cardoso, do Santander.

"Se você é uma geradora de energia e seu reservatório fica no Sul, em tese as chuvas vão ajudar a gerar mais energia. No Nordeste e no Norte, como é o caso da Axia, em Belo Monte (PA), a seca tende a ser ruim."