Episódio 6. Não se cumprimenta um traidor
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Neiva da Cruz chega à sala de julgamento com uma missão: quer ajudar a condenar o homem que considera um traidor. Convocado pelo Ministério Público, o diretor do SIS vai testemunhar sobre o impacto que o caso da toupeira teve nos serviços secretos. Frederico Carvalhão Gil já está no piso sete do edifício A, no campus de justiça em Lisboa. Quando vê o antigo chefe entrar, o espião levanta-se e aproxima-se. São dos funcionários mais antigos da casa, colegas há exatamente três décadas. Neiva da Cruz fez parte do primeiro curso do Serviço de Informações de Segurança em 1986. Carvalhão Gil foi um dos 20 recrutas do segundo curso. Começou no dia 9 de março de 1987 e três meses depois já estava a ser enviado para fazer um estágio junto da CIA nos Estados Unidos. Há mais de um ano e meio que não se cruzam, desde que Carvalhão Gil viajou pra Itália. Agora, estão novamente frente a frente. O espião estende a mão para cumprimentar o diretor das secretas. Em vez de corresponder, Neiva da Cruz ignora-o, passa por Carvalhão Gil e senta-se na sala de audiências. Não olha na direção dele, não lhe concede sequer uma troca de olhares. Nada. O espião quer voltar a falar. Já o fez durante o interrogatório com o juiz Ivo Rosa, assim que chegou a Portugal, mas nessa altura ainda só pensava em defender-se. Agora é diferente. Agora vai passar ao ataque. Quer falar sobre os serviços secretos, sobre a forma como todos quebram as normas de segurança, sobre a enorme distância que existe entre o que está escrito nos manuais e o que de fato acontece na prática. Vai contar em tribunal que, durante os 30 anos em que foi funcionário do SIS, testemunhou muitos atropelos às regras, conversas indiscretas, documentos sem controle e até acessos indevidos a encontros de alto nível. Se o diretor do SIS quer destruir Carvalhão Gil, Carvalhão Gil quer destruir o SIS. "A Vida Dupla do Espião Traidor" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Ivo Canelas, com banda sonora original de Bruno Pernadas. Episódio seis: não se cumprimenta um traidor.
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O primeiro dia do julgamento é 23 de novembro de 2017. O espião chega por volta das 9h30 da manhã. Vem de fato cinzento, camisa clara e gravata roxa. Traz uma camisola de malha azul escura e, na mão, um bloco de apontamentos. José Manso Preto, o advogado, vem logo atrás. Acaba de fumar um cigarro antes de entrarem no edifício do tribunal. Este é um julgamento único. A regra é que as sessões sejam públicas. Até do ponto de vista simbólico, a porta da sala de audiências fica, por norma, aberta. Mas aqui não vai ser assim. O julgamento de Carvalhão Gil vai decorrer à porta fechada. Ainda antes da primeira sessão, a presidente do coletivo, Alexandra Veiga, explica por que motivos foi tomada esta decisão. Em primeiro lugar, para proteger o arguido. A juíza diz que a PJ descobriu determinados aspectos da vida privada e opções pessoais do foro íntimo de Carvalhão Gil, que não têm relevância para o processo e devem ser preservados. A outra grande razão para o julgamento não ser público prende-se, claro, com o tema central em apreciação: a alegada venda de segredos de Estado e segredos NATO. Esse detalhe está, aliás, na origem de outra particularidade do caso O tribunal não vai poder apreciar os documentos classificados que o espião tinha com ele quando foi detido em Roma, nem os que foram apreendidos nas duas casas dele. Não vai olhar diretamente para essas provas. Vai julgar o espião sem conhecer o conteúdo dos documentos que ele é suspeito de querer passar às secretas russas. Na verdade, não tinha obrigatoriamente de ser assim, mas explica o antigo diretor do Gabinete Nacional de Segurança, António Gameiro Marques, essa foi a opção dos três juízes.
O doutor juiz não foi credenciado, não quis ser credenciado e definiu ou determinou que a Autoridade Nacional de Segurança designasse dois peritos. E de facto, foram dois peritos que acompanharam o processo e eu recordo-me que ainda apanhei o fim do processo com ofícios a vir do tribunal para os peritos lá irem e acompanhar. Pronto. Isso pode acontecer e aconteceu.
Com o apoio da PJ, o Ministério Público passou seiscentos e dez dias a investigar o espião. Frederico Carvalhão Gil está acusado de crimes de espionagem, violação do segredo de Estado e corrupção passiva para ato ilícito. Para Manuela Santos, coordenadora de Investigação Criminal da PJ, o caso está blindado.
No nosso espírito nunca houve dúvida nenhuma. Não praticamos, não prendemos nenhum inocente , antes pelo contrário, é uma pessoa com grandes responsabilidades e é lamentável que isto aconteça. A nível do Estado português, um indivíduo com tantos anos. Um quadro superior, que chegou a ter funções até de direção e que se tenha deixado envolver nesta teia e tenha de facto comprometido de alguma forma a relação que havia.
Durante sete dias, a procuradora Cristina Janeiro apresenta as provas do Ministério Público. Para reforçar a tese da acusação, chama os mais altos responsáveis das secretas e também dirigentes intermédios dos serviços, inspetores da PJ e especialistas da Autoridade Nacional de Segurança. Logo no segundo dia, Maria João Coelho é uma das responsáveis do SIS ouvidas em tribunal. Confirma que várias das fotografias que Carvalhão Gil tinha com ele, foram tiradas dentro do Forte da Ameixoeira e mostram funcionários a trabalhar. Sete inspetores da Judiciária são ouvidos nos dias seguintes sobre a investigação e detalham ao coletivo de juízes os movimentos das duas contas bancárias de Carvalhão Gil. Também descrevem a forma como em maio de 2016, no dia em que se encontrou com o controlador russo em Roma, o espião se esforçou por despistar qualquer operação de vigilância de que pudesse estar a ser alvo. Em tribunal, são ainda ouvidos dois peritos da Autoridade Nacional de Segurança. Estão ali já depois de a entidade que protege a informação classificada, ter avaliado vinte e cinco documentos apreendidos a Carvalhão Gil. São documentos encontrados em papel na posse do espião, documentos que estavam guardados no portátil que ele tinha em casa e documentos que tinham sido apagados da memória desse mesmo computador, mas que a PJ conseguiu recuperar. Dezoito são documentos com algum tipo de classificação. Foram produzidos pela NATO e pelo Ministério da Defesa Nacional. A esmagadora maioria tem caráter reservado ou mesmo confidencial. Estes últimos nunca poderiam ter sido manuseados fora de áreas de segurança. São documentos que só podem ser consultados por quem estiver credenciado para esse efeito e que em caso algum, podem ser divulgados a pessoas não autorizadas. Os documentos são um dos principais trunfos do Ministério Público, que sustenta que não haveria nenhuma outra razão para o espião os ter com ele, a não ser querer vendê-los ao SVR. Em julgamento, o advogado de Carvalhão Gil vai usar os mesmos argumentos que sustentaram os inúmeros recursos que foi apresentando desde que o espião foi detido em Roma. José Manso Preto contesta que se fale em detenção em flagrante, por uma razão muito simples. Garante que no encontro que o cliente dele teve com Sergei Pozdnyakov, em Itália, não foi cometido qualquer crime. O advogado diz que Frederico Carvalhão Gil foi detido na companhia de alguém que seria apenas um potencial sócio. Explica que Carvalhão Gil até já tinha arranjado um fornecedor para lançar o negócio de exportação de azeite. Um amigo da Beira Baixa. Entretanto, esse amigo morreu. Caso contrário, ele próprio iria a tribunal desfazer o enorme equívoco do Ministério Público. O advogado também garante que Carvalhão Gil não fazia a mais pequena ideia, nem tinha de fazer, se aquele homem Com quem se estava a encontrar pela terceira vez, era ou não um espião do SVR. Para o espião do SIS, era apenas um parceiro de negócios. E sim, Pozniakov tinha com ele uma folha com nomes que o português lhe tinha passado. Por acaso, eram nomes de elementos do SIS. Mas para Carvalhão Gil, eram apenas pessoas que ele conhecia e que também teriam um negócio. Mais, o advogado acrescenta que vários daqueles nomes aparecem em pesquisas básicas no Google, como tendo algum tipo de ligação às secretas, pelo que aquela não pode ser considerada informação propriamente sensível ou confidencial. Os papéis que o espião português tinha na mochila? Manso Preto também garante que as perícias aos documentos apreendidos são nulas. Além disso, o advogado lembra ainda que Carvalhão Gil foi o primeiro a admitir a quebra de segurança. Os documentos são material classificado e nunca poderiam ter saído do Forte da Ameixoeira, e muito menos serem transportados até Itália. Mas garante também que a única coisa que o espião tencionava fazer com aquelas folhas quando as levou, era refletir sobre o conteúdo. Nada mais. José Manso Preto também recusa a ideia de que Carvalhão Gil andasse a passar fotografias dos funcionários dos serviços secretos ao SVR. Reconhece que o espião fotografou colegas na sede do SIS, sim, mas diz que ele também foi fotografado por eles noutras ocasiões. Está no SIS há 30 anos. As fotos, explica o advogado, são uma simples manifestação de convivialidade. Depois de ignorar a tentativa que Carvalhão Gil fez para o cumprimentar, o diretor do SIS prepara-se finalmente para falar em tribunal. Os juízes querem perceber que impacto é que a descoberta de uma toupeira teve nos serviços secretos. E Neiva da Cruz garante-lhes: a imagem das secretas portuguesas ficou seriamente comprometida depois da detenção de Carvalhão Gil. Explica que os serviços secretos de países aliados quiseram perceber o que se tinha passado ao certo e que tipo de fragilidades tinham sido identificadas. Diz que questionaram como teria sido possível uma situação daquelas acontecer e que, sobretudo, quiseram saber exatamente o que estava a ser feito para que nada de semelhante se viesse a repetir. Depois, acrescenta, houve ainda uma outra consequência grave: o risco de vida que os espiões portugueses passaram a correr. Foi preciso mudar tudo. Durante semanas, os serviços puseram em marcha uma renovação completa. As matrículas dos carros do SIS foram alteradas, os telemóveis dos funcionários tiveram de ser substituídos. Até as próprias missões no estrangeiro sofreram com a fuga de informação. Vários espiões tiveram de ser transferidos pra novas posições. Tudo por causa de Frederico Carvalhão Gil. Por não haver forma de saber que informação teria ele feito chegar aos russos. E mais importante ainda, por ser impossível saber o que é que o SVR planeava fazer com ela. Carvalhão Gil sabe muita coisa. E vai finalmente começar a falar. Como estratégia de defesa, escolhe atacar os serviços onde trabalhou durante 30 anos. Garante que não é o único a quebrar as regras de segurança. E tem vários exemplos para comprovar. Nas secretas, diz Carvalhão Gil, há impressoras por todo lado, em todos os pisos e em todas as salas, acessíveis a quem as quiser usar. Ali dentro, todas as pessoas imprimiam documentos classificados, garante o espião. Por vezes, era o próprio Ministério da Defesa a distribuir CDs e pens com material classificado. Noutras ocasiões, o espião usava pens pessoais, e não dos serviços, para armazenar documentos confidenciais. Carvalhão Gil revela que foram várias as vezes em que chegou a parar em supermercados a caminho de reuniões para comprar pens. E garante que as chefias nunca o alertaram para qualquer irregularidade. Nunca foi corrigido por um diretor de departamento, nunca foi advertido por um chefe de divisão. Para continuar a desmontar os argumentos sobre a segurança das informações, Carvalhão Gil dá um exemplo concreto de um exercício da NATO em Lisboa. Nesse encontro, só podiam participar elementos credenciados para acesso à informação classificada Os telemóveis tinham de ficar à porta, num armário. Terá acontecido em 2013 ou 2014, já não se recorda ao certo. Aquilo de que tem a certeza é que, de repente, olhou à volta e na sala estavam várias pessoas sem qualquer credenciação. Não podiam sequer ter entrado ali. Mas tiveram acesso a material classificado e ninguém pareceu incomodar-se com isso. "Uma coisa", garante o espião, "são as regras no papel, outra, muito diferente, é aquilo que acontece no dia a dia." António Gameiro Marques, ex-diretor do Gabinete Nacional de Segurança. Reconhece que o caso de Carvalhão Gil obrigou a alterar alguns dos procedimentos de segurança nas secretas.
Estes temas têm que ser bem trabalhados, bem discutidos e bem conversados na quietude dos gabinetes, para que Portugal não saia beliscado na sua reputação internacional. É muito importante que isto aconteça. É por essa razão que eu disse que com o senhor embaixador de Portugal na NATO, na altura, fomos falar nisso. Tudo isto foi articulado, obviamente, com a minha tutela na altura. E também nós, discretamente, mas com perseverança, ajudámos os serviços a afinar procedimentos para que a probabilidade de isto voltar a acontecer fosse minimizada.
Antes de se levantar do banco de testemunhas, Frederico Carvalhão Gil só quer contestar mais um ponto: a ideia de que a identidade dos funcionários dos serviços é classificada e não pode ser divulgada publicamente. Conta a história de um grupo de funcionários do SIS que costumava reunir-se todos os dias ao almoço num restaurante perto do Forte da Ameixoeira. Garante que à mesa se falava de tudo: nomes de espiões, datas da realização de missões e até detalhes de operações. À mesa, garante também, não estavam apenas agentes dos serviços. Estavam pessoas de fora que não tinham qualquer relação com as secretas. Quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018. Passam 25 minutos das duas da tarde. Na sala do tribunal, de frente para o trio de juízes, está Frederico Carvalhão Gil. Dois anos depois da detenção do espião em Roma, Alexandra Veiga, a presidente do coletivo, lê a sentença. O tribunal dá como provado que o espião conhecia por dentro a realidade política da Federação Russa. Como antigo agente na área da contraespionagem, tinha um conhecimento detalhado do modo de funcionamento dos vários braços das secretas russas: o FSB, o GRU, que atuava na área militar, e o SVR, de Sergey Pozdnyakov. Como representante do SIS nos exercícios da NATO ao longo de vários anos, teve acesso a um manancial de documentação classificada, restrita e secreta, nacional e internacional. Nessa qualidade, conhecia bem tanto as vulnerabilidades como os pontos fortes do sistema. "O espião do SIS", continua a sentença, "quebrou as regras a que estava obrigado. Quando reteve documentação classificada que lhe tinha sido passada pela NATO para ser entregue ao SIS. Quando copiou documentos protegidos. Quando se encontrou com Sergey Pozdnyakov em Liubliana e em Roma. E finalmente, quando passou informação classificada ao espião russo e recebeu dinheiro em troca." O tribunal não tem dúvidas. Se a polícia italiana tivesse avançado mais tarde para a detenção, Carvalhão Gil teria dado ao espião russo os documentos NATO que tinha na mochila. E tem também a certeza de um outro dado crítico. Ao contrário do que sempre alegou, Frederico Carvalhão Gil sabia que Sergey Pozdnyakov não era um empresário. "O homem do SIS", sublinham os três juízes, "sabia que o russo era um espião, que pertencia ao SVR e que o que estava a fazer era crime." Depois, a sentença avança um número final. Entre a casa de Lisboa, a casa no Cacém e a mochila que levou para Roma, Frederico Carvalhão Gil tinha guardados, de forma indevida, 268 documentos classificados. Os juízes rejeitam o principal argumento da defesa. De que os encontros entre os dois espiões serviam para preparar um negócio de azeite, que Carvalhão Gil tinha um amigo que seria o fornecedor, ou que só referiu o nome do diretor-adjunto do SIS, Gil Vicente, por causa dos alegados negócios de cavalos que ele teria em Marrocos. Mas nem todos os pontos da acusação são dados como provados. O tribunal não deu como provado que em Liubliana o espião tivesse entregado uma pen ao homem do SVR. Não aceitou a acusação de que Carvalhão Gil tivesse recebido, nesse encontro, €25.000 da parte de Pozdnyakov. E também não validou a tese de que os €36.000 escondidos na casa de Lisboa, tivessem sido entregues ao espião português pelos russos. Ou seja, à exceção do envelope com €10.000 recebido em Roma, perante a vigilância das autoridades portuguesas e italianas, o tribunal não deu como provado que o restante património de Carvalhão Gil estivesse ligado à venda de segredos à Rússia. A sessão de leitura da sentença dura uns breves 25 minutos. No final, Carvalhão Gil ouve a pena que lhe é aplicada. É condenado pelos crimes de espionagem e de corrupção passiva para ato ilícito. No total, o tribunal fixa a pena em sete anos e quatro meses de prisão. Frederico Carvalhão Gil vai mesmo pra cadeia. Mas houve discórdia entre os juízes. A presidente do coletivo, Alexandra Veiga, defendia uma pena mais pesada. Queria condenar o espião por mais um crime: o de tentativa de violação do segredo de Estado. Para a juíza, não havia como ignorar que Carvalhão Gil tinha em casa todos aqueles documentos classificados. Estava convencida de que a intenção do espião era continuar a vender informações aos russos. Na PJ, a sentença gera sentimentos mistos. Por um lado, Carvalhão Gil foi considerado culpado. Por outro, há quem sinta que os juízes podiam ter ido mais longe, que não perceberam exatamente o que estava ali em causa. Pedro Prata, o inspetor que coordenou a operação, queria mais.
Sentimos que a prova produzida em julgamento foi feita muito pela rama. Aquilo que levou o coletivo a tomar esse tipo de atitude, dificilmente deixaria de haver uma condenação. Só se por qualquer erro formal. Agora, a substância da prova estava feita. É difícil contrariar um flagrante delito. Agora, tudo o resto que a polícia e o Ministério Público fizeram juntar ao processo no sentido de consolidar a prova, achamos nós que não foi devidamente explorado, mas isso são opiniões.
E Portugal registra oficialmente 59 casos confirmados de coronavírus.
São quase 16h, quando António Teixeira toca a campainha, no número 22 da Rua Luís de Freitas Branco, em Lisboa.
E outras 400 que constituem casos suspeitos.
"Polícia", anuncia o agente da PSP ao intercomunicador. A Organização Mundial de Saúde acaba de declarar que o vírus que está na origem da Covid-19 atingiu uma dimensão global. O mundo enfrenta uma pandemia. A porta do prédio abre-se e o agente António Teixeira sobe o elevador até ao sexto andar. Outros dois agentes da PSP sobem com ele. Quando chegam lá acima, está um homem à porta. Deve andar pelos 60 anos, talvez um pouco mais. O agente confirma o nome do homem com o nome que está no papel que traz na mão. Depois, lê-lhe o documento em voz alta. É um mandado de detenção. Passaram quase dois anos desde que o espião foi condenado. Desde fevereiro de 2018, foram rejeitados todos os recursos que o advogado de Carvalhão Gil apresentou. A sentença transitou finalmente em julgado a 10 de janeiro de 2020. Entretanto, já passaram quase dois meses. Carvalhão Gil ouve a leitura do mandado. No final, limita-se a dizer que sim, entendeu tudo o que acaba de ser dito e não tem objeções a fazer. Sabia que este dia ia chegar, era só uma questão de tempo, mas não estava à espera que fosse hoje. Não houve nenhum aviso prévio, nem uma notificação do tribunal. É levado para o edifício da PJ, mas não fica detido ali. Na capital, só o estabelecimento prisional de Lisboa tem um plano de contingência em vigor por causa da pandemia. No dia seguinte, é transferido para Évora. Indicam-lhe a cela que lhe está destinada. Vai ficar ao lado de Armando Vara, o ex-ministro condenado por tráfico de influências no processo Face Oculta. O espaço tem cerca de dois metros por três. À direita da entrada, há uma cama. E por cima, um pequeno armário para arrumar produtos pessoais. À esquerda, está uma secretária. Há ainda mais um armário onde Carvalhão Gil pode guardar as poucas peças de roupa que traz com ele. Ao fundo, há um lavatório com uma sanita ao lado. Não há portas, não há cortinas, não há a menor privacidade. Do exterior da cela, a partir do corredor, aquela zona é totalmente visível. Ao longo dos próximos tempos, vai passar 23 horas por dia entre o interior daquela cela e a zona comum dos presos em Évora. Tem uma hora por dia de tempo exterior no pátio. É a única altura em que os reclusos das duas alas da prisão estão juntos. Na ala onde o espião foi colocado, estão os detidos com algum tipo de fragilidade física, com situações clínicas diagnosticadas. Além de Armando Vara, também ali estão como reclusos, agentes da PSP, militares da GNR e guardas prisionais. Cumprem pena por crimes relacionados com o tráfico de droga, corrupção e abuso sexual de menores. Carvalhão Gil não vai fazer amizade com nenhum deles. Dez de abril de 2021. Contando com os dois anos em que esteve em prisão domiciliária, Carvalhão Gil já cumpriu dois terços da pena a que foi condenado. O conselho técnico do Tribunal de Execução de Penas reúne-se e vai avaliar se o espião já está em condições de sair em liberdade. O Ministério Público é ouvido e não se opõe. A decisão é tomada por unanimidade. Carvalhão Gil pode sair. Há alguns meses que lhe são concedidas saídas precárias. Está justamente a regressar de uma delas. Esteve três dias fora porque foi passar a Páscoa à casa. Nem chega a entrar na prisão. Logo à entrada, dão-lhe a boa notícia. Foi-lhe concedida a liberdade condicional e pode ir-se embora. Até hoje, Frederico Carvalhão Gil nunca reconheceu ter cometido os crimes pelos quais cumpriu pena. Foi condenado em primeira instância e a decisão foi validada pelo Tribunal da Relação, mas continua a não admitir que agiu contra o próprio país. Passou pouco mais de um ano desde que a PSP o foi buscar a casa. Desde então, a vida dele mudou por completo. O processo disciplinar que o SIS abriu depois da detenção em Roma acabou por resultar na expulsão das secretas. Carvalhão Gil nunca mais vai poder entrar no Forte da Machoeira. O ressentimento contra ele é inultrapassável. O agora ex-espião também não voltará aos encontros da maçonaria no Bairro Alto. A loja romã do Grande Oriente Lusitano, onde durante anos foi presença assídua, abateu colunas. A expressão usada pelos maçons para quando uma loja é suspensa ou encerrada. Mas nem sequer é só isso. O ex-espião nunca chegará a sabê-lo formalmente, mas logo a seguir à condenação, tornou-se indesejável. A maçonaria fechou-lhe as portas. Sergey Pozdnyakov desapareceu. Não há notícias do russo do SVR desde que foi libertado da prisão em Roma, em julho de 2016. Uma coisa parece evidente: não terá ficado em Itália. E dificilmente terá continuado nos serviços de informações russos. Ser descoberto com um agente de outro país e, pior ainda, ser detido pela polícia italiana, foi um duro golpe para o espião, explica o inspetor Pedro Prata.
Muito provavelmente, o que aconteceu foi o seguinte: ele sendo um oficial de topo, em termos de gestão de ativos sensíveis, de alta importância, a detenção dele deve ter causado bastante dano na estrutura do SVR. Isto porque até o SVR perceber o que aconteceu, por que teve este desenlace, eles tiveram que cortar todos os contatos com todos os ativos que ele geria. Portanto, passaram sempre aos planos B, porque ele, neste momento, não pode gerir mais ninguém, a não ser que faça uma operação plástica, ou algo assim.
Carvalhão Gil ainda estava preso em Évora quando pediu à Caixa Geral de Aposentações para calcular o valor da pensão a que teria direito. Tinha mais de 60 anos e mais de 40 de descontos. Estava na hora de pensar na reforma. O cálculo do valor, responde-lhe, andará à volta dos 1500 € mensais. É menos de metade do salário que tinha antes da detenção em Roma. Carvalhão Gil contesta. Não concorda com o valor. Estão a tirar-lhe anos de serviço. Recorre formalmente da decisão e consegue que o valor seja revisto. Agora é um homem livre. Cumpriu a pena a que foi condenado, mas também perdeu tudo. Não pode voltar ao SIS e as poupanças estão a esgotar-se. Por isso, precisa de arranjar trabalho. Fevereiro de 2026. Carvalhão Gil acaba de sair à rua. Ainda é cedo. Dirige-se ao carro que estacionou ali, perto de casa, na noite anterior. Abre a porta do condutor e senta-se ao volante. Antes de ligar o carro, encaixa o telemóvel no suporte, desbloqueia o ecrã e abre a aplicação Uber. Inicia a sessão. Assim que recebe uma notificação, aceita o pedido e arranca. Carvalhão Gil vai transportar o primeiro cliente do dia. "A Vida Dupla do Espião Traidor" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Ivo Canelas, e tem banda sonora original de Bruno Pernadas. O guião e as entrevistas são de Pedro Rainho. A sonoplastia é de Mariana Sousa Aguiar. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Podcast P lus do Observador. É mais do que um podcast.
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