"Estamos a falar de potências nucleares." Kremlin está a explorar as brechas da NATO para esconder uma guerra sem fim
Incapaz de assegurar uma vitória rápida na Ucrânia, o Kremlin vira o seu foco para o território europeu. Entre sabotagens e o teste deliberado aos limites do Artigo 5.º, Vladimir Putin está a procurar explorar as divisões da NATO, e tem um prazo para o fazer, empurrando as capitais ocidentais para uma situação que pode abrir caminho a uma escalada perigosa
Os avisos são cada vez mais frequentes. Vários serviços de informações europeus alertam que a campanha russa contra o território da NATO pode intensificar-se numa questão de "meses, e não anos". As ações, insistem os espiões europeus, são parte de um esforço deliberado do Kremlin para testar as linhas vermelhas da NATO. Face a esta ameaça, países como a Polónia já começaram a criar redes de segurança subterrâneas para proteger a população contra um ataque russo. Para os especialistas, o verdadeiro perigo desta escalada reflete o desespero de Moscovo perante um conflito sem fim à vista.
"O próprio Putin terá dito que se isto correr mal, ele acaba enforcado. Logo o incentivo não é de apaziguar, pelo contrário, é para escalar e dobrar a parada sempre que possível. Portanto, é uma situação de facto perigosa. A Europa tem de ter cabeça para gerir a situação, porque estamos a falar de potências nucleares", alerta o professor Francisco Pereira Coutinho.
O facto de as forças militares russas não estarem a encontrar uma saída militar para colocar um fim à invasão da Ucrânia está a aumentar significativamente os riscos. Ao fim de quase cinco anos de combates sangrentos, com o exército russo incapaz de assegurar sequer os seus objetivos mínimos no Donbass. Ao ritmo de progressão atual, estimativas do Instituto para o Estudo da Guerra (ISW) aponta que a captura dos 20% restantes do território de Donetsk pode arrastar-se até 2030, afastando quase por completo a possibilidade de uma vitória rápida. Ao mesmo tempo, o número de baixas não para de aumentar. De acordo com estimativas de fontes independentes russas de publicações como a Mediazona, a mortalidade real do conflito ultrapassa largamente os 350 mil combatentes e o número total de baixas supera um milhão.
A incapacidade de romper as defesas ucranianas tem sido agravada por contraofensivas localizadas, como a recente Operação Vivaldi. A operação ucraniana não só recuperou bastante território como expôs uma situação delicada para o lado russo. Dias depois de Vladimir Putin ter anunciado publicamente a captura de Sviatohirsk, em Donetsk, o brigadeiro-general Andrii Biletskyi, comandante do 3.º Corpo de Exército ucraniano, gravou um vídeo a desmentir o presidente russo. A publicação causou uma onda de indignação imediata entre bloggers militares russos, que questionam acerca da credibilidade das informações que chegam ao presidente russo, isolado por uma cadeia de comando relutante em reportar más notícias, com medo de ser punido.
Esta situação obriga o Kremlin a alterar a narrativa para justificar o porquê dos enormes custos financeiros, humanos e materiais de um conflito que, passados quase cinco anos, continua sem fim à vista. "Mesmo internamente, Putin precisa de justificar para com a população russa porque é que as coisas não avançam. No fundo está a dizer: 'Isto não avança porque nós estamos a combater toda a Europa'", explica o professor Francisco Pereira Coutinho. Para o especialista em relações internacionais, "haver uma hostilidade crescente com os europeus serve-lhe a esse propósito", transformando a incapacidade militar na Ucrânia numa suposta luta existencial e direta contra a NATO e contra o Ocidente no seu conjunto.
E este cenário cria um incentivo para o Kremlin que pode colocar em perigo a segurança dos países da NATO que fazem fronteira com a Rússia. Embora figuras importantes como o presidente finlandês Alexander Stubb defendam que dificilmente a Rússia terá vontade e capacidade de atacar o território europeu de forma convencional nos próximos meses. Ainda assim, garante que a campanha híbrida russa vai intensificar-se para "assustar" os países europeus de forma a que estes cortem o apoio à Ucrânia. É por isso que o antigo diretor do SIED Jorge Silva Carvalho acredita que o Kremlin vai apostar tudo no "controlo reflexivo", de forma a influenciar a perceção dos decisores ocidentais através de sabotagens, desinformação e intimidação persistente, empurrando as capitais europeias para a ideia de que resistir é inútil ou arriscado de mais.
"É o mecanismo a que os soviéticos chamaram controlo reflexivo, e que Vladimir Lefebvre teorizou, influenciar a perceção do adversário para que ele escolha, julgando decidir por si, (...). Não é preciso controlar governos, basta conseguir que demasiados acreditem que resistir é inútil, que defender a liberdade é provocar e que a segurança se compra aceitando as exigências de quem ameaça. Quando corre bem, o alvo não se sente pressionado, sente que decidiu bem", afirma Jorge Silva Carvalho.
É nessa área cinzenta que as ações de desestabilização se estão a intensificar no continente. Desde os danos e cortes suspeitos em cabos de telecomunicações submarinos no Mar Báltico até vagas de incêndios criminosos que atingiram centros comerciais na Polónia e armazéns logísticos de apoio à Ucrânia no Reino Unido, o rasto das operações aponta sistematicamente para a Rússia. Recentemente o incidente em Leipzig com um drone num aeroporto chocou a sociedade alemã e na Bulgária várias fábricas de armamento ligadas ao fornecimento às forças armadas ucranianas já foram alvo de operações de sabotagem.
Esta ameaça estende-se agora também ao flanco sul da Europa. De acordo com um relatório dos serviços secretos americano, avançado pelo jornal El Mundo, a Rússia está a estudar a possibilidade de recorrer a embarcações da sua frota fantasma no Mediterrâneo para lançar ataques com drones de longo alcance contra Espanha, França ou Itália. Segundo as fontes das secretas, a operação deve envolver drones Gerbera, drones com um alcance até 600 quilómetros, desenhados para contornar defesas aéreas e atingir território de potências europeias que até agora se sentiam afastadas da linha de fogo
"Até agora, o que a Rússia tem feito é trabalhar no limiar da guerra híbrida, que é picar. É como se fosse um indivíduo chato, irritante, de mau feitio, e nós, contra esse tipo de pessoas, muitas vezes ignoramos para evitarmos um confronto, um mal maior", explica o tenente-general Rafael Martins.
O principal objetivo da estratégia russa é desgastar a coesão da Aliança Atlântica, tentando criar uma ação que prove que o seu instrumento mais importante, o famoso artigo 5.º, não tem qualquer utilidade real. Isto porque a aliança não tem uma definição concreta que defina concretamente a partir de que tipo de ataque se envia uma resposta coletiva. Isto arrisca criar uma paralisia política na NATO, provando efetivamente que este mecanismo não existe na prática.
"Para que serve pertencer a uma aliança se, após reunir no Artigo 4.º, metade dos membros dizem 'isto é razão para avançarmos com o Artigo 5.º' e a outra metade diz 'não, nós não queremos uma escalada neste processo, vamos usar sanções'?", questiona o tenente-general Rafael Martins.
Um recente relatório do Institute for the Study of War (ISW) tentou criar um cenário que ilustra na perfeição este dilema. Os analistas deste think tank estudaram uma incursão limitada na cidade fronteiriça de Narva, na Estónia. Segundo o centro de análise, a captura pontual de edifícios governamentais por agentes locais e forças especiais russas descaracterizadas, apoiados por enxames de drones operados a partir de território russo, não teria como objetivo a conquista territorial da Estónia, mas sim a rutura política da Aliança. Diante de uma crise localizada, a NATO ver-se-ia empurrada para um impasse entre responder militarmente, arriscando um confronto direto com uma potência nuclear, ou limitar-se a protestos diplomáticos ao abrigo do Artigo 4.º, esvaziando na prática o poder dissuasor do Artigo 5.º.
Como explica o professor Francisco Pereira Coutinho, a tática russa passaria por "testarem a robustez da aliança fazendo um ataque que não chega ao limiar de um ataque armado". "Isto é uma questão técnica. Para haver um ataque armado que acione o artigo quinto, tem de ter alguma gravidade. Meras escaramuças, um drone perdido ou algo desse género, vai levantar a dúvida se isso é suficientemente grave para o artigo quinto ou se basta o artigo quarto", explica o especialista em Direito Internacional.
O quadro político norte-americano pode agravar ainda mais o cenário para a Europa, com o Kremlin a olhar para os dois anos que faltam da administração de Donald Trump como a melhor oportunidade que existe para explorar esta fragilidade na Aliança. "Os russos têm toda a vantagem em ir testando a solidez da aliança enquanto tivermos esta fragilidade. Daqui a dois anos as coisas vão piorar e não melhorar [para Moscovo], porque vai ser muito difícil que um presidente americano tão próximo do Kremlin como Donald Trump venha a ser eleito", reforça Francisco Pereira Coutinho.
A soma de todos estes fatores coloca a Europa naquilo que o antigo diretor das secretas portuguesas Jorge Silva Carvalho chamou de 23.ª hora, a penúltima hora, na qual os aliados europeus ainda têm capacidade de decisão, mas onde a ilusão de tempo se esgota a cada minuto. Nesse sentido, os especialistas concordam que a posição europeia não pode continuar refém de uma postura reativa ou de meras condenações verbais, mas sim na criação de um mecanismo de resposta que faça com que o Kremlin pense antes de desencadear cada ação.
Uma das ideias que obteve mais apoio nas capitais europeias passa por instituir um mecanismo automático de custos crescentes. A cada ato comprovado de sabotagem, ciberataque ou incursão no espaço aéreo europeu, os aliados responderiam com um aumento imediato do apoio militar a Kiev, fornecendo novas capacidades operacionais, munições ou levantando restrições de emprego de armas. O objetivo seria transformar cada provocação russa em maiores dificuldades para as forças de Moscovo no campo de batalha.
"A Alemanha foi atacada com um drone, aparentemente [...] e isso significou que os alemães enviaram os Taurus para lá? Não. Portanto a Alemanha sinalizou que isto ainda não é suficientemente grave para dar à Ucrânia os tais mísseis. [...] Mas na escada da escalada é preciso ter margem para situações ainda mais graves", defende o especialista em Direito Internacional. Trata-se de retirar a Vladimir Putin a ilusão de que pode atingir as capitais ocidentais a custo zero e a coberto do anonimato. Francisco Pereira Coutinho insiste que a linha que a Europa precisa de traçar tem de ser curta. "A próxima vez que ocorrer alguma coisa estranha, com alguma gravidade na Europa, já sabemos que são vocês. Portanto, nem tentem", frisa.