Estresse no trabalho e disfunção erétil: risco é 10 vezes maior | G1
Mesmo após considerar fatores como idade, índice de massa corporal (IMC), tabagismo e consumo de álcool, os homens do grupo de alto estresse apresentaram uma chance 10,26 vezes maior de ter disfunção erétil em comparação com aqueles do grupo de baixo estresse. A pesquisa foi publicada no International Journal of Clinical Practice.
O resultado, no entanto, não significa que o estudo tenha comprovado que o estresse causa disfunção erétil. O urologista Roni de Carvalho Fernandes, presidente da Sociedade Brasileira de Urologia, destaca que o dado mostra uma forte associação, mas o desenho observacional da pesquisa não permite estabelecer sozinho uma relação de causa e efeito.
“Na prática: trate o estresse ocupacional como fator de risco modificável importante, mas mantenha a avaliação de causas orgânicas conforme rotina”, orienta Fernandes.

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Além da associação entre estresse e disfunção erétil, os pesquisadores encontraram pistas sobre o que pode estar acontecendo no organismo: conforme a pressão psicológica aumenta, sobem os níveis de cortisol, hormônio relacionado à resposta ao estresse, enquanto a testosterona cai. As mudanças podem ocorrer ao longo de semanas e anteceder a piora da função sexual.
Quanto maior o estresse, maior a ocorrência de disfunção erétil
Os 826 participantes do estudo trabalhavam em período integral e foram recrutados entre março de 2022 e agosto de 2024. A idade média era de 31,45 anos.
Para reduzir a interferência de outros fatores, os pesquisadores excluíram, entre outros, homens com histórico de doenças relacionadas à disfunção erétil de origem orgânica, como diabetes, hipertensão, doença coronariana e doença vascular periférica, além de determinados distúrbios endócrinos e neurológicos e uso recente de medicamentos capazes de afetar a função sexual.
Os pesquisadores criaram um índice para medir o acúmulo de estresse psicológico no trabalho e dividiram os participantes em quatro grupos. A proporção de homens com disfunção erétil aumentou à medida que crescia o nível de estresse:
- baixo estresse: 8,21%;
- estresse médio-baixo: 18,45%;
- estresse médio-alto: 34,78%;
- alto estresse: 54,37%.
A mesma progressão apareceu na análise das chances de apresentar o problema. Em comparação com os menos estressados, a chance foi 2,35 vezes maior entre os homens com estresse médio-baixo, 4,87 vezes maior no grupo médio-alto e 10,26 vezes maior entre aqueles submetidos aos níveis mais elevados de estresse.
Fernandes destaca que a diferença entre os extremos chama atenção do ponto de vista clínico. São cerca de 46 pontos percentuais de diferença entre a ocorrência registrada nos grupos de alto e baixo estresse.
Jornada longa foi o fator de maior impacto
O estudo analisou cinco aspectos da vida profissional: jornada de trabalho, autonomia para tomar decisões, apoio do supervisor, relacionamento com colegas e pressão por promoção.
Entre eles, as longas jornadas apresentaram o maior impacto negativo sobre a função erétil. Os homens do grupo de alto estresse trabalhavam, em média, 65,32 horas por semana, contra 42,18 horas entre os participantes classificados no grupo de baixo estresse.
A cada dez horas adicionais de trabalho por semana, houve uma redução de 1,82 ponto na escala usada pelos pesquisadores para avaliar a função erétil. A pressão por promoção apareceu como o segundo fator de maior impacto negativo.
Segundo Fernandes, trabalhar muitas horas pode repercutir na vida sexual por diferentes caminhos. Jornadas extensas podem vir acompanhadas de privação de sono e de hábitos que prejudicam a saúde.
O urologista cita ainda sedentarismo, resistência à insulina, obesidade, tabagismo, diabetes e consumo excessivo de álcool entre fatores que podem estar associados a uma rotina extenuante, com pouco espaço para cuidados físicos e mentais.
Cortisol aumentou 74% e testosterona caiu 40%
A análise dos hormônios trouxe outra diferença importante entre os grupos. Nos participantes submetidos ao maior nível de estresse, o cortisol matinal estava 74,1% mais alto, enquanto os níveis de testosterona estavam 40,5% mais baixos em comparação com os homens menos estressados.
O estudo descreve uma possível sequência para explicar essa relação. Primeiro, o estresse psicológico ativa o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), sistema envolvido na resposta do organismo ao estresse. Isso provoca elevação do cortisol. Quando permanece alto, esse hormônio pode afetar mecanismos relacionados à produção de testosterona e à função sexual.
A análise estatística apontou que as alterações hormonais explicaram 39,7% do efeito observado na relação entre estresse e função erétil. Entre os mecanismos hormonais avaliados, o cortisol teve o maior efeito mediador.
Fernandes explica que o estresse psicológico crônico pode manter o eixo HPA ativado e o cortisol elevado. Isso interfere na secreção de hormônios envolvidos na produção da testosterona e também pode comprometer a função vascular.
Mudanças podem ocorrer em uma janela de 6 a 10 semanas
Os pesquisadores também observaram uma sequência temporal entre o estresse, as alterações hormonais e a piora da função sexual.
A elevação do cortisol apareceu primeiro. A redução da testosterona ocorreu aproximadamente duas a quatro semanas depois. Já a queda da testosterona antecedeu as alterações da função erétil em cerca de quatro a seis semanas.
Com isso, o estudo estimou um intervalo total de seis a dez semanas entre a exposição ao estresse e o comprometimento da função erétil. Para os autores, essa janela pode abrir espaço para identificação e intervenção precoces.
Fernandes afirma que esse intervalo pode permitir a adoção de medidas antes que a disfunção se estabeleça. Correções no sono e nos fatores de risco, avaliação dos sintomas e acompanhamento hormonal podem ajudar na investigação, além do manejo do próprio fator desencadeante.
Apoio do chefe pode funcionar como proteção
Nem todos os aspectos avaliados no ambiente profissional apareceram associados à piora da função sexual.
O apoio do supervisor foi o fator de proteção mais forte identificado pelos pesquisadores. A cada aumento de um ponto na avaliação desse apoio, houve acréscimo de 0,68 ponto na escala usada para medir a função erétil.
Maior autonomia para tomar decisões e boas relações com os colegas também tiveram efeito protetor. Além disso, o impacto prejudicial das horas extras foi mais acentuado entre os trabalhadores que relatavam pouco apoio do chefe.
Segundo Fernandes, ambientes em que o trabalhador se sente apoiado podem reduzir a manutenção prolongada da resposta fisiológica ao estresse, marcada pela liberação de adrenalina e cortisol.
Efeitos não ficaram restritos à ereção
A piora observada no estudo não se limitou à capacidade de ter ou manter uma ereção. À medida que aumentou o nível de estresse, os pesquisadores encontraram pontuações piores também em função orgásmica, desejo sexual, satisfação com a relação sexual e satisfação geral.
Entre os homens do grupo de alto estresse, 18,45% apresentaram disfunção erétil classificada como moderada a grave.
Quando é hora de procurar um médico?
Uma dificuldade ocasional de ereção não significa necessariamente que exista uma disfunção. Fernandes afirma que alguns sinais, porém, indicam a necessidade de procurar avaliação médica.
Entre eles estão dificuldade sexual em mais de 25% das tentativas por pelo menos três meses, sofrimento significativo, perda de ereções noturnas, redução da libido e presença de fatores de risco cardiometabólicos. Uso de medicamentos que podem afetar a função sexual e sintomas de depressão ou ansiedade também devem ser considerados.
A avaliação médica também é importante porque nem toda disfunção erétil tem origem psicológica. Segundo Fernandes, quadros predominantemente psicogênicos podem apresentar início súbito, ocorrer apenas em determinadas situações e preservar as ereções matinais.
Já problemas de origem orgânica costumam ter evolução mais gradual e progressiva, aparecer em diferentes situações e podem estar acompanhados de redução da libido ou de condições como diabetes, hipertensão, dislipidemia, obesidade, tabagismo e apneia do sono. Alguns medicamentos também podem interferir na função sexual.
A investigação pode envolver história clínica, exame físico e, dependendo do caso, exames laboratoriais, como dosagens de testosterona total matinal, LH/FSH, prolactina, TSH, glicemia ou hemoglobina glicada e perfil lipídico. O cortisol matinal pode ser considerado quando houver suspeita relacionada ao estresse.
Manejo do estresse faz parte da abordagem
Quando a disfunção está relacionada ao estresse, Fernandes cita entre as medidas de abordagem terapia, mindfulness, higiene do sono, exercícios físicos aeróbicos e de resistência, além de mudanças no próprio ambiente de trabalho.
Medicamentos também podem ser utilizados em determinados casos. O urologista cita os inibidores da fosfodiesterase tipo 5, como tadalafila e sildenafila, ressaltando que são contraindicados para quem utiliza nitratos. Terapia hormonal deve ficar restrita aos pacientes com indicação médica.
Fernandes reforça que a avaliação médica deve ocorrer antes da prescrição desses medicamentos.
Os próprios autores do estudo também alertam para os limites dos resultados. O modelo criado para estimar o risco de disfunção erétil não substitui o diagnóstico clínico e ainda apresenta taxas próximas de 20% de falsos positivos e falsos negativos. Por isso, os dados precisam ser analisados em conjunto com os sintomas e outros exames.
A pesquisa conclui que avaliar o estresse psicológico no ambiente profissional, ao lado de indicadores biológicos e da avaliação clínica, pode ajudar a identificar precocemente homens jovens com maior risco de disfunção erétil psicogênica.