Ensino despejado ou despojado: e se mudássemos o modelo?
Portugal passou décadas concentrado, com inteira razão, em levar as crianças à escola, prolongar a escolaridade, reduzir o abandono e aproximar as novas gerações dos níveis educativos europeus, carregando ainda hoje a memória de um país onde demasiados adultos ficaram privados das formas mais elementares de instrução. Essa longa batalha produziu resultados extraordinários, e os jovens portugueses são incomparavelmente mais escolarizados do que os seus pais e avós. Chegou, porém, o momento de formular uma nova pergunta, porventura mais difícil: que educação queremos oferecer aos jovens que finalmente conseguimos manter na Escola e conduzir à Universidade?
A instituição que herdámos nasceu num mundo de informação escassa, onde o livro era raro, a biblioteca um privilégio e o professor uma das poucas portas de acesso ao conhecimento. Compreende-se, assim, que ensinar tenha significado durante séculos transmitir, expor, organizar e preservar um património intelectual que dificilmente chegaria ao estudante por outra via. O professor continua hoje, em grande medida, a ser um profissional educado no século XX para ensinar o dado, embora o dado se encontre agora disponível na ponta do dedo, no telemóvel que repousa sobre a mesa, numa quantidade que nenhuma memória humana poderia conter. A informação tornou-se abundante, instantânea e quase gratuita, mas o pensamento permanece raro. Aquilo que precisamos de ensinar já não pode limitar-se à acumulação de respostas, mas antes à capacidade de formular perguntas, distinguir o essencial do ruído, relacionar conhecimentos dispersos, interpretar, duvidar, julgar e imaginar possibilidades ainda inexistentes.
Apesar disso, persistimos num sistema excessivamente classificativo, em que o professor despeja a matéria, o estudante retém-na durante o tempo necessário e o professor devolve-lhe uma classificação, fechando assim um circuito que mede a reprodução do conhecimento, mas raramente a capacidade de o interrogar, relacionar, discutir ou transformar. A linguagem revela, aliás, a natureza do sistema: temos exames para classificar, critérios de classificação e professores classificadores, numa liturgia anual em que a complexidade da aprendizagem parece caber inteira numa escala numérica, entre a resposta considerada certa e aquela que será assinalada como errada. A classificação tem evidentemente uma função, exige justiça, transparência e rigor, embora a sua centralidade tenha transformado o instrumento em finalidade e reduzido progressivamente o espaço reservado à dúvida, ao debate, à exploração, à oralidade, ao confronto entre perspetivas e à lenta maturação de uma ideia.
Confundiu-se durante demasiado tempo educação com instrução, supondo que a transmissão de conteúdos, o cumprimento dos programas e a preparação para os exames bastariam para formar uma pessoa. Despejar matéria pode instruir, mas dificilmente educa, pois educar exige responsabilidade, autonomia, sensibilidade, imaginação, capacidade de viver com os outros e disponibilidade para participar na vida comum. Uma escola cumpre mal a sua missão quando forma profissionais tecnicamente competentes e, ao mesmo tempo, cidadãos desinformados, passivos ou facilmente manipuláveis, incapazes de compreender um orçamento, uma taxa de juro, um conflito histórico, uma promessa eleitoral ou o modo como uma imagem e uma frase podem ser usadas para dirigir emoções e fabricar consentimento. Ensinar cidadania consiste precisamente em oferecer instrumentos para que os jovens não aceitem sem pensar aquilo que lhes dizem, aprendendo a ouvir, discutir, discordar com civilidade e mudar de opinião quando surgem razões mais fortes.
O Cardeal Newman, primeiro reitor da Universidade Católica da Irlanda e autor de The Idea of a University, opunha-se fortemente à redução da Universidade a uma finalidade utilitária. Para Newman, o fim próprio do ensino superior era a formação intelectual e liberal do indivíduo, e não a sua preparação profissional imediata. O conhecimento possuía uma dignidade própria, formando o julgamento, ampliando o espírito e permitindo compreender as relações entre os diferentes ramos do saber, embora essa formação acabasse também por produzir consequências na vida profissional, social e política. A formação de futuros profissionais, dirigentes e líderes exige estudo rigoroso, trabalho, disciplina e autonomia, qualidades que convivem naturalmente com a imaginação, a criatividade e a dúvida, pois abrir espaço ao pensamento divergente nunca significou abandonar a exigência do rigor. Uma educação menos punitiva pode ser intelectualmente mais ambiciosa, trocando o medo pela responsabilidade e a obediência pela autonomia, confrontando o estudante com ideias incómodas, perspetivas contraditórias e problemas cuja solução não se encontra no fim do manual. A capacidade de mudar de opinião diante de melhores argumentos constitui, aliás, uma das formas mais exigentes de inteligência, maturidade e honestidade intelectual, indispensável a qualquer bom cidadão e a qualquer líder digno desse nome.
O erro ocupa aqui um lugar decisivo. A educação habituou-nos a apagá-lo rapidamente, como quem faz delete e prossegue, mas o erro é fundamental à aprendizagem precisamente porque nos obriga a parar, compreender e corrigir; é preciso tempo para respirar o erro, interiorizá-lo e perceber o caminho que nos conduziu até ele. Samuel Beckett condensou essa experiência: Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better. Tentar de novo, falhar de novo, falhar melhor — esta formulação, que se vulgarizou como máxima motivacional, encerra uma verdade bem mais profunda: o conhecimento avança através da consciência da insuficiência, da persistência e da reconstrução. Uma Universidade que protege os estudantes de toda a dificuldade acaba por os proteger também do crescimento, pois o desconforto intelectual, a frustração e a incerteza fazem parte da experiência de aprender.
Bertrand Russell desconfiava das convicções absolutas e observava que a certeza inabalável habita tantas vezes os idiotas e os fanáticos, enquanto os espíritos mais lúcidos convivem com a dúvida. Uma educação obcecada por certezas, respostas certas e percursos seguros pode, assim, transformar o conhecimento numa gaiola, protegendo o estudante da incerteza, mas impedindo-o de voar. O professor e ensaísta Rubem Alves, pensador da educação, distinguia as escolas que aprisionam das escolas que dão aos pássaros “coragem para voar”. Educar é abrir espaço à dúvida sem abandonar o rigor, permitindo que o conhecimento deixe de ser apenas reproduzido e passe a ser interrogado, transformado e ampliado, pois é desse movimento que nascem a criação, a inovação e, em última análise, a riqueza capaz de melhorar a vida coletiva.
Esta mudança exige também outra ideia de professor. O professor-transmissor permanece no alto do estrado, olhando de cima para o estudante e entregando-lhe um saber já concluído; o verdadeiro mestre caminha ao seu lado, orientando-o, interrogando-o e reconhecendo que também ele aprende nesse percurso, porque o conhecimento nunca está inteiramente acabado e ensinar continua a ser uma das formas mais fecundas de aprender. Ensinar é empoderar, oferecer instrumentos, confiança, autonomia e capacidade para agir no mundo. Um bom professor sabe conversar, despertar uma curiosidade adormecida, descobrir um talento que o próprio estudante desconhecia e criar o instante raro em que uma pergunta altera para sempre a maneira de olhar uma realidade.
Também a compartimentação rígida do saber pertence ao modelo que precisamos de superar. A realidade nunca se apresentou dividida em disciplinas estanques, departamentos, semestres ou unidades curriculares. Compreender o mundo exige relacionar a Filosofia com a Ciência, a História com a Economia, a Arte com a tecnologia e o digital, ou a História das Religiões com os valores, os conflitos e as culturas que continuam a modelar as sociedades. As literacias científica, financeira, digital, cívica, cultural e motora constituem dimensões complementares de uma mesma formação, e uma educação do século XXI deverá aproximar saberes, contextos e experiências, sem dissolver o conhecimento disciplinar, mas recusando que cada área permaneça encerrada dentro das suas próprias fronteiras e colocando uma dimensão verdadeiramente humanista no centro da educação. George Steiner alertou repetidamente para a perda da memória cultural e para o empobrecimento da transmissão entre gerações, recordando-nos que o acesso quase ilimitado à informação pode coexistir com uma profunda incapacidade para a compreender, situar e transmitir. Educar é, por isso, ensinar a pensar com contexto, profundidade e memória.
Numa era dominada pela inteligência artificial e por uma crescente artificialidade das relações, torna-se curioso observar o regresso da dimensão humanista ao centro da reflexão educativa, como se a proximidade das máquinas nos obrigasse finalmente a perguntar o que desejamos preservar no ser humano. Alguns sistemas educativos começam já a reequilibrar a presença da tecnologia, recuperando o livro impresso, o papel, o lápis, a caneta, a leitura demorada, a concentração e a relação presencial, pois a digitalização indiscriminada pode produzir a ironia maior do nosso tempo: máquinas progressivamente mais humanas e seres humanos cada vez mais robotizados. À medida que as respostas surgem de forma cada vez mais automáticas, a imaginação permanece do lado de quem sabe perguntar.
Um ensino despojado do excesso de conteúdos abre espaço à pergunta, à imaginação, ao sonho, à reflexão e àquilo que permanece verdadeiramente humano. Essa é a Escola e a Universidade de que Portugal precisa para inovar, criar e dar uma vida melhor a todos os portugueses.