Juca Kfouri: Entre o tango e a maresia: um sul-americano sem pátria na Copa do Mundo
Eu não sabia, mas nascia ali a minha vocação para a abolição das fronteiras. Eu sempre fui um utópico. Carrego o sonho teimoso, romântico e anarquista dos amantes da liberdade: a ilusão bonita de um mundo sem cercas nem alfândegas morais, onde a América Latina não é uma colcha de retalhos dividida por geopolíticos, mas uma pátria grande, dolorida e indivisível.
Escrevo hoje porque uma dor transbordou. Escrevo do centro de uma dupla decepção. Sou metade argentino e metade brasileiro, e assisto aos dois povos que formam a minha própria carne se guerrearem de forma covarde nas redes virtuais. E o que é infinitamente pior: vejo pilares ideológicos que defendi a vida inteira desmoronarem sob o peso de uma máquina implacável de desinformação, ressentimento e ódio fabricado.
No princípio, o futebol era uma linguagem secreta que nos permitia falar sem tradutores. O samba e o tango conversavam de chuteiras. O drible brasileiro e a garra argentina eram duas formas irmãs de desobedecer à gravidade e ao destino. Uma rivalidade entre irmãos que se olhavam no espelho e se reconheciam, mesmo quando rangiam os dentes.
Nesta última Copa, a bola de certa forma voltou a sorrir em castelhano. Em sua campanha a Argentina não jogou apenas para vencer; jogou para lembrar quem era. Homens que pareciam carregar no peito a alma de um povo ferido pela economia e surrado pelas crises, correndo como se cada passe fosse o último pão da mesa, refundando a esperança em um canto só. Era o futebol em estado puro: pernas de vento, coração na boca e a teimosia de não se render jamais. Uma beleza de fazer chorar até os deuses neutros.
Assistimos, pela última vez no grande palco do mundo, à dança sagrada de Lionel Messi.
Ver um jogador que atingiu o que parecia inalcançável — um gênio absoluto que caminhana mesma altura mítica de Pelé e Diego — orquestrar sua última sinfonia foi um privilégio poético. Messi não corria apenas contra os adversários; corria contra o tempo, carregando nas costas a responsabilidade de dar alegria a uma nação inteira. Cada passo, cada passe, cada drible, cada gol, em espaço invisível, cada gesto de liderança era um ato de amor visceral à camisa, uma postura nobre, inspiradora e exemplar. Uma lição de união e entrega onde onze operários do futebol se transformaram em uma só alma.
Continua após a publicidadeMas a beleza, em tempos de penúria, virou um pecado imperdoável.
O ecossistema digital e midiático no Brasil, incapaz de encarar o próprio deserto de uma seleção brasileira apequenada e sem alma, preferiu a inveja. Nosso futebol atravessa uma seca profunda de títulos e de dignidade. Nossos jogadores transformaram-se em mercadorias etiquetadas, garotos de propaganda de casas de apostas obscuras,desconectados do povo e frequentes em manchetes fúteis. O torcedor brasileiro, traído por ídolos de plástico, olhou para o rival e viu a paixão e a poesia que gostaria de vestir.
Incapaz de igualar a poesia no gramado, uma massa ressentida e a mídia mercantilizada decidiram incendiar o poeta. De repente, os argentinos viraram os vilões universais. Tudo virou "trapaça", "maldade" ou "favorecimento".
A garra virou desonra; o brilho virou provocação.
A hipocrisia desse tribunal de internet escancarou suas garras e sua ignorância histórica quando a Argentina avançou no torneio e enfrentou os gigantes do velho continente.
Na semifinal contra a Inglaterra, assistiu-se no Brasil a um espetáculo de alinhamento colonial mimetizado de virtude. Nas ruas, nos bares e nas redes virtuais, orquestrou-se uma torcida apaixonada e ruidosa... pelos ingleses. A cada ataque britânico, a vizinhança vibrava; ao primeiro gol inglês, soltaram-se fogos de artifício. Para disfarçar a amargura e o recalque de torcer contra o rival continental, inventou-se a grande justificativa moralitária: "Torço para a Inglaterra porque os argentinos são um povo racista".
Continua após a publicidadeQue admirável, que trágica, que assustadora amnésia histórica. Em que sótão escuro os juízes do Twitter esconderam os seus livros de história escolar? O que foram os lordes e generais do Império Britânico senão os maiores e mais eficientes arquitetos do tráfico transatlântico de escravizados no planeta? O que foram os ingleses senão os saqueadores sistemáticos da Índia, da África e do Oriente Médio; os financiadores e articuladores da carnificina da Guerra do Paraguai — que dizimou a população masculina daquele povo irmão — e os manipuladores das dívidas soberanas da própria economia brasileira durante todo o século XIX?
Para exercitar o ódio infantil ao irmão da pampa, com quem dividimos a água dos mesmos rios e a dor da mesma exploração, o brasileiro não hesitou em vestir a peruca do imperador colonizador europeu. Esqueceram que, diante dos velhos impérios que nos saquearam, deveríamos ser uma só voz: América do Sul, pátria de sangue retinto, ouro roubado, matéria-prima pilhada e memória ferida. Mais uma vez, a bola, o suor, a alma e Messi nos trouxe dignidade. Resultado final: Argentina 2, Inglaterra 1. Dois gols germinados dos pés de Lionel Messi — por Malvinas, por Diego Maradona, pela dignidade ferida do futebol sul-americano.
O Brasil, incrédulo e humilhado na sua torcida imperial, dobrou a aposta no veneno: "Time corrupto", "bandidos", "Copa comprada".
Toda a raça, a recusa em baixar a cabeça e o amor à camisa que o torcedor brasileiro desesperadamente sonhava em reencontrar no seu próprio país foram reduzidos a crime quando executados pelo vizinho.
E o circo da incoerência atingiu o seu ponto culminante na final contra a Espanha. OS mesmos brasileiros que ergueram a bandeira do antirracismo para apedrejar o povo argentino torceram entusiasticamente e vestiram a camisa da Espanha — a mesma Espanha cujas arquibancadas de estádios de futebol chamavam o brasileiro Vinícius Júnior e tantos outros de macaco e atiravam bananas no gramado; a mesma Espanha dos navios negreiros, das encomiendas e do genocídio dos povos originários de toda a América Latina.
Onde estava a coerência? Onde estava a sobriedade? Onde estava a dignidade antirracista? Não havia causa moral, nunca houve. Havia apenas ressentimento puro, cego e desordenado, pronto para abraçar qualquer colonizador de estimação, desde que ele derrotasse o irmão de continente.
Continua após a publicidadeÉ preciso ter honestidade intelectual: há racistas na Argentina, assim como os há em São Paulo, no Rio, em Madri e no mundo. A Argentina carrega suas contradições e sombras históricas que precisam ser debatidas com a profundidade que o tema exige. O horror, contudo, é a forma como a mídia brasileira instrumentalizou essa pauta.
Assisti a uma enxurrada de acusações generalizadas que carimbavam a totalidade do povo argentino como essencialmente racista. Transformar os crimes ou providências lamentáveis de alguns na essência biológica ou cultural de uma nação inteira não é combate ao preconceito: é a definição exata de xenofobia. Se usássemos essa mesma régua desonesta e reducionista para julgar o Brasil — um país erguido e mantido pelo extermínio cotidiano da juventude negra —, que retrato sobraria do nosso próprio povo perante o tribunal da história?
O rótulo do "racismo argentino" serviu como um salvo-conduto moral para que o brasileiro se autorizasse a odiar o seu vizinho, destilando um veneno disfarçado de virtude.
O detalhe mais aterrorizante de toda essa arquitetura foi ver a própria esquerda brasileira embarcar em massa nessa tempestade. Pessoas, militantes, coletivos e veículos da mídia progressista, tomados por uma enxurrada de posts e matérias caça-cliques infladas pelo elemento patriótico, reproduziram sem qualquer filtro crítico um discurso abertamente xenófobo. A pauta do antirracismo foi sequestrada e reduzida a argumento de provocação de torcida. Ao agir assim, a esquerda perdeu a capacidade de ter pensamento próprio e passou a odiar com as mesmas palavras do seu inimigo ideológico, a extrema-direita. Ao abdicar da análise crítica para se alinhar ao linchamento virtual, o campo progressista cometeu o ato supremo de traição contra a memória da Patria Grande.
Fico me perguntando: onde estão os grandes acadêmicos, os intelectuais e os jornalistas sérios que investigavam a fundo as contradições do mundo, distantes da propaganda e dos cliques maliciosos? Onde estão os artistas e poetas que buscavam na abstração de suas ideias um caminho desbravador para novas estéticas? Onde estão os músicos para que não nos deixem esquecer o que realmente carregamos no coração?
Cadê a nossa esquerda? Cadê a esquerda que nos estimulava a criar, a inventar, a sonhar, a expandir o peito? Onde está o nosso novo Chico Science, pronto para desorganizar a mente estagnada e reinventar a nossa arte com lama e caos? O que sobrou hoje é apenas a busca medíocre por poder, seguidores e visibilidade barata. A esquerda virou uma barata tonta, perdida no próprio labirinto do espetáculo. Se a esquerda virou essa patrulha de censores, burocratas e gestores moralistas, que me cancelem de vez.
Continua após a publicidadePara compreender essa decadência, é preciso ir à raiz: o capitalismo venceu ao se instalar dentro da nossa própria mente.
Quando aceitamos nos tornar produtos de nós mesmos nas redes sociais, abrimos mão da nossa capacidade de escolha. Hoje, a vida é um investimento obstinado no valor individual de mercado. Vendemo-nos como mercadoria para obter valor ou para não perder espaço.
Dentro dessa lógica, tornou-se lucrativo vender-se como "uma pessoa boa", "do bem" ou "socialista".
Entregamo-nos à cadeia do capital para ostentar a máscara de uma justiça moralista. A luta deixou de ser pela igualdade real e passou a ser pela imposição de uma moralidade programada através de conteúdo raso.
O veneno é o único combustível que realmente transborda nessa engrenagem. Cativar pelo ódio e pela raiva é o que gera o clique. O hater foi completamente normalizado, e a reflexão foi substituída pela reação imediata. O reacionarismo virou o status quo comportamental.
Preferimos apontar culpados na praça pública digital a absorver o ódio do mundo, filtrá-lo na nossa consciência e transformá-lo na beleza que as pessoas merecem. Já não sabemos o que queremos; queremos apenas o que nossos dominadores programaram. Enquanto a amargura nos cegar, seguiremos como bots programáveis reproduzindo a violência e a asneira que nos impõem.
Continua após a publicidadeCombater a raiva, o ódio e a amargura é a nossa principal e mais urgente luta política — e ela começa dentro de nós. Quando formos capazes de vencer a amargura no próprio peito, poderemos olhar para o outro aceitando nossos erros e imperfeições. Do que importa a sua ideologia se a sua vaidade moral o cega? Do que importa o lado que você defende se a sua única arma é sempre a hipocrisia de um moralismo de fachada?
Historicamente, a esquerda sempre foi o abraço morno aos desajustados, aos dissidentes, aos excluídos, aos poetas loucos, aos errantes sem caminho. Precisamos de gente de verdade: gente boa, gente errada, gente certa, gente perdida, gente imperfeita. O falso moralista sempre foi nosso inimigo histórico. No pedestal da moral e da hipocrisia ordinária. só cabem os generais, os executivos, os políticos corruptos, os influenciadores caça-cliques, os burocratas e as patrulhas autoritárias. Mas o povo é o que nos resta. Não importa a falha: nossa missão humana é lutar por uma segunda chance para todos.
Quando as telas se apagam e o ruído da matilha cessa, vejo que a bola continua sabendo o que o mundo esqueceu: a única nacionalidade que realmente importa sobre a terra é a da beleza, da paixão, do afeto e da liberdade. Devemos ter a capacidade de transformar o ódio que nos impõem na beleza que as pessoas merecem.
E enquanto houver um menino chutando um trapo no chão, a utopia de um mundo sem fronteiras continuará viva em nós.
*Valentino Cabanillas Kmentt é jornalista e artista audiovisual.
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
