Escritório de Flávio faturou R$ 14 mi durante mandato - 20/10/2026 - Política - Folha
O escritório de advocacia do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) emitiu ao menos R$ 13,7 milhões em notas fiscais entre janeiro de 2023 e julho de 2026. Metade dessas notas foi emitida para pagamento por outros advogados.
O UOL analisou 62 comprovantes emitidos pelo escritório de Flávio. Na maioria deles, a descrição do trabalho é somente "assessoria jurídica". A reportagem do UOL buscou em sistemas dos tribunais estaduais, federais e instâncias superiores e localizou apenas um processo em que Flávio atuou para o cliente descrito nessas notas fiscais.
O trabalho de um advogado não está necessariamente ligado a processos. Pode ser também de consultoria, assessoria e orientação jurídica, com a elaboração de pareceres, por exemplo. Os clientes de Flávio também foram questionados sobre qual foi a atuação do senador, mas não especificaram.
O escritório de Flávio foi aberto em 16 de abril de 2021 e tem como administradora Letícia Caetano dos Reis. Ela é irmã do contador Alexandre Caetano dos Reis, preso em dezembro de 2025 por suspeita de participação nas fraudes no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).
Flávio é o único titular da sociedade, que tem como endereço sua própria casa, uma mansão no Lago Sul, em Brasília. A empresa não tem outros funcionários.
Parlamentares podem ter profissões paralelas ao mandato, desde que sigam alguns requisitos. No caso da advocacia, o senador não pode fazer parte da mesa diretora do Senado nem atuar em causas envolvendo órgãos públicos, estatais e autarquias.
O escritório de advocacia de Flávio está na mira da PF, que vai apurar as transações da empresa num inquérito aberto na última semana e sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes no STF (Supremo Tribunal Federal). A investigação começou após a descoberta de indícios sobre eventual compartilhamento de contas entre o senador e o advogado Willer Tomaz, que é seu amigo.
Os pagamentos para a banca de Flávio foram feitos em contas do escritório do senador no Santander e no BRB (Banco de Brasília), de acordo com as notas fiscais.
A conta do Santander indicada numa das notas é a mesma cuja titularidade, segundo a PF, Flávio dividia com Willer Tomaz —ambos negam. Foi a suspeita de conexão financeira entre os dois que fez a PF pedir um novo inquérito contra o senador por possível envolvimento com fraudes no INSS.
O candidato do PL já é alvo de apuração no caso do financiamento ao filme Dark Horse.
Embora fosse conhecida a atuação de Flávio como advogado, os dados obtidos pelo UOL sobre as notas fiscais são inéditos. Durante o debate da Band no último domingo, o assunto veio à tona indiretamente quando Lula desafiou Flávio a abrir suas contas.
O UOL procurou a campanha do senador, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.
O maior cliente de Flávio é um escritório de advocacia que tem como sócio o advogado Edvaldo Nilo de Almeida, nomeado por Jair Bolsonaro (PL) para a Comissão de Ética Pública da Presidência em 2022.
A lista inclui uma indústria de doces, um empresário do setor de energia e outros advogados, dentre eles, um que atuou na defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Edvaldo Nilo é sócio do Nilo & Almeida Advogados Associados, que emitiu duas notas de R$ 2 milhões cada, em agosto e outubro de 2025. Juntas, representam 29% do faturamento documentado da firma do filho do ex-presidente.
Os documentos descrevem o trabalho como "assessoria jurídica", sem identificar processos ou detalhar os serviços prestados. Ambos indicam uma conta do escritório de Flávio no BRB para pagamento.
O advogado afirmou ao UOL que os pagamentos foram relacionados a um contrato celebrado em abril de 2025. "Os serviços foram regularmente prestados conjuntamente pelos dois escritórios a clientes privados, em casos sem qualquer envolvimento de recursos públicos ou participação de entes federativos."
Nilo não detalhou quais seriam os clientes privados nem os casos pelos quais os pagamentos teriam sido recebidos. Após os serviços, o contrato foi encerrado, segundo ele.
Edvaldo Nilo foi nomeado por Bolsonaro à Comissão de Ética Pública entre 2022 e 2025, colegiado que examina a conduta de autoridades do Executivo federal e situações de conflito de interesses. Atualmente, ele é conselheiro do CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público), ocupando a vaga destinada à indicação da Câmara dos Deputados, apoiada pelo deputado federal Elmar Nascimento (União).
As duas notas foram emitidas no ano em que Nilo buscava a recondução ao CNMP, aprovada pelo Senado em 12 de novembro de 2025. Em setembro deste ano, o advogado declarou apoio ao presidenciável em artigo publicado no Poder360 com o título "Por que voto em Flávio Bolsonaro".
"É pela combinação entre responsabilidade econômica, prioridade à segurança pública, afinidade de princípios e compromisso com a alternância no poder que votarei em Flávio Bolsonaro", escreveu.
A Simas Industrial de Alimentos é o segundo maior cliente do escritório de Flávio, com R$ 3,3 milhões. Ao todo, foram três notas fiscais emitidas entre janeiro de 2023 e dezembro de 2024.
O senador recebeu uma procuração para representar a companhia depois que o processo chegou ao STJ (Superior Tribunal de Justiça), em 2022. Entre os advogados que atuaram no caso também estava Willer Tomaz.
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A atuação de Flávio em uma disputa entre sócios da fabricante de doces do Rio Grande do Norte foi revelada pelo jornal O Estado de S. Paulo em 2022. Esse foi o único caso em que a reportagem conseguiu localizar o processo referente aos pagamentos.
O Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) encaminhou ao inquérito do caso "Dark Horse", sob relatoria do ministro André Mendonça, uma comunicação do Banco Daycoval sobre duas transferências da Simas Industrial de Alimentos para o escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro.
Amigo de Kassio
Duas sociedades de advocacia que levam o nome de Otto Medeiros também aparecem em notas fiscais que somam R$ 2,1 milhões. Otto mantém amizade com o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Kassio Nunes Marques, nomeado por Bolsonaro —que se declara impedido em casos envolvendo o advogado. Otto também chegou a atuar em processos ao lado da irmã do ministro, Karine Nunes Marques.
Os documentos registram cobranças recorrentes de R$ 50 mil em 2023 e 2024 e de R$ 40 mil a partir de 2025.
O escritório afirmou ao UOL que a contratação da firma de Flávio ocorreu para consultoria jurídica privada. "Todas as nossas parcerias são definidas com base em critérios técnicos, levando-se em consideração a experiência e competência profissional de cada escritório. Esse é o caso do contrato com Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia."
Advogado de Bolsonaro
O escritório de Daniel Bettamio Tesser, que integra a defesa de Jair Bolsonaro, também emitiu notas para o escritório de Flávio Bolsonaro que somam R$ 970 mil.
Os gastos, de dezembro de 2025 a março de 2026, também estão descritos como assessoria jurídica. A reportagem procurou o escritório para esclarecer a natureza dos serviços, mas não obteve retorno.
Entre os documentos do escritório de Flávio Bolsonaro, também estão notas para a Copenhagen Assessoria e Consultoria. A empresa recebeu R$ 57,9 milhões do Banco Master, de Daniel Vorcaro, entre 2024 e 2025.
Em 7 de abril de 2025, a firma de Flávio emitiu duas notas de R$ 500 mil para a Copenhagen. Ambas foram canceladas. Em 9 de abril, o escritório emitiu outra nota de R$ 500 mil, desta vez para a Contábil Correa Contabilidade & Auditoria. Essa permaneceu válida. A empresa tem como sócio-administrador Rogério Lourenço Novo, que também é diretor da Copenhagen.
Outro cliente de Flávio é Marcos Antonio Grecco, fundador do GNPW Group, parceira empresarial da Evolution Power Partners, empresa que arrematou R$ 17 bilhões em contratos no leilão emergencial de energia realizado em 2021, durante o governo Jair Bolsonaro.
Grecco foi alvo de uma ação de improbidade administrativa no Amapá, relacionada à transferência do controle de uma concessão ferroviária. Em julho de 2022, o caso foi arquivado.
"Conheci e contratei o advogado Flávio Bolsonaro no ano de 2024 para atuar em um processo judicial no qual eu era parte. A atuação ocorreu formalmente, com procuração juntada aos autos, e não possui nenhuma relação com leilões de energia ou com a GNPW", afirmou.
O empresário disse que senadores são autorizados a advogar desde que não componham a mesa diretora e afirmou que o vazamento de dados é ilegal, por decorrer de quebra de sigilo fiscal e bancário não autorizada, o que ensejará a tomada das providências cabíveis.
A lista de clientes da banca do filho de Bolsonaro também inclui valores menores, como os pagos pelo escritório Leonardo Amarante Advogados Associados, com uma nota de R$ 239 mil. O escritório afirma que contratou pareceres jurídicos, "devidamente entregues e remunerados mediante apresentação de nota fiscal, seguindo a praxe das relações entre escritórios profissionais de direito".
Segundo o comunicado, os pareceres obedecem a sigilo profissional entre as partes.