Episódio 4. Perseguição em Roma

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9 am de 21 de maio de 2016. É sábado, mas em Lisboa, Luís Neves, diretor da Unidade de Contra-Terrorismo, e Manuela Santos, coordenadora de investigação criminal daquela unidade, estão a trabalhar. Estão em suspenso desde a véspera, a acompanhar a operação que está a decorrer a mais de 2500 km de distância. Há mais de 12 horas que os inspetores à porta do hotel não têm contato visual com Frederico Carvalhão Gil, desde que entrou no quarto na noite anterior. Em Roma, já são 10 am. É nesse momento que o telemóvel de Luís Neves toca. São más notícias.

Houve um período da manhã em que pensávamos que tínhamos perdido o alvo. Também é gíria policial, perdemos. Perder é que está fora de controle. Ou porque ele saiu por outra porta, ou porque saiu disfarçado, ou porque saiu e não foi visto, pode acontecer. Tivemos um período da manhã muito preocupados, furiosa e seriamente preocupados.

Ou seja, o hotel tinha duas entradas, não é? E não havia a noção de que havia a outra porta também.

À porta do hotel Contilia, a incerteza arrasta-se por alguns minutos. Um dos inspetores italianos que estão a colaborar com a PJ em Roma, avança para o interior do hotel. Dirige-se a um dos funcionários da recepção e pergunta-lhe pelo hóspede do quarto 519. É um movimento arriscado. A operação está a ser exposta. O funcionário assegura que Carvalhão Gil ainda não desceu do quarto. O italiano suspira de alívio. O alvo está controlado. São 10h20, quando Carvalhão Gil sai finalmente do hotel. A mensagem é recebida através do sistema de rádio da equipe de vigilância. O homem está na rua. O espião está com uma camisa aos quadrados, em tons de vermelho, azul e verde, e com umas calças claras. No pulso direito, usa uma pulseira de prata com uma ligeira folga. Traz a barba feita. Ao ombro, carrega a mochila preta com que chegou ontem a Roma. Mal sai do hotel, vira à direita e algumas dezenas de metros mais à frente, dobra uma esquina do quarteirão, novamente à direita. Segue em direção à estação central de Roma, Termini. Ao longo das próximas duas horas, o espião vai fazer uso de toda a experiência que acumulou nos anos em que foi um operacional do SIS. Sabe que antes de se encontrar com o contato russo, tem de garantir que não está a ser seguido. Por isso, toma as precauções obrigatórias que são aplicadas por todos os agentes de serviços secretos em situações semelhantes. Vai usar manobras de distração, ações de contravigilância e truques de dissimulação para perceber se está a ser espiado e despistar qualquer pessoa que o possa estar a seguir. Enquanto faz tudo isso, terá 27 inspetores portugueses e italianos atrás dele. Se voltarem a cometer um erro, como aconteceu à porta do hotel, Carvalhão Gil desaparece. "A Vida Dupla do Espião Traidor" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Ivo Canelas, com banda sonora original de Bruno Pernadas. Episódio 4, Perseguição em Roma.

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Carvalhão Gil entra na agitada estação de Termini. É fim de semana. Há centenas de pessoas por ali. Umas acabam de chegar a Roma, outras correm para não perder os comboios que estão prestes a sair. As equipes de inspetores portugueses e italianos vão seguindo o espião a uma distância de segurança. Há uma regra de que não se pode esquecer. É tão importante não perder o alvo de vista Como garantir que eles próprios não são detetados? Partemos. Por baixo do indicador das partidas, os enormes placares da estação mostram os vários destinos dos comboios para as próximas horas. Nápoles, Salerno, Veneza, Turim, Bari, Trieste. E essas são só as viagens para as cidades italianas. Depois, há todos os comboios para o estrangeiro. São dezenas e dezenas. As possibilidades são imensas. Os inspetores pensam na operação logística que podem ter pela frente, se o espião seguir para um destino mais distante. Carvalhão Gil tem outros planos. Compra um bilhete, mas para o metrô. Segue para a linha B, que termina na estação de Laurentina. Desce-se até a plataforma e entra no primeiro metrô que há. Uma equipa de inspetores entra na mesma carruagem. Próxima estação: Cavour. As portas abrem-se, mas o espião não se mexe. Acontece o mesmo na paragem do Coliseu e na do Circo Massimo. Pirâmide, na zona de Trastevere, é a estação seguinte. O espião finalmente sai, mas ainda não chegou ao destino. Sobe até à rua e continua a pé. A partir daqui, vai ser mais difícil manter a vigilância. Pedro Prata, um dos três inspetores da PJ em Roma, está numa das várias equipas que seguem o alvo.

E a partir do momento em que ele desembarca e sai da estação Trastevere, a gente percebe que ele começa a ter manobras sucessivas de contravigilância, comportamento errático. Senta-se num sítio, levanta-se e vai pra outro, volta pra trás. Todo este manancial de estratégias que simultaneamente podem ser para detetar se está a ser seguido ou para despistar quem eventualmente esteja a seguir.

Primeiro, o alvo caminha em direção a norte, pela Via Ostiense. A umas dezenas de metros, já consegue ver as duas torres cilíndricas e o contorno das muralhas da Porta de São Paulo, um edifício com 1700 anos. Dali, partem oito grandes avenidas e ruas principais em todas as direções da cidade. O espião continua para noroeste, rumo ao centro de Roma. Desta vez, pela Via Marmorata. Depois, a direção muda. Em vez de continuar para norte e aproximar-se do centro da cidade, vira à esquerda. Passa por várias ruas secundárias e acaba por atravessar o rio Tibre pela Ponte Testaccio. Chega ao quarteirão portuense e segue em frente, até à Avenida de Trastevere. Dois inspetores seguem de perto o espião. Os outros mantêm-se à distância, na reserva, protegidos. Cada equipa é identificada por um código e cada inspetor tem um nome atribuído pra aquela missão. Enquanto uma equipa faz a vigilância, há sempre outra dupla pronta para a substituir no percurso seguinte. O momento da troca é normalmente decidido por quem vai à frente. A seguir de perto, Carvalhão Gil. A substituição pode acontecer por dois motivos: porque os inspetores estão há demasiado tempo perto do alvo, correndo assim o risco de chamarem a atenção sobre si próprios, ou porque receiam ter sido efetivamente identificados. Como se diz na gíria policial, foram comprometidos. Carvalhão Gil já percorreu quase 2 km a pé. Está novamente a caminhar em direção ao centro do Roma. São 11h30 quando alcança a praça de Sidney Sonnino, a dois passos do rio Tibre. Senta-se na esplanada de um bar. Está sozinho. Ainda não foi detetado qualquer contacto suspeito. Noutra altura, o espião teria puxado de um cigarro, porque ele o ia fumar ali mesmo. Mas agora não. Há quase 10 anos que não fuma. Largou o tabaco quando perdeu o pai. E depois de ele próprio ter sido diagnosticado com problemas cardíacos. Os inspetores continuam atentos a todos os movimentos de Carvalhão Gil.

As equipes italianas têm todas meios de comunicação próprios para se comunicarem entre eles. E nós estávamos sempre encostados a um. Um pouco mais na retaguarda, não estávamos propriamente em cima dos colegas, mas estávamos sempre encostados, normalmente ao chefe de uma das equipes.

Vinte minutos depois de ele se ter sentado, Carvalhão Gil levanta-se da esplanada. Começa a fazer o percurso inverso, como se estivesse a regressar ao ponto de partida. Volta a cruzar o rio para a margem esquerda e segue até ao cruzamento entre a Via Galvani e a Via Nicola Zabaglia. Ao longo da última hora e meia, mudou várias vezes de direção e entrou e saiu de lojas sem comprar nada. Tanto caminhou de forma descontraída, como no instante a seguir, acelerou o passo. Agora, o espião parou. Está em frente à montra de uma loja de rua. Aparentemente, está a olhar para os produtos que ali são expostos, mas os inspetores fazem uma leitura bem diferente. Carvalhão Gil não tem o mínimo interesse pelo que está no interior da loja. O foco do espião está na vitrine que tem à frente. E que está a usar como um espelho para verificar cada reflexo e analisar os movimentos nas costas dele. Quer ter a certeza de que ninguém o seguiu. Mas as equipes de vigilância também sabem o que estão a fazer. E ao que tudo indica, não foram detectadas porque passados uns minutos, Carvalhão Gil volta a arrancar. Entra num bar ali perto e permanece lá dentro até cerca de 12h15, sempre sozinho. Depois, volta a sair e retoma a caminhada. Até aqui, correu tudo bem. Mas os inspetores estão prestes a enfrentar o maior desafio desta operação de vigilância. Carvalhão Gil entra no mercado Testaccio. O espaço ocupa quase um quarteirão inteiro do bairro com o mesmo nome. Cada um dos lados do edifício tem entre quatro e seis portas, e o espião vai usar várias delas. Carvalhão Gil faz aquilo a que na vigilância se chama um percurso controlado. Entra por uma porta. E a seguir, sai pela zona oposta do edifício. Volta a entrar e a sair do mercado, mas por uma entrada e uma saída diferentes. E depois, passa uma e outra vez pelo mesmo local, no interior do mercado. As equipes de vigilância vão se revezando. Pelo auricular, os inspetores que seguem o espião indicam o local exato onde ele está. Depois, afastam-se e uma nova equipe entra em ação. As manobras duram há vários minutos. É cada vez mais difícil manter uma vigilância eficaz. Tanto que, para reduzir o risco de serem detectados, há inspetores italianos a mudar de roupa antes de voltarem ao terreno. A tensão prolonga-se por cerca de 20 minutos, até que finalmente, Carvalhão Gil sai do mercado de vez. Atravessa mais uma vez a ponte de Testaccio. E está de volta à margem direita do rio Tibre. É quase 13h. Saiu do hotel há cerca de três horas. E já percorreu perto de 7 km. O espião levanta o olhar. Parece reconhecer alguém, à distância. É ele. De camisola vermelha, calças claras e relógio prateado no pulso esquerdo. Frederico Carvalhão Gil aproxima-se. Aquele homem está ali precisamente para se encontrar com o espião português. Estiveram juntos pela última vez há seis meses. Tanto quanto os inspetores conseguiram perceber, desde novembro do ano passado, que Frederico Carvalhão Gil e Sergey Pozdnyakov não trocam uma palavra. E agora, ali estão eles Em plena cidade de Roma, os dois, no mesmo local, à mesma hora, claramente à espera um do outro. A ação de vigilância em Itália não detectou nenhum telefonema ou troca de mensagens, mas cada um deles sabia exatamente onde deveria estar àquela hora. Este modus operandi está claramente explicado nos manuais de espionagem. Os encontros entre controlador e agente são sempre combinados com antecedência. É habitual, aliás, que data, hora e local sejam definidos de um encontro para o outro. É muito provável que os detalhes desta reunião em Roma tenham ficado definidos há meio ano na Eslovénia. Pozdnyakov está de pé no passeio do lado esquerdo, em plena Via Carlo Porta. É a primeira vez que os inspetores portugueses veem o russo. Carvalhão Gil aproxima-se. Os dois trocam um breve cumprimento. A uns 30 metros de distância, os inspetores italianos e portugueses notam uma certa cumplicidade. Nada de muito efusivo. É uma saudação contida. Uma mão no ombro, palavras breves, e os dois começam a caminhar em direção à Via Trastevere. As paredes do número 247A da Via Trastevere estão revestidas a mármore. Mas a cor original da pedra mal se vê por baixo dos grafites pintados com spray. Frederico e Sergey entram. O espaço é apertado. Há um balcão logo à direita e uma vitrine com uma dúzia de sabores diferentes de gelado italiano. Em frente à porta, há outro balcão e as mesas ficam à esquerda. Os dois espiões sentam-se na primeira mesa, logo a seguir à porta de entrada. Estão frente a frente, com o russo virado pra o exterior. Sergey Pozdnyakov tem vista direta pra rua. Pedem duas cervejas, uma Nastro Azzurro pra cada um. Em cima da mesa também estão três taças com aperitivos. Carvalhão Gil coloca a mochila preta sobre a cadeira à esquerda. O russo desaperta a bolsa cinzenta que trazia a tiracolo e coloca-a sobre a cadeira à direita. Os dois espiões conversam com cumplicidade. Carvalhão Gil despeja metade da garrafa para dentro de um copo alto. Depois de dar uns goles na cerveja, pega numa caneta e numa folha branca e escreve algumas palavras. À distância, a PJ está a ver tudo.

Quando vem a comunicação que eles entraram naquele café, nós estamos a uns 30 metros, uma esquina. Estavam nos a relatar o que eles estavam a fazer. Estão a conversar, ele está a escrever. Tinham visão pra o sítio donde eles estavam sentados, estavam mesmo ali junto à entrada, numa mesa. Mas houve colegas que entraram mesmo lá dentro. Relataram que eles já estão a trocar papéis, estão a escrever, estão a conversar.

Quando acaba de escrever, Carvalhão Gil empurra a folha até ao lado oposto da mesa. Sergey Pozdnyakov lê com atenção os apontamentos do espião português e rapidamente guarda a folha numa pasta azul. Depois, põe a pasta dentro da bolsa que pousou em cima da cadeira e continua a conversar. O que estaria escrito naquela folha para que o espião russo a guardasse imediatamente? Que relevância teriam aqueles apontamentos para que Pozdnyakov decidisse guardá-los, em vez de deixar a folha em cima da mesa? No papel, há apenas uma dúzia de linhas, escritas à mão por Carvalhão Gil. Mas por agora, sem forma de saber o que está naquela folha, os inspetores têm de limitar-se a observar o que está a acontecer. Há novas movimentações no interior do café Number One. O espião russo volta a pegar na bolsa, onde guardou a misteriosa folha, e retira um pequeno envelope branco Estica o braço na direção de Carvalhão Gil e o espião português recebe o envelope. Os dois homens estão dentro daquele café há cerca de 10, 15 minutos, não mais que isso. As autoridades acham que têm o homem certo, mas, ainda assim, precisam de confirmar, para lá de qualquer dúvida, que quem está sentado à frente a Carvalhão Gil é mesmo o espião russo Sergey Pozdnyakov. Uma inspetora italiana entra no café. Leva um telemóvel na mão que usa para filmar o português e o russo. São apenas 10 segundos de vídeo, não mais. A seguir, Silvia Dias, inspetora da PJ, passa no exterior junto ao café e faz o reconhecimento visual do espião do SVR.

Nós queremos só ter a certeza de que a pessoa com quem ele se encontrou era mesmo aquela para a qual nós tínhamos mandado a atenção europeia, porque tínhamos uma fotografia do Pozdnyakov, tínhamos conosco várias fotografias do Pozdnyakov, e então uns meus colegas que não eram conhecidos do Carvalhão Gil foram ao café e confirmaram que era o alvo que nos interessava.

Os inspetores italianos começam a ficar nervosos. Acham que a ação de vigilância que começou há mais de três horas à porta do hotel Contilia está a durar demasiado tempo. A cada minuto que passa, o risco de serem descobertos aumenta. Estão a ficar agitados e querem avançar já com as detenções. Mas a PJ precisa de mais uns minutos. Há uma razão para Pedro Prata, o inspetor que lidera a equipa da PJ no terreno, querer esperar mais um pouco.

Porque naquele momento havia uma série de itens que ainda não tinham sido, ou pelo menos não havia a perceção se já estavam na posse de um ou na posse do outro. Isto também tem outra vantagem: se eles forem detidos em separado, sem terem a perceção que o outro foi detido, isto dá uma série de argumentos à investigação para gerir com os alvos.

Mas os italianos insistem. É mesmo preciso avançar agora. E o português acaba por ceder. Pega no telemóvel, liga para Lisboa e dá a indicação. Os mandados de detenção podem entrar no sistema.

Simplesmente, aquilo já estava muito em brasa. Eu senti que da parte dos colegas italianos, que já me tinham transmitido que estava a ficar difícil, porque já tinham aparecido muitas vezes à frente do Carvalhão Gil e que isto podia correr mal e para a frente, tal e tal. E então eu disse: "Pronto, façam-no".

As equipas avançam. Em segundos, quase duas dezenas de inspetores entram no café e dão ordem de prisão a Frederico Carvalhão Gil e a Sergey Nikolayevich Pozdnyakov. Os dois espiões ficam sem reação.

Nitidamente, ele estava um bocado perdido. Não tinha a perceção do que estava a acontecer, de quanto é que aqueles que o prenderam sabiam. Ele não tinha essa noção. Nós tínhamos alguma preocupação, que aliás partilhamos com os colegas italianos, de mesmo na abordagem, ser uma coisa calma, contrariamente àquela imagem que a gente tem das abordagens à italiana, porque ele tinha e tem problemas de saúde, problemas para o coração e para a frente, mas algum cuidado na forma como lidámos com ele. A coisa foi pacífica.

Os portugueses não participam nesta detenção. Pedro Prata, Pedro Camarinha e Silvia Dias mantêm-se à distância, fora do café. Deixam as autoridades italianas fazer o trabalho delas. Formalmente, aquela é uma detenção da Justiça de Roma. Carvalhão Gil e Pozdnyakov estão sentados frente a frente quando a polícia entra no café. Mas assim que são detidos, as autoridades italianas ordenam-lhes que se sentem de costas um para o outro, afastados por alguns metros. O objetivo é simples: os dois espiões não podem trocar uma palavra, nem sequer cruzar o olhar. Carvalhão Gil e Sergey Pozdnyakov são transportados para a esquadra da polícia italiana. É uma viagem rápida. Quatro quilómetros para norte, 15 minutos pelo centro da cidade. Quando chegam, são colocados em celas separadas.

E durante uma ou duas horas, eles deixam-nos lá estar, sem darem assim muita conversa.

Os polícias italianos registam as impressões digitais do espião português. Fotografam-no E tratam de toda a papelada do processo. Depois disso, Pedro Prata aproxima-se pela primeira vez do espião do SIS.

"Frederico, somos a polícia portuguesa, sabemos de tudo, não há nada a esconder aqui." Nós conhecíamos muito ao de leve, mas não me reconheceu de início. Ele depois acabou por me reconhecer. E depois, deste momento inicial, eu fiz entrar o meu colega responsável pelo inquérito.

A próxima etapa é olhar cuidadosamente para cada uma das provas. Afinal de contas, foi por isso que Pedro Prata esperou até ao limite antes de avançar para as detenções. E dentro de brevíssimos instantes vai ficar tudo muito claro. O que estava naquela folha em que o espião português escreveu algumas palavras e o que havia dentro do envelope que o espião russo entregou a Carvalhão Gil. Passaram quatro horas desde a detenção. E os inspetores estão a revistar tudo o que os espiões tinham com eles no momento em que foram detidos. Primeiro, a mochila preta de Frederico Carvalhão Gil. Um dos quatro inspetores italianos que participam na revista, abre o fecho da mochila. No Café Number One, o espião do SIS foi visto a receber um envelope branco diretamente de Poznyakov. Mas dentro da mochila, há dois envelopes brancos de tamanhos diferentes. O inspetor abre o primeiro. É um envelope em plástico e no interior está uma pequena garrafa azul de vidro grosso e trabalhado. Parece perfume, mas é whisky escocês. Ainda selado da marca High Club. Cada garrafa de 700 ml como esta, custa em média 200 euros. Pedro Prata assiste a tudo. Quando vê a garrafa, uma imagem salta-lhe à memória. Esta garrafa é exatamente igual a uma outra de que o espião português se esqueceu há seis meses, no último encontro que teve com Poznyakov. Na altura, o inspetor percebeu, quando leu os e-mails de Carvalhão Gil, que o espião português chegou a escrever para o gerente do hotel em Trieste. Nesse e-mail, descrevia a garrafa que tinha deixado no quarto e pedia que a enviassem pelo correio. A seguir, o inspetor italiano pega no segundo envelope. É um envelope típico de carta. Lá dentro, envolvido numa folha A4 branca, descobrem um molho considerável de notas. São contadas uma a uma. Ao todo, estão ali 100 notas. Cem notas de 100 euros cada. São 10 mil euros em dinheiro vivo. O envelope ainda estava fechado, o que significa que o português nem sequer contou o dinheiro quando o recebeu da mão de Poznyakov. E também não há dúvidas sobre isso, porque Carvalhão Gil acaba por admitir que foi o espião russo quem lhe deu o envelope. Na mochila do português há ainda 1300 coroas checas, cerca de 50 euros. E também um conjunto de 19 folhas soltas. Cinco delas chamam a atenção dos inspetores. Estão em inglês e todas as cinco têm a margem inferior rasgada. Ainda assim, é possível perceber o que lá estava escrito. E é isso que gera mais apreensão entre os inspetores. São documentos NATO, muito possivelmente documentos classificados. É informação secreta e não devia estar ali. Numa das folhas, há indicações sobre desafios, riscos e ameaças à segurança energética dos Estados-membros da NATO. Também há documentos sobre ameaças terroristas e de pirataria aos fluxos de energia, sobre ciberataques contra infraestruturas energéticas críticas, documentos sobre a estabilidade dos distribuidores NATO e países de trânsito e ainda uma folha com notas sobre riscos económicos para o fluxo energético NATO. Já passa da meia-noite quando Sergey Poznyakov é revistado na esquadra. Tal como Carvalhão Gil, o russo dispensa a presença de um advogado oficioso. Dentro do saco cinzento do russo, os inspetores encontram uma máquina fotográfica com um cartão de 32 GB de memória Mas aquilo que mais lhes interessa, neste momento, é a folha. A folha que o russo recebeu de Carvalhão Gil e guardou imediatamente. Está em português. Os inspetores leem cada uma das palavras que o espião escreveu. "Gil Vicente, diretor adjunto. Mais ou menos 55. UMINT. Vigilância. Entrou para o serviço através de Daniel Sanches, ex-diretor-geral nomeado pelo ministro Dias Loureiro. É quadro da Polícia Judiciária. Está casado ou vive maritalmente com. Diretora formação. Mil euros. Quinhentos mais quinhentos. Cria cavalos. Vai com frequência a eventos ligados a cavalos, inclusive em Marrocos." São dados sobre o diretor adjunto do SIS, Gil Vicente. Nome, referências ao percurso que fez nas secretas e ao homem que o levou para os serviços. Esse homem foi justamente Daniel Sanches, o ex-diretor-geral do SIS. E este afirma que, a avaliar pela informação apreendida, Carvalhão Gil poderia estar a ser testado pelo espião russo.

Para mim é estranho, mas não sei qual era o ponto em que ele estaria já a trabalhar diretamente para os serviços ou não. Porque o SVR, como qualquer serviço muito bem estabelecido, antes de criar laços com alguém, primeiro experimenta, para ver se a fonte é fidedigna ou não. E geralmente, o que eles perguntam? Perguntam coisas sobre dados que eles já possuam, que possam ter a confirmação toda. Não se sabe qual é que é a pergunta que lhes foi feita e os dados que constavam. Por exemplo, de certeza que o SVR tem os meus dados todos, como o FSB e por aí fora. E, portanto, era uma coisa fácil de confirmar. Não sei com as outras questões que tivessem no papel, se aquilo era o teste para ver se a pessoa está a dar dados reais ou se está a meter ali uma tanga qualquer para ganhar umas coroas.

A revista ao espião russo ainda não terminou. Além da folha com referências ao diretor adjunto do SIS, dentro de uma pasta azul, há ainda dois pedaços de folhas A4, dois post-its com breves indicações e mais três folhas A4 com apontamentos feitos à mão. É para essas folhas que os inspetores agora olham. Numa delas, o espião português escreveu: "Declaro que recebi 10 mil euros. 21 de maio de 2016". Por baixo dessa frase, Frederico Carvalhão Gil deixou uma assinatura, mas usou o nome Francisco. A informação acaba de chegar a Lisboa. A equipa da Polícia Judiciária em Roma confirma que Carvalhão Gil e Sergey Pozdnyakov foram detidos. A 2000 quilômetros, na sede da Gomes Freire, também há inspetores preparados para entrar em ação. Arrancam minutos depois, em dois grupos e em duas direções. Vão fazer buscas às casas que Frederico Carvalhão Gil tem em nome dele. Uma em Lisboa, outra no Cassai. Vão à procura de mais provas. Têm indicações para apreender tudo o que esteja relacionado com Moscovo, Rússia, serviços secretos ou movimentações bancárias. Vão encontrar dezenas de documentos classificados e secretos, espalhados por várias divisões. Vão encontrar também maços de notas no total de vários milhares de euros. E vão encontrar, dissimulada no meio de livros, uma arma. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No entanto, se for assinante Standard ou Premium do Observador, pode ouvir já todos os seis episódios. Se ainda não for, basta assinar em observador.pt/assinar. No próximo episódio.

Alguém argumenta dizer que eram poupanças, mas naquelas centenas de notas que foram encontradas com ele, não havia uma única que tivesse entrado em circulação em Portugal.

Tinha no quarto, na casa dele, pilhas de papéis que não podia ter e documentos altamente confidenciais. E, portanto, abandalhou completamente o cargo que exercia.

Mas mesmo tendo a noção de que algumas das coisas que ele ali tinha o podiam comprometer, não podia, não devia ter e o podiam comprometer, não havia assim nenhum especial cuidado em esconder.

"A Vida Dupla do Espião Traidor" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Ivo Canelas, e tem banda sonora original de Bruno Pernadas. O guião e as entrevistas são de Pedro Rainho. A sonoplastia é de Mariana Sousa Aguiar. O design gráfico é de Miguel Ferraz o Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.

Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.