Espanha. Outrora quase extintos, ursos pardos podem chegar aos 500. Mas espécie continua ameaçada

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A população dos ursos pardos cantábricos (também conhecidos como ursos ibéricos) no norte de Espanha poderá ultrapassar a marca dos 500, após ter ficado reduzida a cerca de 60 no final da década de 1980. Apesar da recuperação, a espécie continua ameaçada e enfrenta agora novos desafios, como garantir a diversidade genética e gerir o crescente turismo de observação.

A estimativa é avançada por Luis Frechilla, guia de natureza citado pelo jornal The Guardian, que visitou o Parque Natural de Somiedo, nas Astúrias, uma das principais zonas de habitat destes animais. “Continuam classificados como ameaçados“, explicou, porém, referindo que a população terá de chegar aos 1.000 para que deixem de estar nesta categoria.

No final da década de 1980, os ursos pardos cantábricos estavam à beira do desaparecimento naquela região. Nos arredores de Pola de Somiedo, os habitantes chegaram a avistar uma fêmea que tinha perdido uma pata numa armadilha de caça, acompanhada por duas crias e dois machos adultos. Na altura, pareciam ser dos últimos ursos naquela zona das Astúrias. Em toda a cordilheira Cantábrica, que se estende por mais de 400 quilómetros pelo norte de Espanha, a população tinha descido para cerca de 60 animais.

Desde então, segundo o mesmo jornal, os esforços de conservação permitiram uma recuperação significativa, que está ligada a várias medidas de proteção. Uma das mais importantes foi a proibição da caça, introduzida em 1973. A Fundación Oso Pardo também tem desenvolvido corredores ecológicos, plantando árvores e arbustos que fornecem alimento aos animais e ajudam a ligar diferentes grupos de ursos.

Em 2023, um relatório do Ministério do Ambiente espanhol revelou que à data existiam cerca de 370 ursos pardos na região.

Espanha identifica população de 370 ursos pardos no norte do país, entre a Galiza e o País Basco

“O truque agora”, explica Alicia Madrid, bióloga da organização de conservação, é “conseguir que grupos atualmente isolados se reproduzam entre si, aumentando a diversidade genética da população”.

O Parque Natural de Somiedo, criado em 1988, tornou-se um dos locais onde é possível observar os animais com maior facilidade. Durante a visita, Frechilla conseguiu avistar um urso pouco depois de instalar o telescópio. Era aparentemente um jovem, já suficientemente crescido para procurar alimento sozinho, mas ainda demasiado pequeno e distante para determinar se era macho ou fêmea.

Os ursos pardos cantábricos têm ainda características próprias que os distinguem de outras populações de ursos pardos. Passam menos tempo em hibernação e são geralmente mais pequenos e leves do que os ursos grizzly norte-americanos. “Estão adaptados a este terreno e não podem ser demasiado pesados porque têm de trepar muito”, explica Madrid.

Na primavera, quando os animais saem da hibernação, o alimento disponível ainda é escasso. Os vestígios deixados na floresta permitem, contudo, identificar a sua presença: pegadas na lama, marcas de dentes na vegetação, pelos presos nos troncos e pedras viradas à procura de insetos. Com a chegada do verão, a alimentação torna-se mais abundante, com frutos silvestres, bolotas, castanhas e, ocasionalmente, carcaças.

A difícil tarefa de conjugar a conservação com o turismo de observação

O aumento do número de ursos ibéricos também trouxe mais visitantes interessados em observar os animais. As autoridades tentam equilibrar o interesse turístico com a necessidade de proteger o habitat. Grande parte do território ocupado pelos ursos está fechada ao público e as excursões para os observar só podem ser realizadas com guias autorizados.

Frechilla considera que o Parque Natural de Somiedo é um exemplo de como conciliar conservação e turismo. A observação de animais ajuda a manter empregos nas comunidades locais, numa região onde a agricultura tradicional tem cada vez mais dificuldades em sustentar a população, e representa uma alternativa à caça.

Os encontros entre humanos e ursos continuam, contudo, a exigir cuidados. Segundo o guia, citado pelo jornal britânico, houve apenas um ataque de um urso a uma pessoa: uma mulher de 75 anos que, durante um passeio ao final do dia, acabou por se colocar entre uma fêmea e as suas crias. A mulher sobreviveu.

A maioria dos habitantes parece aceitar a presença cada vez maior dos turistas. Numa estrada perto de Saliencia, um grupo de pessoas reuniu-se ao fim do dia para observar um macho de grandes dimensões que atravessava um prado e entrou no rio, nota o The Guardian. Outro macho apareceu mais acima, junto à linha de árvores, e os dois começaram a circular a alguma distância. Alguns dos presentes especularam que os dois animais poderiam lutar pelo território. Frechilla, porém, afastou a possibilidade de um confronto imediato. “Talvez mais tarde, quando tiverem ganho peso suficiente”, respondeu.

Apesar da recuperação, a sobrevivência dos ursos continua longe de estar garantida. Apenas cerca de 30% das crias sobrevivem sozinhas depois de passarem o primeiro ano sob a proteção da mãe.

A recuperação dos ursos pardos cantábricos representa, explica o guia de natureza, uma das histórias de conservação bem-sucedidas no norte de Espanha, mas a espécie continua dependente da proteção do habitat, da ligação entre populações isoladas e de uma gestão cuidadosa do turismo.