Este é o tenebroso segredo fascista que está escondido dentro de uma das maiores estações da Europa
Um símbolo da Itália fascista é também uma das grandes obras europeias do século XX. Lá dentro tem um segredo utilizado para fins horríveis durante a Segunda Guerra Mundial
Com a sua fachada monumental, ornamentada com colunas de estilo romano, pedestais e estátuas enormes - homens nus, cavalos alados, cabeças de leão e gárgulas, para começar - a principal estação ferroviária de Milão é uma atração turística por si só. Esta é uma cidade que não faz nada pela metade - o icónico Duomo da cidade é a maior catedral de Itália. Mas a estação vai mais longe - é uma das maiores da Europa.
De cortar a respiração por fora, não é menos espetacular por dentro. Os viajantes entram por entradas monumentais em três lados para um interior onde vastas escadarias sobem até ao átrio de embarque com o seu chão de mosaico e paredes esculpidas. Os comboios partem das 21 plataformas que compõem a zona principal desta magnífica estação, inaugurada em 1931.
É bombástica e elegante - e foi a introdução perfeita para os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina de 2026, no início deste ano. “L’emozione di essere italiani” (A emoção de ser italiano), anunciavam cartazes por toda a estação. A frase foi ainda projetada em luzes verdes, vermelhas e brancas - as cores da bandeira italiana - na fachada.
No entanto, o edifício representa também outra parte, menos espectacular, de Itália: a sua história fascista.
A estação não é apenas um dos edifícios mais famosos do país a ser concluído durante o fascismo - embora concebida num período anterior, foi “modificada” para acrescentar símbolos da ditadura de Benito Mussolini, que ainda são visíveis -, mas sob as principais instalações para passageiros encontra-se uma plataforma oculta que foi utilizada para fins horríveis durante a Segunda Guerra Mundial.
Escondida durante gerações, a Plataforma 21 (Binario 21) é a área subterrânea de onde os ocupantes nazis e os simpatizantes fascistas deportavam judeus e opositores políticos para os campos de extermínio da Segunda Guerra Mundial.
Originalmente construída como um espaço de transporte de mercadorias, o uso horripilante da área durante a guerra foi abafado durante décadas. Só em 1994 é que os investigadores perceberam o que era.
Mesmo hoje, os mais de 320 mil passageiros que passam diariamente pela Estação Central têm pouca noção da sua história chocante.
Atualmente, o espaço foi transformado no Memorial da Shoah de Milão, o memorial do Holocausto da cidade. Os visitantes podem caminhar pelas plataformas secretas, entrar nos vagões de carga que os fascistas adaptaram para o transporte de pessoas e assistir a testemunhos impactantes de sobreviventes do Holocausto. Tudo isto enquanto o som estridente dos travões e o ruído dos comboios nos carris passam sobre este espaço subterrâneo escuro.
Um símbolo do regime
Quando a Estação Central de Milão foi inaugurada, em 1931, Mussolini vivia um período de grande poder. O ditador fascista italiano tinha chegado ao poder em 1922 e a sua popularidade crescia cada vez mais. "Em 1931, o regime já estava muito consolidado", afirma Vanda Wilcox, professora adjunta de história europeia moderna na Universidade John Cabot.
A construção da estação começou em 1912, quando o arquiteto Ulisse Stacchini ganhou um concurso com o seu projeto. Planeou uma entrada monolítica, cujos vastos espaços e tetos altíssimos teriam sido inspirados na arquitetura romana e egípcia antigas, e acrescentou elementos de Art Déco, estilo Liberty (a resposta italiana à Art Nouveau) e frescos das cidades do então recém-formado Estado italiano.
À medida que o regime assumia o controlo da obra, foram incorporados toques fascistas, como a escultura de feixes de varas - símbolos de autoridade na Roma antiga e a origem da palavra fascismo - na fachada. O símbolo dos transportes, das viagens e da liberdade tinha adquirido uma conotação fascista.
Um espaço subterrâneo secreto
Enquanto a visão estilística de Stacchini se aperfeiçoava nas áreas públicas e nas plataformas do piso superior, no piso inferior construiu uma área para o transporte de correspondência. A principal estação de correios de Milão ficava numa rua lateral, e as mercadorias que saíam de Milão eram levadas para o outro lado da rua, até uma entrada lateral da estação, onde aguardavam duas plataformas.
Stacchini projetou a estação de forma inteligente como um edifício de vários andares, com plataformas de passageiros no último piso - ainda hoje, as escadas e as escadas rolantes conduzem aos comboios - e a área de correio no piso inferior, invisível para o público em geral.
Ali, num espaço murado tão escuro como uma cave, mas na verdade ao nível do solo, foi construído um sistema completamente moderno: duas plataformas, ligadas por uma rotunda numa extremidade e um elevador futurista na outra. Os vagões eram carregados numa plataforma, rodados para a outra e depois levados um a um para um enorme elevador, que os elevava lentamente até ao nível da plataforma regular, onde eram engatados e acoplados a uma locomotiva.
Era um sistema eficiente para o transporte de correio - um sistema que cumpria a sua função sem interferir com os comboios de passageiros nesta estação cada vez mais movimentada. Mas, durante a guerra, este sistema eficiente foi utilizado para fins horríveis.
Uma brutal tomada de poder
A Itália entrou na Segunda Guerra Mundial ao lado da Alemanha nazi a 10 de junho de 1940. Mussolini foi deposto em julho de 1943 e o país assinou um armistício com os Aliados em setembro. Em resposta, os nazis invadiram os seus antigos aliados, ocupando o norte e o centro de Itália à medida que as forças aliadas avançavam pelo país a partir do sul. Os alemães ocupantes instalaram Mussolini como chefe de um Estado fantoche, a República Social Italiana (RSI), com sede no Lago de Garda e governando nominalmente grande parte do norte de Itália.
O fascismo italiano estava já profundamente marcado pelo antissemitismo - as Leis Raciais de Mussolini, de 1938, tinham retirado os direitos civis à população judaica de Itália. Mas, embora os judeus e os opositores políticos fossem presos, exilados e sujeitos a trabalhos forçados durante os primeiros anos da guerra, ainda não tinham sido deportados para os campos de extermínio alemães.
Tudo mudou sob a ocupação nazi. Os alemães - com a ajuda da RSI - realizaram prisões em massa e deportações, visando exterminar a população judaica de Itália e enviar os opositores do fascismo para campos onde seriam sujeitos a trabalhos forçados até à morte. Dos 44.500 judeus que viviam em Itália, 7.680 foram assassinados, segundo o Memorial Mundial do Holocausto Yad Vashem.
Bandos de fascistas italianos percorriam a região da Lombardia, torturando partisans e capturando judeus, afirma Colacicco. Levavam-nos para as SS, que tinham a sua base em Milão. A partir daí, os prisioneiros eram deportados. Acredita-se que os civis que já trabalhavam no subsolo da estação permaneceram para ajudar nas deportações. "Caso contrário, não teria funcionado", diz Colacicco.
Enviados para a morte
Acredita-se que milhares de pessoas foram enviadas para a morte através do Binário 21 da Estação Central de Milão. Com a chegada dos nazis, o local de quase um hectar foi rapidamente transformado de um ponto de processamento de correspondência e objetos para um local de processamento de pessoas.
O processo era mantido em grande parte em segredo, com as deportações a ocorrerem durante a noite. "Os camiões entravam no átrio", diz Milena Santerini, política italiana e vice-presidente da Fundação Memorial do Holocausto de Milão.
Não foram apenas os judeus que foram enviados para a morte. Partisans capturados, opositores políticos e qualquer pessoa que se opusesse aos nazis foram processados na Estação Central de Milão. Muitos eram operários que se recusaram a produzir munições para os ocupantes nazis, diz Colacicco. Foram deportados em massa para Mauthausen, um campo de trabalhos forçados na Áustria, onde muitos foram levados à morte pelo trabalho.
Poucos registos sobreviveram deste período, e nunca ninguém envolvido nas deportações se apresentou para testemunhar o que aconteceu debaixo da estação, pelo que é difícil saber o número total de deportados, refere Colacicco.
Apenas sobreviveram duas listas de passageiros - as dos dois primeiros comboios, que partiram de Milão para Auschwitz em dezembro de 1943 e janeiro de 1944. Listam 774 nomes, dos quais apenas 27 sobreviveram. No total, garante Colacicco, mais de 20 comboios partiram da estação - e novas pesquisas sugerem que estas duas primeiras listas não estavam completas.
“É muito difícil”, diz sobre a procura de números e nomes. Os investigadores acreditam que milhares de judeus, e um número igual de prisioneiros políticos, foram deportados entre 6 de dezembro de 1943 e 15 de janeiro de 1945, pouco antes de os partisans tomarem o controlo da cidade aos nazis, com a aproximação das forças aliadas de Milão.
Os deportados foram amontoados em vagões de madeira que eram anteriormente utilizados para transportar mercadorias e, por vezes, gado. Entre 60 a 80 pessoas eram obrigadas a entrar em cada carruagem, tão apertadas que não se conseguiam sentar. (Quando as carruagens eram utilizadas para transportar cavalos, o limite era de seis animais por carruagem.)
“Não havia janelas, casas de banho, comida nem água”, diz Santerini. “Era uma viagem de 1.250 quilómetros até Auschwitz, que durava sete dias. É difícil imaginar o que devem ter passado.”
Os visitantes do memorial podem agora entrar em vagões semelhantes da mesma época. Entrar neles já é suficientemente claustrofóbico quando as portas estão abertas.
O destino dependia de quem estava nos vagões, frisa Colacicco. Comboios de judeus eram enviados diretamente para Auschwitz; prisioneiros políticos eram enviados para Mauthausen. “Era um tratamento diferente”, explica Colacicco. “Os prisioneiros políticos eram enviados para trabalhar como escravos, mas os judeus eram enviados para campos de extermínio para serem mortos. Parece uma distinção inútil, mas é importante. O nacional-socialismo organizava os destinos e as viagens com grande precisão”.
Alguns comboios seguiam mesmo para sudeste, para Fossoli, um campo de detenção para judeus deportados na região da Emilia-Romagna, antes de regressarem para norte, para Auschwitz. “Por vezes era para recolher mais pessoas, ou por razões técnicas, ou porque Auschwitz estava sobrelotado”, diz Colacicco. “Este era um sistema industrial, por isso aconteciam problemas técnicos.”
Uma história oculta
A chegada dos Aliados a Milão e a libertação de Itália em abril de 1945 puseram fim aos comboios. Todos os que participaram nas deportações mantiveram-se em silêncio; a maioria das vítimas tinha sido assassinada. Os sobreviventes relataram ter sido forçados a entrar no que parecia ser uma “caverna” e colocados à força em vagões. Falaram também de um movimento estranho - uma sensação de serem erguidos para cima, antes de o comboio partir.
Alguns dos testemunhos mais cruciais vieram de Liliana Segre, que foi deportada para Auschwitz a 30 de janeiro de 1944, com o pai. Na altura com 13 anos, foi a única da sua família direta a sobreviver ao Holocausto. Agora com 95 anos, foi nomeada senadora vitalícia em 2018.
Em 1994, os testemunhos dos sobreviventes foram analisados pelos investigadores do CDEC, a Fundação Centro de Documentação Hebraica Contemporânea, que documenta a história judaica moderna. Perceberam que os deportados deviam ter sido enviados de um espaço sob a Estação Central de Milão e foram à sua procura. Ao entrarem na antiga zona dos correios, viram o elevador e compreenderam com o que estavam a lidar.
A área foi aberta ao público em 2013. É o único local de deportação nazi que permaneceu intacto.
Hoje, os visitantes entram da mesma forma que os comboios. Onde os deportados eram retirados à força dos camiões, os visitantes deparam-se com o "Muro da Indiferença", uma obra de arte que realça a "indiferença" que, segundo Segre, levou à perseguição da população judaica de Itália.
As duas plataformas subterrâneas originais ainda existem. Numa delas, estão vagões antigos; a outra está vazia. Na parede atrás, estão projetados os nomes das 774 pessoas que constavam nas listas de passageiros dos dois primeiros comboios.
“Isto mostra que havia pessoas reais por trás dos números”, diz Santerini.
Cabines exibem depoimentos de testemunhas da guerra, e os visitantes podem fazer visitas guiadas ou passear pelo espaço por conta própria. Podem entrar nos vagões ou caminhar até à rotunda onde os vagões giravam para iniciar a sua viagem. Um ponto oferece uma vista para o elevador que levava os deportados ao seu destino. Enquanto isso, os 320 mil viajantes diários passam por cima. Momentos tranquilos de reflexão são interrompidos pelos comboios que passam a alta velocidade sobre os carris logo acima.
No piso superior, no meio das plataformas de passageiros e junto ao moderno Binario 21, há um convite para que as pessoas visitem o que se encontra em baixo.
Colacicco considera este um local importante para os italianos. “Representa a oportunidade de refletirmos sobre o nosso próprio passado - o do povo italiano - que, passados 80 anos, em parte esquecemos e em parte apagamos”, conclui
“Os italianos não assumiram a responsabilidade total. Mas o facto de isto ter acontecido na capital económica do nosso país é significativo. Isto foi feito por italianos e a responsabilidade é nossa."
“É importante saber que, no seio da estação que utiliza todos os dias para ir trabalhar ou viajar, esse espaço existe", termina.