Entidade da Câmara de Lisboa que vai pagar oito milhões à Web Summit critica o investimento

A entidade municipal a quem a Câmara de Lisboa entrega o dinheiro destinado ao financiamento à Web Summit está contra a realização da despesa de oito milhões de euros, que será efetuada para a edição que decorrerá de 9 a 12 de novembro. Numa reunião de junho do Comité de Investimentos do Fundo de Desenvolvimento Turístico de Lisboa (FDTL), a cuja ata o ECO/Local Online teve acesso, o diretor-geral da Associação de Turismo de Lisboa (ATL), entidade responsável pelo FDTL, teceu várias críticas ao investimento camarário, proveniente da taxa turística municipal.
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EscolherSegundo a ata da reunião, António Valle, ex-chefe de gabinete de Carlos Moedas no primeiro mandato do autarca e nomeado para diretor-geral da ATL pelo próprio Moedas, considerou:
"A Web Summit não é um atrativo suficientemente forte de turistas e de investimento para justificar o esforço financeiro que está atualmente a ser feito, considerando que há outras formas de investir estas verbas com maior retorno na qualificação do destino [Lisboa]”
Adiantou ainda uma crítica ao custo da FIL, “que afeta não só os custos deste evento, como a capacidade de atração de outros eventos”. Recorde-se que em 2018 foi anunciada pelo então presidente da Câmara, Fernando Medina, uma expansão do recinto, que pertence à AIP.
Para essa obra, nunca iniciada, seria usado o acréscimo de receita trazido pela duplicação do valor da taxa municipal turística, de um para dois euros. Em 2019, a imprensa dava nota de que Fernando Medina e Paddy Cosgrave procuravam um espaço alternativo, caso falhasse a ampliação da FIL – a qual, em 2026, continua sem a prometida expansão.
Entretanto, nesta quarta-feira, o financiamento de oito milhões de euros foi a reunião da Câmara, onde acabaria aprovado pela coligação de Carlos Moedas e pelos socialistas liderados por Alexandra Leitão.
Com um entusiasmo para com a Web Summit claramente inferior à euforia que marcou os discursos de António Costa e Fernando Medina no início da Web Summit em Portugal, Alexandra Leitão, que votou a favor do financiamento, considera que Carlos Moedas está em falta: “Foi com estranheza que, ao lermos a ata do Comité de Investimentos, percebemos que Carlos Moedas critica o atual contrato com a Web Summit sem envidar quaisquer esforços no sentido de estudar a possibilidade da sua revisão, juridicamente fundamentada”.
Na ata do Comité de Investimentos do FDTL, reunido em junho, Carlos Moedas, que é por inerência o presidente do Comité de Investimentos do FDTL, disse considerar os termos do acordo assinado com a ConnectedIntelligenceLimited (CIL), empresa organizadora da Web Summit, “pouco benéficos” para o Estado português e para a Câmara de Lisboa. Não obstante, aprovou a entrega dos oito milhões de euros à empresa de Paddy Cosgrave e voltou a fazê-lo na reunião de Câmara que tornou a entrega definitiva.
Contactado pelo ECO/Local, o Executivo de Carlos Moedas salienta:
"O Executivo da Câmara Municipal de Lisboa encontra-se em estrito cumprimento das obrigações contratualmente assumidas no âmbito do financiamento do Web Summit. O contrato que sustenta este compromisso foi celebrado em novembro de 2018 pelo então Executivo municipal, presidido por Fernando Medina (PS), vigorando entre 2019 e 2028. Nos termos desse acordo, a comparticipação financeira anual do Município é atualizada de acordo com a taxa de inflação. Neste contexto, a atuação do atual Executivo limita-se ao cumprimento das obrigações contratuais em vigor, assegurando o respeito pelos compromissos previamente assumidos pelo Município de Lisboa.”
Já Alexandra Leitão, candidata derrotada por Moedas em 2025 e atual vereadora em Lisboa, justifica a aprovação com a inexistência de um estudo pretendido pela atual liderança do PS em Lisboa – partido que, com António Costa primeiro-ministro e Fernando Medina autarca assinou o contrato de 2018 que vincula a Câmara até 2028 – e “que pudesse consubstanciar uma revisão juridicamente fundamentada do contrato (e que só os serviços da CML podem fazer, por determinação do Executivo)”. Assim, explica, “o PS entende que os contratos são para cumprir”.
Compromisso assumido quando o mundo ainda nem sabia o que era a Covid-19
O início do compromisso remonta à década passada. Ainda a pandemia de Covid-19 não tinha assombrado o mundo, ainda a “Geringonça” governava Portugal, ainda Fernando Medina era presidente da Câmara de Lisboa e ainda Carlos Moedas era comissário europeu, quando o Governo de António Costa e a autarquia assinaram com a Web Summit um acordo para edições anuais até 2028.
Ao município então liderado por Fernando Medina ficou imputado o financiamento público ao evento privado da empresa cofundada por Paddy Cosgrave, o jovem irlandês (hoje com 43 anos) que se tornou mundialmente conhecido a partir de Lisboa.

O esforço financeiro da autarquia, segundo documentação consultada pelo ECO/Local Online, não tem parado de crescer.
Em 2019, foram 4,67 milhões de euros. Em 2022, já com Moedas à frente da autarquia, o custo do evento para a autarquia aumentou em quase 40%, para 6,3 milhões de euros.
Já em 2023, ano em que Paddy Cosgrave se viu obrigado a demitir-se da liderança da Web Summit, após comentários à invasão de Israel à Palestina, a fatura voltou a crescer: 7,07 milhões de euros. Apesar de grandes empresas terem decidido não se deslocar a Lisboa na sequência da polémica, a mobilização de fundos municipais agravou-se em mais de 10%. A conta não parou de crescer, a dotação aprovada pela Câmara em 2025 subiu para 7,20 milhões e, para que a Web Summit se instale de novo na FIL e na Altice Arena, a Câmara aprovou, numa reunião nesta quarta-feira, um total de oito milhões de euros.
Deste valor, uma parte, quase 606 mil euros, é respeitante a um montante ainda por saldar relativo à Web Summit de 2025, segundo documentos consultados pelo ECO/Local Online. Os restantes 7,39 milhões de euros do bolo total são relativos à edição deste ano.
Contudo, e tal como referido na convocatória para a reunião de Câmara desta quarta-feira, fica precavido que a edição deste ano trará outros custos, a somar aos oito milhões. E desta vez têm de ser pagos sem demoras à empresa de Paddy Cosgrave. Aponta a convocatória: “Após apresentação de todas as faturas comprovativas das despesas elegíveis e realizadas no âmbito da Web Summit 2026, e uma vez apurados todos os custos inerentes, transferir o valor remanescente, até final do ano económico de 2026”.

É esta a verba contestada na reunião à porta fechada decorrida em junho. Entre os membros do comité, o presidente da Associação de Hotelaria de Portugal (AHP) e anunciado candidato à presidência da Confederação do Turismo de Portugal (CTP) foi igualmente crítico e quantificou em cerca de um terço da verba agora aprovada o que consideraria o valor apropriado a retirar da taxa turística municipal para a Web Summit.
Na ata, lê-se que Bernardo Trindade “indicou não estar em causa o interesse do evento para Portugal, mas sim os termos do referido contrato e a repartição dos gastos pelas diferentes entidades considerando excessivo peso [sic] dos mesmos na taxa turística e na cidade de Lisboa face ao interesse nacional do evento”. Para o representante da hotelaria, se o entendimento dos “poderes públicos” for de manter a Web Summit, “o envolvimento da taxa turística no seu financiamento deve rondar os 2/3 milhões de euros por ano”.
Outro dos membros do Comité de Investimentos do FDTL, o presidente da AHRESP – Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal, considerou que “o impacto do evento é hoje incomparavelmente menor do que há uns anos”. Carlos Moura manifestou-se contra “um contrato ficar na dependência de um dos outorgantes”, considerando tal especialmente relevante no caso de se pensar num novo acordo para lá de 2028, findo o prazo do atual.
Questionado pelo ECO/Local Online sobre esta possibilidade de prolongamento da presença da Web Summit em Lisboa, o Executivo não respondeu até à hora de publicação.

Questionada, Alexandra Leitão não se compromete, para já, com uma posição para o pós-2028:
"Isso dependerá muito da análise a que nos referimos anteriormente, que a CML se inibiu de realizar, mas que consideramos imprescindível. O que se justificava em 2018 pode não se justificar em 2026 ou depois de 2028. Mas essa avaliação, bem como a decisão sobre a permanência do evento na cidade de Lisboa, e com que modelo, cabe ao presidente Carlos Moedas e à sua equipa. O PS pronunciar-se-á, no momento próprio, sobre as conclusões a que chegarem do estudo que entendemos que deve ser feito.”
Segundo Bruno Mascarenhas, vereador do Chega, o voto contra a proposta votada em reunião nesta quarta-feira foi feito “em coerência com o que temos dito contra este evento. Não aporta à cidade o que é propagandeado quer pelo PS, quando trouxe para Portugal a Web Summit, quer pelo engenheiro Moedas que continua, para já, a defender a organização do evento”, afirma. “É preciso perceber que não pode ser só a câmara a suportar o encargo. A Web Summit tem uma certa maturidade e não faz sentido ter apoios públicos”, defende. “Em breve iremos pronunciar-nos sobre este assunto”, promete o vereador do Chega.
Não há nada de muito novo. É uma proposta igual às de anos anteriores. Exceto numa coisa, que é mais dinheiro. É sempre mais dinheiro que no ano anterior. Este ano volta a ser.
Também opositor do financiamento à Web Summit, posição consistente ao longo dos últimos anos, João Ferreira, vereador da CDU na Câmara de Lisboa, considera, após a aprovação da proposta de financiamento, que “não há nada de muito novo. É uma proposta igual às de anos anteriores. Exceto numa coisa, que é mais dinheiro. É sempre mais dinheiro que no ano anterior. Este ano volta a ser”, diz.

Neste capítulo, interessa realçar que, embora o valor aprovado de oito milhões de euros possa fazer crer que há um agravamento de 10% face aos 7,2 milhões de euros de 2025, na realidade o custo imputável é de apenas mais 200 mil euros. Isto, porque 7,39 milhões de euros são por conta da edição deste ano e os remanescentes 606 mil euros referentes a extras não pagos no ano passado.
Em declarações ao ECO/Local Online, João Ferreira diz assistir agora a um refreamento do entusiasmo do PS e PSD com o evento:
"A Web Summit corre o risco de morrer órfã. Os pais da criança cada vez se afastam mais da criança e querem fazer crer que não têm nada a ver com o assunto.”

Sobre as críticas de António Valle, presidente da ATL, responsável pelo Fundo de Desenvolvimento Turístico de Lisboa, o vereador comunista considera “simbólico” o seu surgimento “preto no branco”. João Ferreira assegura que o Executivo afirmou na reunião de Câmara desta quarta-feira já ter feito uma avaliação à possibilidade de a autarquia se desvincular do acordo, mas que tal não seria possível. Contudo, considera, o facto de não ser apresentada prova que não foi feita.
A este propósito, Alexandra Leitão diz ao ECO/Local Online:
"A vereação do Partido Socialista na Câmara Municipal de Lisboa entende que o contrato deve ser objeto de uma análise rigorosa e fundamentada juridicamente, no sentido de perceber se as razões que justificaram a sua celebração (em 2018) continuam a fazer sentido ou se fazem sentido nos mesmos termos. Os contratos devem sempre ser acompanhados na sua execução e evolução, tendo em conta a avaliação dos pressupostos em que assentaram e dos resultados obtidos, mas a CML, sob a presidência de Carlos Moedas, demitiu-se de fazer o acompanhamento e avaliação da execução deste contrato, o que constitui, na nossa perspetiva, uma falha.”
Perante a entrega de oito milhões de euros à Web Summit, João Ferreira alude à necessidade de financiamento que os clubes e associações da capital apresentam. Segundo o orçamento municipal para 2026, os “apoios a entidades, associações e clubes desportivos” é menos de metade do valor entregue à cimeira tecnológica: 3,4 milhões. Mesmo somando os 3,7 milhões de euros para “apoios a instituições, associações a iniciativas sociais”, continua aquém do esforço financeiro para com a Web Summit. Ainda do orçamento para o ano em curso, as três creches construídas este ano custam 6,7 milhões de euros. Os centros de saúde superam em pouco a Web Summit: 8,5 milhões. Nos mesmos oito milhões fica o investimento em património cultural.
Contactados pelo ECO/Local Online, António Valle e Bernardo Trindade não responderam até à publicação desta notícia.