Episódio 4. Contramão
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Entrar e sair, nada de especial.
A entrada de serviço é na rua de trás. Não vieste trabalhar?
Não, eu vinha à procura do meu irmão.
O bar só abre daqui a umas horas. O teu irmão esteve cá ontem, foi?
Não sei. Eu vinha só ver se por acaso ele estaria por aqui.
Só assim. Sem me dares um nome ou mostrares uma foto? Tu fazes ideia de quantos gajos rebarbados é que vêm cá todas as noites?
Pois, de facto, era um bocado rebuscado. Eu tenho aqui uma foto dele no telemóvel.
A tua cara. Eu conheço a tua cara. Conheço a tua cara de algum lado. Tu tens a certeza absoluta que nunca trabalhaste cá?
Não.
E não queres? Olha que é bom dinheiro. Se fizeres as contas ao que ganhas por hora, é quase tanto como uma advogada. Sem contar com as gorjetas. E é um trabalhinho tão fácil. Tão fácil. É só pores essa boca linda a sorrir e mostrares um bocadinho de pele.
Isto foi má ideia. Ele aqui não está, de certeza. Obrigada.
Tu é que perdes.
"O Candidato Perfeito" é um podcast de ficção para ouvir em oito episódios. Uma coprodução Coiote Vadio e Observador, da autoria de David Neto e Manuel Pureza. Com as vozes de José Raposo, Paulo Calatré, Susana Brandão e a minha, Madalena Almeida. A música do genérico é de Arthur Costa. Episódio quatro: Contramão.
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De certeza que não quer um, Inspetor? São ótimos.
Não. Não, obrigado. Mais um grupo.
Tira foto.
Feito.
1h22. Dão entrada três homens entre os 40 e os 50 anos. Dois de estatura média, outro claramente mais alto, 1,80 m e tal. Este mais alto, tez mais pálida, os outros dois, morenos. Vestem casual, só um é que está de sapatos. Os outros dois, sapatilhas brancas. Casacos escuros, calças escuras também, bem apertadas. Skinny jeans, não é? É assim que se diz?
Sim.
Olha, o colega dos andorés concorda, tirou a fotografia, mas pelas caras e pelo ar entusiasmado, eu diria que eles vão mesmo é para ver as meninas. Não acha?
Não me consigo ajeitar com um gravador de telemóvel, sabe? Prefiro uma antiga.
Tem de se atualizar, Inspetor. Não me diga, também anda com uma calculadora no bolso.
Teresa, nós estamos aqui há mais de três horas.
Prontos, mas o bar também só fecha às 16h.
E porque é que nós não vamos lá dentro fazer umas perguntas? Ver se reconhecemos alguém.
Nós hoje viemos aqui para fazer uma primeira observação do local. Foi isso que combinámos ou não?
Inspetora, o carro preto que vimos na câmara de vigilância a sair da Serra de Sintra está ali parado. Não há de ser uma coincidência.
Por isso é que é importante ficarmos à espera e ver se alguém interage com o veículo.
O carro está ali claramente parado há umas semanas. Eu tenho de ir à casa de banho. Eu volto já.
Filha da puta! Inspetor.
Desculpe, inspetora, eu sei o que vai dizer, mas eu não tenho a sua paciência, não tenho o que quer que me diga. Eu já não aguentava mais tempo fechado ali no carro. Às vezes é preciso quebrar o protocolo e tomar a iniciativa.
Não, desculpe. Diga-me uma coisa: há plano para isto ou estamos aqui de improviso?
Não sei, depende daquilo que encontrarmos atrás da porta.
Claro, como se fosse a primeira vez que estamos aqui.
O quê?
Nada, inspetor.
O gajo do bar está ali. Vamos lá falar com ele. Boa noite.
Não há copos para ninguém. Não me interessa que estejam de serviço.
Quem é que disse que nós viemos para beber?
Quem é que disse que nós estamos de serviço?
Só o passo longo não são de me comer. E do ramo imobiliário também não me parece que sejam.
Olhe, amigo, eu sugiro é que a partir deste momento saiam menos palpites e piadinhas da sua boca e mais respostas às nossas perguntas. Está bem? A não ser que queira que façamos a rusga já, quando tem a casa tão composta.
O que vocês querem?
O carro lá fora, o Citroën preto que está ali estacionado.
O que é que tem?
Tem é que queremos saber se é seu ou se é de alguém aqui do bar.
E não conseguem ver essa merda no vosso computador? De certeza que já verificaram isso.
Pois, já. Nós estamos é a perguntar-lhe se conhece o dono do carro e o que ele está a fazer ali à porta, ainda por cima com os pneus todos furados.
Sei lá quem é o dono do carro. Só sei que está ali há quase um mês. Ok? Já liguei para os vossos amigos da esquadra, nada. Já liguei para a Câmara Municipal a ver se alguém reboca aquela merda, nada. É o ponto a que chegamos nesta cidade.
Apareceu ali, foi? Caiu do céu há um mês, já com os pneus furados?
Exatamente. Vim abrir o bar um dia e estava ali estacionado. Só uns dias depois é que reparei que ainda não tinha saído dali.
E não viu ninguém a rondar a viatura?
Vi. Eu tenho mais que fazer do que ver quem anda a rondar as viaturas. Meus senhores, querem ver a carta de bebidas ou posso continuar a trabalhar?
Nós voltamos em breve.
Estou cá de quarta a domingo a partir das 18h, não se esqueçam.
Tou. Olha lá, vieram cá agora dois polícias à paisana fazer perguntas sobre a merda do carro. Sim. O que é que fazemos agora? Ele vai querer puxar logo pelo caso Luna.
Talvez não. Acho que vai falar das propostas primeiro e depois é que deve passar ao ataque. A última vez que vocês debateram azedou muito rápido e ninguém quer repetir isso.
Tem de o encostar com a habitação, falar dos 3 mil fogos e da reestruturação do PDM. E se ele estrabuchar, volto a falar na cagada que fez na candidatura anterior, com as casas que disse que ia fazer e depois nada.
Não, isso é dos últimos temas do alinhamento e é exatamente onde o Vicente tem clara vantagem. Portanto, foque-se na higiene urbana, que é por onde o jornalista vai começar. Vai correr bem.
Vai. Tenho que correr.
Acha que ele vai falar no seu filho?
Se ele tiver um pingo de decência, é bom que não fale. De certeza que o avisaram para não tocar no assunto. Se ele falar do Zé num debate de televisão, vai perder muitos votos. Ninguém vai voltar a olhar para a cara dele da mesma maneira.
Sim, também acho. Estou? Sim, estamos mesmo a chegar. O quê? Sério? Mas isso são ótimas notícias, sim. O senhor engenheiro vai ficar muito contente, claro. Sim, ele está aqui ao meu lado. Ok. Obrigada. Até logo.
Então, o que aconteceu? Boa tarde. Você que é o agente Quina?
Sou. Boa tarde, inspetores.
Foi você que fez a detenção?
Fui eu que preenchi o relatório. O gajo entrou na esquadra pelo próprio pé a dizer que queria confessar tudo.
E já alguém o interrogou?
Não. Ele disse que só falava com os investigadores da Judiciária. Por isso é que eu liguei. Ele está lá dentro há uma hora. Entrem, à vontade.
Ok, obrigado.
Senhor Marco Resende, certo?
Isso mesmo. Boa tarde, inspetores. Estava a ver que nunca mais chegavam.
Se estava assim com tanta pressa, podia ter ido logo ter connosco à Judiciária. Poupava-nos a viagem. Por que se entregou aqui na esquadra?
Mais perto de casa.
Mais perto de casa, que é na Avenida de Paris, número 18, terceiro direito.
Correto e afirmativo
Muito bem. E quer explicar-nos o que aconteceu?
Decidi entregar-me voluntariamente. Já estava farto de esperar que me viessem apanhar em casa, mas pelos vistos a PJ gosta de tomar o seu tempo.
Não foi isso que a inspetora lhe perguntou, pois não? O que nós queremos saber é o motivo desta confissão. Onde é que estava na noite de 20 de março?
Estava ao pé do Santuário da Peninha, em Sintra. Já lá foram? Tem uma vista lindíssima.
Porque este senhor que está aqui à minha frente é um ser aquático com a capacidade de se transformar.
Em quê?
Sim, por um lado, todos nós sabemos que o senhor engenheiro é um tubarão. Pela maneira como faz os seus negócios e pela fortuna pornográfica que foi acumulando.
Claro.
Mas, por outro lado, é um peixe. E não é do signo do zodíaco que eu estou a falar. É um peixe porque é esguio. Escapa-nos das mãos sempre que o tentamos agarrar. Quando se começam a fazer muitas perguntas sobre as ligações que tem a pessoas duvidosas, o senhor desaparece.
Você é um polvo.
Lá vai ele com a corrente. Mas os lisboetas não querem nem um tubarão, nem um peixe à frente da nossa cidade. Eu sei bem que não quero.
Sr. candidato, mas que conversa é essa dos peixes? Fala é dos temas dos debates que é o que viemos aqui fazer. Fala da segurança nas nossas ruas, por exemplo. Fala do que é que faria em relação ao lixo urbano se ganhasse as eleições. Explica lá para nós porque é que não aperta a fiscalização e não quer passar multas a quem não cumpre as regras de limpeza da cidade. É para proteger os seus amiguinhos, donos dos hotéis e das empresas, não é? É isso, claro.
Eu sei muito bem porque é que está a querer pegar nesse tema.
Pois sabe. Eu sei que o senhor sabe.
Aliás, tenho todo o gosto em responder e a referi-lo para o website da nossa campanha, onde está bem visível o plano de cinco pontos que vamos implementar para resolver o problema dos resíduos. Isso, claro, se eu ganhar a confiança dos lisboetas, como acredito que vou ganhar. Se calhar não reparou, mas a responsabilização das empresas é precisamente um desses cinco pontos. Ele surge depois do reforço dos meios, depois da modernização da rede de higiene urbana, que bem precisa, e depois da educação e do incentivo aos cidadãos.
As suas prioridades é que, enfim...
Sim, mas para mim, lá está, antes de se falar de multas para quem não cumpre, é muito mais importante falar de campanhas de sensibilização.
Você nunca sensibilizou ninguém.
Incentivos para quem escolhe fazer o correto. O correto, que é uma coisa que para si se calhar é estranha. E com vantagens reais para quem ajuda a manter a cidade limpa. E só depois disso, aí, sim. Mas senhor engenheiro, eu sei muito bem porque é que o senhor quis falar de higiene urbana, senhor engenheiro. Sei muito bem.
Ah, sabe?
Não é por ter soluções, porque isso já toda a gente viu que não tem. Já toda a gente sabe que não tem. É para manter na conversa os seus slogans, que põe e os seus soundbites que põe nas redes sociais, como aconselham os seus diretores de comunicação.
Não, o seu slogan é muito melhor. Aquilo é que compra casas ardas.
A quem, aliás, o senhor paga rios de dinheiro, para lhe dirigirem a campanha, para depois virem dizer em comícios e em debates como este que estamos aqui os dois a protagonizar, que quer limpar a cidade e outras frases ridículas.
Claro que é, porque é o que falta fazer.
Diga lá às pessoas que nos estão a ver em casa. Diga lá. O senhor, que nunca esteve envolvido na vida política.
Pois não.
Só em com luzes sombrias dos seus patrocinadores. Responda à minha pergunta.
Diga.
Sente-se verdadeiramente preparado para ser presidente da Câmara Municipal de Lisboa?
Mas com certeza.
É que eu acho que o senhor fala muito. Fala muito, mas fazer, não faz nada.
Por acaso estava ali no fundo, já fora da cidade.
O que é que estava lá a fazer a essa hora?
Gosto de ir lá passear às vezes. Depois da meia-noite. É crime?
Então está a dizer-nos que foi uma total coincidência? Que por acaso estava ali no meio do mato cerrado e viu os raptores a chegar com o José Balbon?
Não estava assim tão longe da estrada, mas sim, foi isso. Vi uma carrinha branca quase nova a parar a uns 200, 300 metros à minha frente. Saíram três pessoas a agarrar outra, vendada e a espernear. Achei estranho.
E como bom samaritano, foi ver o que se passava.
Aproximei-me e percebi pela conversa que eram miúdos. Alguns nem 20 anos deviam ter.
E?
E vi os três a atarem o outro a uma árvore e a falarem de vingança e de como ele merecia estar ali amarrado e a pensar na vida. Sim, acho que foi isto que eles disseram.
E não lhe passou pela cabeça ligar à polícia?
Não tinha rede.
E mais?
Percebi que os três iam deixar o gajo ali sozinho, amarrado e vendado, então esperei que se afastassem e que a carrinha arrancasse para o ir ajudar. Aproximuei-me, tirei-lhe a venda e percebi logo quem era. São vocês? Desatem-me, caralho! Tirem-me daqui, já chega desta merda! Quem é este homem, caralho? Tu não estavas aqui com eles? Pajão. Desata-me. Aqueles ursos amarraram-me a uma árvore, queriam-me dar porrada. Tu viste? Não viste. Tu és testemunha. Por favor, tirem-me daqui. Eu chamo-me José Balbon. Sou filho do Vicente Balbon. Sabes quem é? Vá, tira-me daqui. Leva-me a casa, por favor. O meu pai paga-te. Paga-te bem. Damos-te dinheiro se me levares a casa, estás a ouvir? O que estás a fazer? O que é isso, caralho? Calma!
Como é que sabia quem é que ele era?
Ele identificou-se a ele e ao pai.
E depois, o que aconteceu? Porque é que se veio entregar à polícia?
Onde é que está o Zé? Onde é que está o Zé? Estou a falar pra ti, onde é que está o Zé?
Tenha calma, senhor Inspetor. Não se exalte, isso fica-lhe mal. Não é todos os dias que aparece o filho de um milionário assim plantado à nossa frente, completamente indefeso. E ser bom samaritano não paga a renda nem as contas, não é verdade?
Freitas, fazer negócios com o dinheiro que herdou do seu pai, envolve capacidades muito diferentes do que gerir um executivo da Câmara Municipal de Lisboa.
Pois, é diferente.
É que para ser presidente da Câmara não há margem pra erro. Não é aos seus acionistas a quem tem de prestar contas, senhor Engenheiro. São aos cidadãos desta grande cidade, que todos os dias lhe vão estar a pedir respostas para os seus problemas de mobilidade, de saneamento, de habitação, de integração, que é muito importante. Olhe lá pra câmera e diga se se sente verdadeiramente preparado pra isso, senhor Valbom.
Claro que sinto, por isso é que eu estou aqui, homem, pra lhe explicar a si, sobretudo a todos os lisboetas, porque é que devem votar em mim e não no senhor.
Desculpe, está-me a dizer que acha que tem capacidade pra isso tudo? Mesmo com zero de experiência política, que é o que tem, zero, e completamente desenquadrado de um partido tradicional?
Então, é mais uma razão pra fazer um melhor trabalho do que o senhor. Eu não estou sujeito a pressões, nem influências de estruturas partidárias que não servem pra nada.
Desculpe lá, e a sua família, senhor Engenheiro? Sente-se capaz de ser presidente da Câmara com o seu filho desaparecido há quase um mês?
Candidato Valbom, quer responder à pergunta do candidato Freitas?
Quero. Eu quero relembrar todos os lisboetas que estão a assistir a este debate que este candidato é um homem miserável que nem merece uma resposta.
Ataques pessoais é que não.
Que se aproveita de uma tragédia familiar pra tentar ganhar vantagem, numa ocasião que deveria ser uma troca de ideias e projetos pra implementar e melhorar a nossa cidade. Todos ouviram, senhor candidato, e ninguém se irá esquecer das suas palavras.
Isto é uma pergunta muito mais-
Eu quero aproveitar este momento em que o Aníbal de Freitas se revelou como um ser humano sem nenhuma dignidade, para responder às suas acusações de eu não falar e não fazer nada. Ao contrário deste senhor, eu prometi e cumpri. Como candidato da família, não me rebaixo perante ameaças, nem chantagens, nem as suas, nem as dos criminosos que raptaram o meu filho, ouviu? E por isso mesmo, também pela pressão que exerci sobre as exímias forças policiais que lideraram a investigação, um dos raptores do meu filho acaba de ser capturado. Recebi a informação a caminho deste debate, que me deixou extremamente feliz. Agora é esperar que a Judiciária consiga encontrar o Zé e que o traga pra casa são e salvo.
O Candidato Perfeito é um podcast de ficção para ouvir em oito episódios, produzido pela Coyote Vadio e pelo Observador. É escrito por David Neto e Manuel Pureza, com realização de Manuel Pureza, direção de elenco de Rita Tristão da Silva e assistência à realização de Clara Godinho. A direção de som, sonoplastia e música do genérico são de Arthur Costa. José Raposo é Vicente Valbom, Tiago Teotónio Pereira é José Valbom, Madalena Almeida é Margarida Valbom, Vera Moura é Sofia Rito, Paulo Calatré é João Durães, Susana Brandão é Teresa Macedo, Sara Matos é Inês Oliveira, Vicente Wallenstein é Filipe Delgado, Pedro Laginha é César Pontes, Carla Andrino é Mila Valbom, Francisco Beatriz é Aníbal Freitas. Este episódio tem a participação especial de Nelson Ferreira e Manuel Pureza.