Ensino Secundário. "Diferença de médias parece-me esperado"
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Explicador na Rádio Observador com Rodrigo Queiroz e Melo, o diretor executivo da Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo, também com Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, que se junta a nós ao telefone. Rodrigo Queiroz e Melo, começo por si, em 2024 e 2025, uma análise baseada em dados da Direção-Geral de Estatística e Ciência mostra que a média das notas durante oito anos é sempre mais alta nos colégios do que nas escolas públicas. Qual é a justificação que encontra?
Boa tarde, muito obrigado pelo convite. Vamos lá ver. Haver uma diferença de médias e de notas entre escolas públicas e escolas privadas parece-me algo esperado e expectável. Estamos a falar de universos bastante diferentes, quer nas populações que as frequentam, quer nas expectativas das populações que as frequentam. Tudo isto começou em 2015, esta questão das notas, e eu acho que já são 10 anos em que temos estes debates em torno das notas e se há inflação, se há desinflação, são melhores, são piores. Eu acho que nunca é demais salientar que é muito importante termos dados pra podermos fazer esta discussão. Antes de 2015, nem havia discussão, ninguém sabia nada. Em 2026, gostava de perceber por quê, é a primeira vez, desde 2015, que iniciamos o ano letivo sem que haja os resultados dos exames, os famosos rankings, goste-se ou não se goste, é a primeira vez em 10 anos que vamos iniciar o ano letivo e ninguém sabe onde é que param os rankings. Quando queremos debater dados e começar a conhecer melhor o sistema, acho que isso não é um sinal positivo. Percebo que tenha havido complicações no Ministério da Educação, mas em todo o caso, as complicações começaram em julho e os rankings já são de há um ano atrás e deveria estar cá fora. Agora, assim como primeiro ponto é haver diferenças, não é espantoso. Eu penso mesmo dentro do privado, nós estamos a fazer médias por setor. Eu não acho interessante continuarmos a olhar pra estes dados por setor, o público e o privado, porque dentro do público há clusters muito diferentes. Aliás, as próprias notícias mostram. Algumas escolas públicas são parecidas com algumas das privadas a este nível. Era muito mais interessante conseguirmos ter uma análise mais fina pra compararmos o comparável.
Sobretudo, era importante comparar estas notas com as notas dos exames.
Eu confesso que hoje, depois a essa altura, quis ir buscar o relatório da DGEEC, uma vez que se tornou notícia, imaginei que tivéssemos que falar sobre isto, não consegui. Para já, a página foi abaixo, não sei se foi na visinha. Tudo o que eu vou dizer é tudo o que lemos nas notícias. A página da DGEEC estava embaixo quando estava a tentar preparar isto. Mas, para mim, não é claro se estas notícias são sobre 19 e 20, que é isso que está em causa, só em anuais do 12º. Pela notícia, parece-me que não, que 30% dos alunos tiveram pelo menos um 19 ou 20. Há de ser nas bienais, nas trienais e é importante, como está a dizer, saber: ok, e destes alunos que tiveram 19 ou 20 nas bienais e nas trienais, como é que foi a sua nota de exame?
Deixe-me só chamar o Filinto Lima à nossa conversa. Bem-vindo. As notas, de forma geral, tanto no público como no privado, sofreram um aumento. Há alguma explicação para isto? Filinto Lima?
Penso que perdemos a ligação telefónica. Já vamos tentar recuperar. Agora sim, penso que sim.
Agora sim. Eu estava a ouvir perfeitamente. Um abraço ao Rodrigo Queiroz e Melo, aos nossos ouvintes. E é verdade, o ensino público serve uma população muito diversificada. Essa, pra já, poderá ser a primeira explicação. Nós recebemos, como todos sabemos, todos, como diz o Papa Francisco, os alunos, não podemos recusar ninguém. E sabemos que isso no privado, e não é crítica minha, mas isso não acontece, pelo menos em todo o privado. Depois, há dois cenários que podemos neste momento adiantar. Um cenário ilegítimo, que é haver inflação de notas, diga-se também que poderá acontecer no público. Aliás, em 2023, 39 escolas foram inspecionadas em virtude da situação que estamos aqui hoje a debater pela DGEEC, 37 privadas e duas públicas, e em sete dessas escolas privadas, foi deixada a recomendação da reposição imediata da legalidade, tendo em conta os critérios de avaliação que estariam mal delineados. Isto é o cenário da inflação de notas. Pode acontecer, e é um cenário ilegítimo. Agora, há outro cenário, que me parece poder ser uma das hipóteses, mas tem que ser estudado, que é a concentração em algumas escolas, eu diria que no caso concreto é 38 colégios, de alunos de contextos sociais e econômicos muito elevados, alunos que se aplicam muito, que têm muitos recursos e de alto desempenho. Poderá haver estes dois cenários. Eu não queria que fosse o primeiro, não queria mesmo, porque é um cenário ilegítimo, e isto pode custar, não digo a vida, mas pode custar o acesso à faculdade de muitos alunos, nomeadamente de alunos das escolas públicas, porque este fator prevalece mais, como sabemos, é mais preponderante esta suposta inflação de notas, eu não queria ser aqui taxativo por pode estar a ser injusto, mas a acontecer, aliás, o resultado da inspeção de 2023 vai nesse sentido, sucede mais nas escolas privadas em detrimento dos alunos das escolas públicas
Rodri Queiroz Imelo, queria responder a esta questão da inflação das notas.
Era complementar, porque há aqui um ponto muito importante que o Filinto levanta. A inspecção está a ir ao terreno desde 2017. Em 2017, 2018, em 2020 foi alargando. Se houvesse uma questão de legalidade de base, a inspecção teria mandado fechar alguém há 10 anos. Esta questão das notas é um tema difícil. Acompanhei mais de perto alguns processos, a inspecção viu provas. Há aqui um ponto que o Filinto disse e que é importante: há colégios que existem e procuram levar todos os alunos que os procuram a conseguir entrar no ensino superior. Isto das explicações que muitos procuram fora do colégio, do treinar os livros dos exames. Há colégios que têm uma capacidade incrível de agarrarem 200 miúdos e terem notas de exames, aguardamos que venham os rankings finalmente outra vez, mas com 200, 300 alunos a exame, têm médias de 16, 17, 18. Isto é um trabalho de preparação intensíssimo. E esse trabalho vai haver sempre.
Pode haver também um método de avaliação contínua diferente daquele que é feito no público?
Eu penso que há aqui um problema muito grande, que é isto tudo depois mistura-se com o acesso ao ensino superior. A avaliação contínua, nós quando pensamos na avaliação interna e especialmente dentro da avaliação interna, da avaliação contínua, ou seja, aquela nota que o aluno tem no primeiro trimestre, no segundo trimestre, isto é uma avaliação formativa. O objetivo não é seriar aquele aluno. A avaliação interna tem como objetivo dar elementos ao professor, à família, aos alunos, para ver como é que ele pode fazer melhor. Eu numa avaliação interna acho absolutamente natural que se há um aluno que tem um teste que lhe correu mal, ele não acertou nada do que tinha a ver com geometria, é natural que se lhe diga o que é que ele não sabe e que ele daí a 15 dias vá fazer outra vez a parte da geometria, porque o objetivo não é dar uma nota, o objetivo é que o aluno aprenda. E o aluno, um bocadinho como o atleta, o Ronaldo tanto chutou à baliza, que passou a chutar à baliza melhor que os outros todos.
Mas muitos dos Ronaldos que estão no público não teriam essa possibilidade.
Estão no clube errado. É que o Ronaldo é bom porque arranjou os treinadores certos. E este é um ponto que eu aí apenas pronuncio pelo privado. Quer dizer, há um enfoque quando todo o projeto da escola, todos os professores, tudo é pensado: "Vou ajudar estes alunos, alguns até com bases muito fracas, a melhorar consistentemente, constantemente, porque ele quer ir pra universidade e eu vou conseguir", isto é um ambiente que dá origem a notas necessariamente mais elevadas em média do que o ambiente onde há também uma população muito grande cujo objetivo é terminar o ensino secundário, portanto, toda a organização da escola é necessariamente diferente.
Filinto Lima de Duque quer acrescentar aqui.
Eu estou até chateado aquilo que está a dizer o Rodri Queiroz Imelo, está a passar um atestado de incapacidade à escola pública. Eu, por exemplo, nunca vi ninguém da escola privada, que se fosse formado na escola privada, dizer: "Eu fui formado", com aquele orgulho que nós dizemos: "Eu fui formado pelo ensino privado." Nunca ouvi ninguém dizer isso. Eu oiço dizer frequentemente: "Eu fui formado, eu sou um homem da escola pública." Isto é o que nós ouvimos dizer. E portanto, é muito esquisito aquilo que disse o Rodri Queiroz Imelo, passar um atestado de incompetência aos professores mais qualificados, como sabemos, que são da escola pública, não são da escola privada. E mais, não se consegue explicar, eu não quero aqui criar guerra nenhuma.
Filinto, não é verdade, não é justo. Não foi isso que eu disse.
Eu ouvi o Rodri Queiroz Imelo, mas tanto quanto eu percebi e aí esperem que me corrijam os ouvintes da Rádio Observador. Como é que se percebe, eu não quero arranjar, aliás, os rankings, sinceramente, não fazem falta nenhuma, os atuais rankings não fazem falta nenhuma ao sistema educativo português. Primeira coisa. E depois, como é que se percebe que em 38 colégios, escola privada, pelo menos 30% dos alunos tenham 19 ou 20? Alguém perceberá isso? Se calhar é bom que o Ministério da Educação queira perceber por que isso acontece. Por que em 38 colégios, que eu não sei quais são, acho que ninguém sabe neste momento.
Mas é preciso saber.
Mas devíamos saber. Há 30% de alunos que têm 19 ou 20. E mais, deixa-me só dizer uma coisa, eu sou muito rápido mesmo. Depois, aquilo que fala o Rodri Queiroz Imelo é preparar os alunos para os penaltis. São os exames, para os penaltis. Muito bem, mas essa preparação também se faz nas escolas e não se faz com explicadores. Os alunos das escolas privadas, como o Rodri Queiroz Imelo sabe, muitas vezes, eu não sei se vou dar uma novidade, mas vou fazê-lo, têm dois explicadores para a mesma disciplina. Isso não acontece na escola pública. Não acontece, seguramente. Portanto, aqui temos que dar mérito, de facto, é a quem trabalha diariamente com todo o tipo de alunos, ainda bem que é assim, sinceramente, e que não escolhe os seus alunos. Portanto, eu queria aqui dar uma nota muito positiva aos professores das escolas que são privadas, com certeza, mas sobretudo às escolas públicas, que têm feito um trabalho de excelência e depois que se reflete quer nos penaltis, que são os exames, quer no desempenho que têm esses alunos no ensino superior.
Rodri Queiroz Imelo.
Daqui uma chamar a atenção pra um ponto que é importante. Nós soubemos também agora as últimas notas da colocação do ensino superior agora na primeira fase. E se forem ver as últimas notas de entrada, há dezenas de cursos onde a última nota de entrada foi superior a 17. É natural que haja dezenas de alunos que pra terem tido a média 17, tiveram 19 e 20 em muitas disciplinas, correto? Depois há um ponto que também não podemos ser ingénuos Qualquer pessoa que tenha ensino secundário e que acompanhe o ensino secundário, olha para as disciplinas anuais do 12° ano, em qualquer escola, eu percebo a questão do Filinto, mas eu não disse que a escola pública era boa ou má, nunca o disse, não vou dizer agora, mas em qualquer escola, as disciplinas anuais de ensino secundário não são avaliadas com a mesma intensidade, exigência, desenvolvimento de competências e conhecimentos, como é uma trienal ou como é uma bienal. E não vale a pena fingirmos que é diferente. Portanto, isso, não vi se está no estudo da DGEEC, mas as anuais do secundário.
As notas mais altas são sempre disciplinas anuais.
E repare, em 20, ter ou mais um ou dois pontos do que a média das trienais, só será espantoso para quem nunca tiver pensado sobre estes assuntos. Estamos a falar de uma psicologia, de uma sociologia, de uma antropologia. Só um ano, que não é uma disciplina de exame nacional que vá contar pra entrada, qualquer estabelecimento de ensino público ou privado, está a pôr todo o seu ouro na matemática, na filosofia, no português, na história, não está a pôr naquela disciplina anual. E, portanto, o que estamos aqui é a ter uma discussão, que me parece a mais das vezes enviesada, a propósito de um problema que é outro, que é o acesso ao ensino superior, nos cursos onde pode haver incentivos por causa de décimas fazerem diferença ou não. Porque nós não estamos a discutir, porque então aí as pessoas não olham pro relatório da DGEEC, dos alunos que têm sete no exame e que tiveram 10 ou 11 da avaliação interna. Portanto, o desfasamento total que eu acho razoável é o aluno que se diz: "Para o aluno poder tentar ir a exame fazer a disciplina, eu dou-lhe o 10. Ele merecia um cinco, mas eu dou-lhe um 10." Isto é uma inflação positiva, que faz sentido, que todos percebemos e, portanto, é mais complexo do que dizer público ou privado, e se há inflação ou não.
Filinto Lima, nós já aqui na nossa... Força. Ia colocar uma questão para o senhor.
Se calhar é bom responder à segunda questão, mas eu concordo com o Rodrigo e o Carlos. O que está aqui em causa é, na verdade, o acesso ao ensino superior. Mas esse acesso ao ensino superior pode estar a ser enviesado e pode estar a ser injustiçado aos alunos do ensino público.
Do público e do privado, cuidado! Há 130 escolas privadas.
Sim, mas eu ia já para esse número, porque, de facto, a inflação de notas a existir, parece-me, de acordo com estes dados da DGEEC, existe muito mais nos colégios do que nas 13 escolas onde 17% dos alunos alcançaram as classificações de 19 ou 20. Ou seja, eu aqui acho que poderia haver suspeição. Como é que se resolve este problema, na minha opinião? Resolve-se com programas da Inspeção-Geral de Educação nas escolas, que já aconteceram no passado. É verdade, não foi só em 2023, já acontece desde 2015.
E não mudou nada, Filinto. Mais vale acabar com as anuais para acesso ao ensino superior. Não estás de acordo? Se a anual deixar de contar, resolveu-se o problema. Temos o exame que modera a interna das bienais e das trienais.
Mas neste momento, penso que poderá ser essa a solução para este problema. Porque, na verdade, os nossos alunos, alunos das escolas públicas, têm um desempenho de excelência na universidade. Eu não falo de fora, há um estudo da Faculdade de Psicologia e Centro de Educação do Porto, do doutor Gil Nasser, que diz mesmo isso. Os alunos que saem das escolas públicas fazem o ensino universitário em menos tempo.
Aqueles alunos que saíram pra Faculdade do Porto.
Nós não treinamos os alunos só para os "pedalces", como disse o Rodrigo, o privado trabalha muito os exames. Nós também fazemos isso. Aliás, os nossos professores fazem isso fora de horas, como todos sabemos, mas também preparamos os alunos para a vida e para o sucesso no ensino universitário e no público, isso, de facto, se verifica frequentemente.
Filinto Lima, Rodrigo Queiroz e Mello, muito obrigado pela vossa disponibilidade para se juntarem a nós neste Explicador da Rádio Observador.