Escrever bem virou sinal de suspeita de uso de IA? | CNN Brasil
De repente, a colocação de uma vírgula em uma frase trivial — como “Oi, amigo” — começou a incomodar as pessoas e despertar desconfiança: será que quem escreve assim está usando inteligência artificial? Mesmo exagerada, a questão revela uma mudança curiosa na forma como avaliamos um texto.
Criadora da página “Português é legal”, a doutoranda e mestre em educação Carol Jesper afirma: “durante muito tempo, o problema foi o medo de ser julgado por não dominar a norma-padrão. Agora surge, em alguma medida, o medo de ser julgado por dominá-la”.
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Em entrevista à CNN Brasil, a autora do livro "Não foi isso que eu quis dizer" explica que a preocupação vai além da língua em si: está também na forma como isso faz os outros pensarem sobre quem escreve. Em outras palavras, o problema nunca foi apenas escrever certo ou errado, mas sim o julgamento da sociedade.
Se, antes da IA, havia uma associação bastante automática entre um texto sem erros e uma pessoa estudada, inteligente ou competente, agora começa a surgir um outro nexo: se o texto da pessoa é sem erros, provavelmente é porque ela usou IA. Nas duas associações, o problema é o mesmo: confundir a superfície da linguagem com a capacidade intelectual de quem escreve.
Um sinal fortemente associado à escrita do ChatGPT — o travessão — está perdendo força. Levantamento do The Economist, com 55.940 frases e 1,2 milhão de palavras, mostrou que só o Claude usou mais travessões que escritores humanos. A pesquisa ajuda a “inocentar” o sinal como prova de uso de IA.
A estética da IA
Mas o que faz exatamente um texto parecer escrito por inteligência artificial? A resposta costuma passar por características como frases muito organizadas, vocabulário sofisticado, pontuação cuidadosa e ausência de erros. Só que nada disso pertence exclusivamente à IA — é da própria língua, já usada por escritores humanos muito antes dos modelos generativos existirem.
Contudo, a associação já começa a interferir na maneira como algumas pessoas escrevem. Carol Jesper conta que recebe relatos de quem preserva ou até simula erros de digitação e desvios gramaticais só para parecer mais humano. "Mas será que simular um erro basta como forma de expressão de humanidade?", questiona a educadora.
É um paradoxo: durante anos, ensinamos os estudantes a ampliar seus vocabulários, organizar ideias e dominar a gramática. Agora, essas mesmas qualidades podem levantar suspeita. Para Carol, isso desloca a atenção de onde ela deveria estar: da capacidade de construir uma produção intelectual própria.
A dificuldade aumenta porque nem os detectores de IA dão conta de resolver a questão com segurança. Carol cita um estudo de 2023 da revista Patterns que testou textos em inglês e encontrou um viés claro: textos de quem não fala inglês como língua nativa eram marcados como "IA" bem mais que os de nativos — mesmo sendo 100% humanos.
Precisaremos provar que somos humanos?
A suspeita do uso de IA não é apenas uma questão de estilo, mas carrega uma acusação de desonestidade para qualquer um que se propõe a escrever de forma correta: aluno, profissional ou candidato a uma vaga. E, o que é pior, “lidar com o ônus da desconfiança é um desafio crescente", alerta Carol.
Na escola, o problema fica ainda mais complicado. Quando um professor nota que um aluno entregou um trabalho acima do esperado para a etapa de formação dele, isso não prova por si que ele usou IA — pode ser só um estudante que lê mais, escreve mais, ou tem mais repertório.
Por isso, Carol defende que ninguém abra mão da escrita cuidadosa para evitar suspeitas de uso de IA. Em contextos informais, diz a educadora, "há quem prefira afrouxar o uso das regras e há quem prefira se manter rigoroso. São escolhas pessoais e ajustes de registro". O que não dá para fazer é errar de propósito para parecer humano.
A IA talvez esteja nos fazendo repensar um equívoco antigo: a ideia de que dominar a norma-padrão é sinal de inteligência ou competência. Afinal, produzir um texto impecável ficou fácil demais para continuar provando isso. "Minha expectativa é que sejamos levados a avaliar com mais cuidado o que cada texto diz, e não só como ele se apresenta", conclui Carol.