Episódio 5. Um maço de notas verdes
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Frederico Carvalhão Gil está preso há duas semanas. Foi detido em Roma há exatamente 17 dias, a 21 de maio de 2016. Chegou no domingo a Portugal e esta terça-feira já está em frente ao juiz. No Tribunal Central de Instrução Criminal. É a primeira vez que está na mesma sala que João Melo e Vítor Magalhães. São os dois procuradores do Ministério Público. São eles os responsáveis pelo processo em que o espião do SIS é o principal suspeito. Hoje, Carvalhão Gil apresenta pela primeira vez a versão dele da história. A voz sai-lhe pausada. Parece cansado. É um homem desgastado com tudo o que aconteceu desde aquele dia em Roma. Ainda na capital italiana, o espião partilhou um desabafo, pouco depois de ser detido. Pelo meio da conversa com os inspetores da PJ, assumiu: "Bati mesmo no fundo". Mas agora, em Lisboa, o discurso é outro. Carvalhão Gil tem uma explicação para apresentar e acredita que o que vai dizer pode justificar tudo aquilo que aconteceu em Itália. O objetivo das autoridades portuguesas foi claro desde o início: seguir para Itália, apanhar os dois espiões em flagrante, detê-los e trazê-los para Lisboa. Aos dois. O plano era também obrigar Sergey Pozdnyakov a responder por crimes de espionagem em Portugal. Querem interrogá-lo, julgá-lo e condená-lo. Frederico Carvalhão Gil já está em Lisboa, mas o homem do SVR, não. Os procuradores estão a fazer tudo para o trazer, mas Moscovo também está a pressionar as autoridades italianas. A embaixada russa em Roma exige a libertação imediata do espião. Antes que o Ministério Público português consiga falar com o russo, Sergey Nikolaevich Pozdnyakov vai desaparecer. "A Vida Dupla do Espião Traidor" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Ivo Canelas, com banda sonora original de Bruno Pernadas. Episódio cinco: Um maço de notas verdes.
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É a primeira vez que Carvalhão Gil fala sobre como conheceu o espião do SVR. A PJ acredita que os dois espiões podem estar em contacto há muito tempo. Pelo menos desde 2011. Ao SIS chegaram informações seguras de que os encontros duram há anos e de que Sergey Pozdnyakov não terá sido o único. Houve outros homens do SVR com quem o português se encontrou. Terça-feira, 7 de junho de 2016. Ivo Rosa entra na sala de interrogatórios do tribunal. O espião prepara-se para se levantar. O juiz diz-lhe que não é preciso. Ivo Rosa tem várias perguntas a fazer a Carvalhão Gil. Depois de seis meses de investigação, há muita coisa que não bate certo. Há demasiadas dúvidas sobre as ações do espião. O que é que o espião português sabe sobre o russo? Há quanto tempo fala com Sergey Pozdnyakov? E como é que se conheceram? Que tipo de relação têm? Ao centro da mesa, um pequeno aparelho emite uma luz vermelha intermitente. É o sinal de que o sistema de gravação do tribunal já está a funcionar Carvalhão Gil vai finalmente contar a sua versão. Diz que conheceu Sergey Pozdnyakov em 2014. Foi em junho ou talvez em julho. Já não se recorda exatamente do momento, mas lembra-se perfeitamente de como foi. Encontraram-se por mero acaso, conta. Carvalhão Gil estava sentado numa esplanada junto ao rio Tejo. Estava no Café Inn, a poucos metros do Padrão do Descobrimentos. Ouviu alguém falar russo na mesa ao lado. Entrou conversa. Não seria a primeira vez que o fazia, garante ao juiz Ivo Rosa. Por exemplo, quando ouvia alguém falar espanhol ou até francês, também abordava as pessoas. Na altura, ficou com a ideia de que Pozdnyakov estava em Portugal de férias e de que seria empresário. Não percebeu exatamente de que área, mas era definitivamente um homem de negócios. Passearam um pouco pela cidade e trocaram números de telemóvel. "Nasceu aí uma amizade?", pergunta-lhe o juiz. Carvalhão Gil prefere falar numa simpatia mútua, mas assume que foram mantendo o contacto, sobretudo pelo WhatsApp, mas também através da aplicação Viber. Nos últimos dois anos, desde esse primeiro contacto em Lisboa, estiveram juntos outras duas vezes. Apenas duas, garante o espião. Uma em Liubliana, em novembro de 2015, e outra em Roma, há apenas duas semanas. Nesta altura, o advogado de defesa de Carvalhão Gil já consultou o processo e sabe que esses são os únicos encontros entre os dois de que há registro formal na investigação. O espião fala num tom baixo. Em alguns momentos, a voz é quase imperceptível. "Talvez respirando fundo antes de responder às questões se ouça melhor?", sugere-lhe o procurador João Melo. "Quem sabe bebendo um pouco de água", propõe o juiz de instrução. E o interrogatório prossegue. Ivo Rosa tem uma dúvida. Em nenhum momento, ao longo destes dois anos, teve a mínima suspeita de que Pozdnyakov era funcionário das secretas russas? Que era, tal como ele próprio, um espião? "Eu nunca percepcionei nada dele que fosse dos serviços secretos russos", garante o homem do SIS. "Nem uma suspeita. Se tivesse tido dúvidas, teria de imediato reportado aos serviços." O Ministério Público suspeita de que já em Liubliana, o espião do SIS entregou uma pen com fotografias de funcionários das secretas portuguesas ao russo. Carvalhão Gil garante que não. "E no encontro em Roma?", questiona Ivo Rosa. "De que falaram a Itália? Qual foi, afinal, o motivo para aqueles dois encontros?" Carvalhão Gil explica que ele e o russo estavam a preparar as bases para um futuro negócio. "E foi por isso que recebeu os €10 mil?", questiona o juiz. Carvalhão Gil diz-lhe que sim. A ideia teria nascido em Lisboa e depois começou a ser aprofundada em Liubliana e mais um pouco em Roma. Iam montar um negócio de exportação de azeite. Funcionaria entre Lisboa e Moscovo. Carvalhão Gil ficaria responsável por comprar o produto, depois trataria de o fazer chegar à Rússia e finalmente, Pozdnyakov venderia lá o azeite. Foi por isso que recebeu aquele dinheiro, o correspondente a 50% do investimento que iam fazer em azeite. O espião português entrava com outros €10 mil e depois dividiriam os lucros. Metade para um, a outra metade para o outro. Esta explicação é uma surpresa para todos. Quando falou com os inspetores portugueses em Itália, Carvalhão Gil admitiu que se tinha encontrado com o russo noutras ocasiões, mas não fez uma única referência a qualquer negócio de exportação de azeite, garante o coordenador da operação da PJ em Roma, Pedro Prata.
Quando eu lhe digo assim: "Nós não viemos de Lisboa aqui por um palpite. Sabemos tudo." E ele somou dois mais dois, é uma pessoa inteligente. Ainda por cima, ele é agarrado numa situação em que dificilmente inventa uma desculpa, tirando aquela do azeite, que não tem pés nem cabeça. Nessa altura, não havia azeite nenhum Ele admitiu claramente perante nós que estava a trabalhar como oficial do SVR. A impressão que estava a precisar de tirar alguma coisa, ele disse tudo. Foram outros encontros, Áustria, Suíça, Marrocos.
Ivo Rosa também parece cético com a versão do espião e continua a fazer perguntas. Pozdnyakov entregou-lhe assim o dinheiro pra mão, 10.000 € e não exigiu mais garantias? Afinal, nós conhecemo-lo assim tão bem. Além disso, a julgar pelo que diz Carvalhão Gil, ainda só estavam a começar a definir o acordo. Então e se decidisse simplesmente ficar com o dinheiro? "Eu achei que era um bom negócio", limita-se a dizer o espião português. Manuela Santos coordenou toda a investigação da Unidade Nacional de Contra-Terrorismo da PJ. Conhece bem os detalhes do processo e também não acredita na versão do negócio de azeite.
Isso é completamente absurdo, não faz qualquer sentido. Ele nunca desenvolveu nenhuma atividade em Portugal de empresariado, nada. Isso não tem qualquer fundamento. O tribunal entendeu por bem devolver-lhe aquele todo o dinheiro que nós apreendemos lá em casa. Porque de facto, entendeu que realmente não era possível fazer uma relação direta entre aquele dinheiro e os pagamentos que tinha havido. Mas o facto de ele ter recebido os tais 10.000 € e ele até já sabia quanto é que lá estava, mesmo antes. Ele não tinha contado sequer o valor, mas adiantou logo que estariam ali 10.000 €, porque era o valor que realmente ele normalmente recebia. E não faz sentido alguém que está a querer fazer um negócio com o outro, o outro diz que entrega 10, ele próprio também teria e ele nem se digna de contar. Quer dizer, aquilo podia ser só a primeira nota ser uma nota de 100 e as outras serem tipo opaco.
As duas casas de Frederico Carvalhão Gil estão a ser alvo de buscas. O carro dele também. O cenário que os inspetores encontram espelha bem o perfil do homem que a PJ anda há seis meses a investigar, diz Pedro Prata.
Digamos que o espaço, de acordo com aquilo que foi reportado pelos colegas que foram à busca e que registaram, nomeadamente em foto e no auto, digamos que correspondia mais ou menos ao perfil que nós tínhamos do Carvalhão Gil. Uma pessoa um bocado desorganizada, um bocado caótica por fora, portanto com pouca disciplina, mesmo tendo a noção de que algumas das coisas que ele ali tinha o podiam comprometer, não devia ter e o podiam comprometer. Quer dizer, não havia assim nenhum especial cuidado em esconder.
Carvalhão Gil vive numa casa em Lisboa com a mãe. Quando os inspetores batem à porta, é o irmão dele quem abre. É ele que vai acompanhar as buscas. O quarto do espião é a segunda divisão à esquerda, a seguir à porta de entrada. A primeira coisa que os inspetores veem é a cama encostada à parede do lado direito. Está feita. A colcha bordada em azul com alguns apontamentos em branco, está absolutamente imaculada. Parece destoar do resto da divisão. De cada um dos lados da cama, há uma mesa de cabeceira. À direita, por baixo da janela, está um baú de madeira. Há ainda uma cômoda e várias caixas de arrumação cheias de papéis até acima. Parecem ter sido atirados pra ali à toa, sem qualquer organização ou critério. Do lado esquerdo da cama, há um roupeiro em madeira castanho com três portas. Por cima, estão mais caixas, malas e várias embalagens amontoadas. Os inspetores abrem a porta do meio. Lá dentro, encontram uma mala de viagem de pele num tom claro. No interior estão dois envelopes, um branco e outro castanho. No primeiro, leem a inscrição "Inválidos do Comércio". Abrem o envelope e a primeira coisa que veem é o verde. Um maço de notas verdes. São 75 notas de 100. 7.500 €. Dentro do envelope castanho, também há dinheiro. Só ali estão 65 notas de 100. São mais de 6.500 €. De cada lado da mala de viagem, há ainda dois bolsos. No direito, os inspetores encontram 67 notas, 6.700 €. No outro, há 13 notas, mais 1.300 €. Além daquela mala de viagem, no roupeiro estão penduradas várias peças de roupa, calças, camisas e casacos. No bolso interior de um blusão verde, um inspetor encontra mais um envelope branco. Este tem uma referência ao Grand Cevahir Hotel, um hotel de cinco estrelas em Istambul, na Turquia. Dentro do envelope, o inspetor encontra mais um conjunto de notas de €50 e de €100, e de CF$50 e de CF$100. São quase 200. Só ali, estão perto de €15 mil. Ao todo, só nesta casa, a PJ encontra €36.400 em dinheiro. No primeiro frente a frente com o juiz Ivo Rosa, o espião dirá que ter dinheiro vivo em casa é um hábito que ganhou nos primeiros anos nas secretas e que nunca mais perdeu. Há 30 anos, conta Carvalhão Gil, os funcionários do SIS eram pagos em notas. Os serviços faziam as contas, pegavam no envelope e colocavam o dinheiro lá dentro. E era assim que os funcionários recebiam o salário. Desde então, o espião diz que se habituou a ficar com algum dinheiro em casa. O inspetor Pedro Prata explica por que é que o argumento não é convincente.
Alguém argumenta dizer que eram poupanças, mas naquelas centenas de notas que foram encontradas com ele, não havia uma única que tivesse entrado em circulação em Portugal. Eram maioritariamente da Alemanha, algumas da Holanda e algumas de Itália. As notas têm um número que indica em que país é que ela entrou. O euro circula na Europa toda, mas é emitido num país e nesse país entra em circulação. E há uma letra que indica qual é o país. Em mais de 400 notas, não há uma única que tivesse entrado em circulação em Portugal.
Para Pedro Prata, não há a menor dúvida. Aquele dinheiro é o pagamento que Carvalhão Gil recebeu pelos trabalhos clandestinos que fez ao longo dos últimos anos e só pode ter vindo da mão dos russos. À medida que as buscas avançam, os inspetores encontram mais e mais provas que reforçam a mesma ideia. Há anos que Carvalhão Gil anda a passar informações sensíveis aos homens do SVR. Naquele quarto, para além de dinheiro, os inspetores encontram documentos espalhados por toda a parte. E não são uns papéis quaisquer. São informações classificadas que não podiam estar ali, muito menos daquela forma, sem qualquer cuidado de segurança. Em cima do roupeiro, há dezenas e dezenas de papéis. Entre cadernos e páginas soltas manuscritas, os inspetores encontram duas folhas especialmente relevantes para a investigação. Têm os contactos de uma série de oficiais de informações do SIS. Depois, reparam noutras seis, ainda mais comprometedoras. Destacam-se pelo cabeçalho: NATO Confidential. Na mochila azul, pousada no chão entre o roupeiro e a cama, há mais. Onze folhas com uma listagem exaustiva, com informações sobre funcionários das secretas portuguesas. E dentro de uma pasta desdobrável preta, também junto ao roupeiro, há outras quatro folhas com documentos NATO. E mais 18 folhas com informações sobre o exercício de gestão de crises da Aliança Militar Atlântica. É de março de 2015. É informação recente e que foi distribuída entre um grupo restrito de pessoas. No chão, entre a mesa de cabeceira e o roupeiro, a PJ encontra outras sete folhas suspeitas. A inscrição no cabeçalho deixa a equipa ainda mais apreensiva sobre a dimensão das informações passadas aos russos. O documento está classificado como NATO Secret Limited. É de outubro de 2015. Foi produzido um mês antes do encontro dos dois espiões em Liubliana e é extremamente sensível. Muita da documentação que encontram naquele quarto nunca deveria sequer ter chegado às mãos do espião. É o próprio SIS quem o garante ao Ministério Público. O caso é muito grave e vai piorar ainda mais. A PJ também está a fazer buscas na segunda casa do espião, no Cacém. Quem abre a porta aos inspetores é Tatiana, a cidadã russa que Carvalhão Gil conhece desde 2007. Apresenta-se como amiga dele. Explica-lhes que mora ali sem pagar renda e deixa-os entrar. Ao longo das buscas nesta casa, onde Carvalhão Gil só dorme nas raras vezes em que a mulher vem da Geórgia para o visitar, a Judiciária vai encontrar mais documentos classificados. Num dos móveis da sala, está um relatório da Unidade de Ação Contra-Terrorista da PJ. São 17 folhas guardadas dentro de um envelope A4 de papel pardo, onde se lê a indicação: confidencial. No quarto, há outro documento com o mesmo selo. É um relatório interno do SIS, composto por três folhas tamanho A4, que estão rasgadas numa das extremidades. Noutro móvel, os inspetores encarregados de revistar a sala apreendem alguns telemóveis e vários cartões SIM. Depois, entre alguns livros, simulado numa das divisórias da estante, encontram um revólver. É um Taurus, modelo 32 Long. Não tem qualquer munição. Um especialista em informática da Unidade de Contra-Terrorismo da PJ analisa o conteúdo das dezenas de cartões de memória encontrados nas casas de Carvalhão Gil. Estão cheios de fotografias. Algumas delas até já tinham sido apagadas, mas o inspetor consegue recuperá-las. Nas imagens, veem-se várias zonas no interior da sede do SIS: a sala de formação, os departamentos operacionais, o interior do bar do Torreão, no piso térreo do Forte da Ameixoeira e até a área de recepção do gabinete do secretário-geral do SIRP, que tutela todas as secretas. Há pelo menos uma dezena de funcionários nas imagens e algumas fotos parecem ter sido tiradas de forma dissimulada, sem que os espiões portugueses se apercebessem de que estavam a ser fotografados.
Portanto, eu acho que os elementos do processo são cabalmente demonstrativos de que havia aqui uma atividade dele deliberada, consentânea com todo o comportamento que ele teve. Gravou pessoas dentro do serviço e não foi por acaso, como ele também diz. Não, não é. Trouxe informação. Tinha na casa dele pilhas de papéis que não podia ter e documentos altamente confidenciais. E, portanto, abandalhou completamente o cargo que exercia.
Junho de 2016. Os inspetores da PJ passaram as últimas semanas a analisar ao detalhe a entrada e saída de dinheiro das contas de Frederico Carvalhão Gil ao longo dos últimos seis anos. Por esta altura, o SIS já transmitiu à PJ e ao Ministério Público a informação de que, a partir de 2010, o espião terá passado por algumas dificuldades financeiras. Entre pedidos de dinheiro a entidades de crédito e a bancos, Carvalhão Gil gastou num período de dois anos mais de 13 mil euros. Os inspetores acreditam que o espião do SIS pode ter aceitado vender informações ao SVR para ultrapassar essas dificuldades. Entre 2010 e 2015, entraram quase 73 mil euros em duas das contas em nome de Carvalhão Gil. Não há explicação oficial para aqueles valores. É dinheiro fantasma que não deixa rastro. O ritmo de entrada não é constante, mas há um pico em 2014, precisamente o ano em que o espião português admite ter conhecido Sergei Pozdnyakov. Só nessa altura entraram mais de 17 mil euros numa das contas e 12 mil euros na outra. De resto, todos os meses é depositado dinheiro vivo nas contas do espião. É dinheiro que entra, mas não sai. Desde 2011 que Carvalhão Gil só toca nas contas para pagar a renda e as despesas fixas com luz, água e internet. Para Pedro Prata, só há uma explicação para isso.
Andámos à procura de movimentos financeiros estranhos. Daí termos detetado que, de facto, havia um padrão de dificuldades económicas até 2011 e que deixaram de existir, aqui com um plus que foi o seguinte: ele praticamente deixou de movimentar as contas bancárias, ou seja, quem tem dinheiro vivo na mão não vai à conta bancária. Gasta o dinheiro que tem.
Desde que voltou a Portugal, há duas semanas, Carvalhão Gil tem estado em prisão preventiva. Mas Ivo Rosa acaba de admitir que isso pode mudar. O juiz de instrução diz que há formas alternativas de proteger a investigação e que prender um suspeito é uma solução de fim de linha.
Próprio do estabelecimento prisional é mais relacionado com os perigos de fuga ou quando a pessoa comete crimes a partir de casa, por exemplo, aí é necessário retirar a pessoa de casa. Agora, quando os perigos são, sei lá, o perigo de fuga pode ser acautelado por uma obrigação, seja com conveniência eletrónica ou quando esse perigo, há provas de atualidade adquirida no processo, entretanto a pessoa já não tem uma hipótese de qualquer prejudicar ou destruir ou tornar mais difícil aquela prova. Já se fizeram as buscas, já se fizeram as escutas, já se ouviram as pessoas, portanto, como a prova está consolidada e está segura no processo. Portanto, aí não é necessário a pessoa estar na prisão, porque já não tem hipótese de destruir o que quer que seja, porque isso já está consolidado no processo.
O Ministério Público recusa-se a aceitar que Carvalhão Gil possa ser enviado pra casa. Os procuradores defendem que os perigos são enormes. Há risco de fuga, risco de o espião continuar a praticar os mesmos crimes e há até risco de destruição de provas, o que necessariamente deixaria a investigação altamente comprometida. A PJ também não esconde a surpresa com aquela possibilidade colocada pelo juiz e deixa por escrito as possíveis consequências da decisão para o processo e até para as secretas portuguesas. Mesmo assim, o juiz Ivo Rosa mantém-se firme. E ordena que Carvalhão Gil seja libertado da cadeia e passe a estar em regime de prisão domiciliar. O inspetor da PJ, Pedro Prata, ficou perplexo.
É a opinião do juiz de instrução. Acho um bocado inconcebível como é que não percebe que a presença, cá fora, em plena liberdade, de um indivíduo que estava a colaborar com uma potência estrangeira, não pode comprometer o decorrer da investigação. Ele pode apagar mais indícios, há toda uma série de atividades que ele pode fazer. Achamos estranho, para não dizer outra coisa.
Dezesseis de junho, 18h30. Os técnicos da Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais estacionam em frente à casa do espião, na zona do Lumiar, em Lisboa. Estão ali para instalar os equipamentos de vigilância eletrônica. A equipa é composta por dois técnicos e dois guardas prisionais. Frederico Carvalhão Gil, que acaba de ser libertado, está com eles. Um dos guardas fica na carrinha celular. O resto do grupo sai em direção ao prédio de seis andares. O apartamento que o espião divide com a mãe fica no último piso. Como os elevadores são demasiado pequenos, têm de se dividir. Primeiro, sobe um dos técnicos, o guarda e o espião. O segundo técnico da reinserção fica à espera do outro elevador. E é completamente apanhado de surpresa quando a porta se abre e o homem que vem lá dentro começa a gritar com ele. Pergunta-lhe o que faz ali e, num tom hostil e agressivo, ordena-lhe: "Ponha-se a andar daqui pra fora". Quando percebe que o técnico não faz tensões de obedecer, o homem puxa-o por um braço, empurra-o pra dentro do elevador e volta a gritar: "Vais levar um enxerto de porrada". Aflito, o técnico da reinserção ainda tenta mostrar-lhe o cartão de identificação, mas não consegue. Naqueles instantes, para se tentar proteger, a única coisa que lhe ocorre é dizer que é funcionário do Estado. E o homem, finalmente, acalma-se. Atrapalhado, ensaia até um pedido de desculpas. Diz-lhe que pensava que ele era jornalista. Quando finalmente chega ao sexto andar, o técnico conta o que acabou de acontecer e Carvalhão Gil garante-lhe que não faz ideia de quem seja esse tal homem. É nesse momento que a campainha volta a tocar. E que se percebe que o homem que ameaçou bater no técnico da Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais é, afinal, José Manso Preto, o advogado de Frederico Carvalhão Gil. Se comparada com aquilo que está prestes a acontecer em Roma, a libertação de Carvalhão Gil é apenas um pequeno revés na investigação. Portugal está há quase dois meses à espera que o espião do SVR seja extraditado pra Lisboa. Quando Sergey Pozdnyakov volta a ser presente a um juiz no Tribunal de Roma. É o dia 14 de julho. Nesta altura, as autoridades italianas estão sob forte pressão de Moscovo. A embaixada russa exige a libertação imediata de Pozdnyakov. Garante que o homem do SVR é, afinal, um membro do corpo diplomático. Estava em Itália para uma missão de trabalho. Tem de lhe ser concedida imunidade. O Ministério dos Negócios Estrangeiros italiano reconhece. De facto, houve um tempo em que Pozdnyakov esteve destacado no país. Foi acreditado como primeiro secretário da Embaixada da Federação Russa, mas isso foi há sete anos. A comissão terminou a 17 de julho de 2009. Mesmo assim, a decisão de Roma não é favorável a Lisboa A sentença é sintética: o Tribunal da Relação de Roma recusou a entrega de Sergey Pozdnyakov às autoridades portuguesas. Tudo porque o crime de que o russo é suspeito terá sido cometido, em parte, em Itália. É uma derrota para as autoridades portuguesas. Mas nem sequer é a maior. Já no final da mensagem, que é enviada no mesmo dia para Lisboa, pode ler-se: "Se não houver outro motivo para o russo continuar preso, se a única razão for aquele mandado europeu que chegou de Lisboa, então o tribunal de Roma decide que Sergey Pozdnyakov deve ser imediatamente libertado." Em Portugal, Carvalhão Gil está em prisão domiciliária há praticamente um mês. Mas o Ministério Público recorre da decisão do juiz Ivo Rosa. Argumenta que, com a libertação do russo, a segurança do processo fica ainda mais comprometida. Os procuradores não conseguem entender como é que o juiz não vê o risco de haver destruição de provas. Avisam que os dois espiões podem falar, podem concertar posições, podem até encontrar-se, se assim entenderem. Agora, nada os impede disso. Defendem que Carvalhão Gil tem de voltar pra cadeia, mas não adianta. Ivo Rosa tomou uma decisão e não vai mudar de ideias. 8 de junho de 2017. Pouco mais de um ano depois de ter sido detido em Roma, Carvalhão Gil é notificado da acusação. Ivo Rosa quer levá-lo a julgamento por espionagem. José Manso Preto, o advogado do espião, não desiste. Tem 20 dias para requerer a abertura de instrução. É a derradeira oportunidade para evitar o julgamento. Pela frente, o advogado tem um novo interveniente: Carlos Alexandre. É ele o juiz que vai decidir se o caso vai mesmo ser julgado. A atitude de Manso Preto não se altera um milímetro. O advogado mantém-se perplexo. Depois de um ano e dois meses de prisão domiciliária, o Ministério Público continua a insistir na prisão preventiva. Toda a investigação, atira, é um enorme vazio. E a ideia de que o espião do SIS foi a Roma vender a porcaria zita de cinco nomes é-lhe inconcebível. As perícias são verdadeiras tretas. E o facto de as provas não poderem ser consultadas com a defesa faz deste um processo inquisitorial. Um ano antes, o advogado já tinha avisado: se esta linha for mantida, este processo não vai dar a lado nenhum. Exatamente a lado nenhum. Mas essa é uma história para o último episódio. No entanto, se for assinante Standard ou Premium do Observador, pode ouvir já todos os seis episódios. Se ainda não for, basta assinar em observador.pt/assinar. No último episódio.
Sentimos que a prova produzida em julgamento foi feita muito pela rama. Aquilo que levou o coletivo a tomar esse tipo de atitude, a substância da prova estava feita. É difícil contrariar um flagrante delito.
No nosso espírito nunca houve dúvida nenhuma, não prendemos nenhum inocente.
Estes temas têm que ser bem trabalhados, bem discutidos e bem conversados na quietude dos gabinetes, para que Portugal não saia beliscado na sua reputação internacional.
Eles tiveram que cortar todos os contatos com todos os ativos que ele geria, porque ele, neste momento, não pode gerir mais ninguém, a não ser que faça uma operação clássica, algo assim neste género.
"A Vida Dupla do Espião Traidor" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Ivo Canelas, e tem banda sonora original de Bruno Pernadas. O guião e as entrevistas são de Pedro Rainho. A sonoplastia é de Mariana Sousa Aguiar. O design gráfico é de Miguel Ferraz o Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.
Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.