EUA, Rússia e China correm para levar reator nuclear à Lua - 11/10/2026 - Ciência - Folha

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No fim de agosto, a Nasa pediu a empresas contratadas que se preparassem para construir um reator nuclear capaz de resistir a uma viagem espacial e operar sem manutenção perto do polo sul da Lua. Isso pode soar como ficção científica, mas a agência quer que ele esteja pronto para ser lançado até 2030.

Existe um motivo para a pressa. A Rússia pretende ter um reator lunar em operação até 2036, como parte de uma parceria sigilosa com a China. Os americanos já aceleraram o cronograma deles para superar os rivais.

O que está em jogo é o futuro da exploração espacial.

Estados Unidos e China querem ser os primeiros a estabelecer uma base no satélite natural da Terra, buscar recursos como água congelada e lançar missões rumo a regiões mais distantes do Sistema Solar. Para cumprir esse objetivo, é vital controlar o acesso aos recursos da Lua. E um reator nuclear é o elemento central desse plano.

Os países planejam ligar seus reatores só após chegarem à Lua. Mas alguns cientistas alertam que os governos estão avançando rápido demais em uma era de exploração espacial marcada por alguns desastres, como falhas e explosões de foguetes e a queda de um módulo de pouso russo no satélite.

Eventuais falhas envolvendo um reator nuclear poderiam acarretar consequências graves. A queda de destroços espalharia material radioativo. Uma explosão ou derretimento na superfície lunar transformaria regiões inteiras em áreas interditadas.

"Sempre haverá uma corrida espacial e, se a energia nuclear entrar nessa equação, a disputa poderá tomar um rumo potencialmente mais perigoso", afirmou Edwin Lyman, diretor de segurança da energia nuclear da ONG Union of Concerned Scientists, nos EUA.

A Rússia praticamente não tem concorrentes no campo da energia nuclear espacial

Uma análise de especificações técnicas, documentos de licitações e pesquisas acadêmicas, somada a entrevistas com fontes do setor, autoridades governamentais e críticos, oferece o panorama mais claro até hoje de como China, Rússia e EUA tentam concretizar essa ambição nuclear.

Parceria sino-russa

A energia nuclear parece ser a única tarefa central que a China delegou à sua parceira no projeto lunar. Nenhum país tem mais experiência nessa área do que a Rússia. O país pôs em órbita mais de 30 reatores, sobretudo nas décadas de 1970 e 1980, e é líder em energia nuclear para fins civis. Além disso, controla o maior estoque de urânio que não é altamente enriquecido, considerado o combustível nuclear mais seguro para missões espaciais e escasso nos EUA.

"A Rússia praticamente não tem concorrentes no campo da energia nuclear espacial", disse à agência de notícias russa Tass o presidente do Instituto Kurchatov, Mikhail Kovalchuk —a entidade de pesquisa ajuda a projetar um reator lunar.

A Nasa tenta recuperar o atraso. A agência lançou um reator em 1965, porém o desativou após uma falha na espaçonave. Desde então, os EUA gastaram mais de US$ 20 bilhões em programas nucleares espaciais. Porém, nunca instalaram outro reator.

Fonte de energia indispensável

Qualquer base permanente na Lua requer uma fonte de energia confiável. Reatores nucleares não precisam de luz solar para funcionar e podem ser compactos. Com o projeto adequado, exigem pouca intervenção humana, segundo a Nasa e o Instituto Kurchatov.

Nos primeiros anos, EUA e China precisariam de energia suficiente para manter os equipamentos aquecidos e recarregar os rovers, veículos que percorrem a superfície lunar. Para isso, planejam usar energia solar e sistemas de energia por radioisótopos.

Esses sistemas convertem em eletricidade o calor gerado pelo decaimento radioativo natural de isótopos. EUA, Rússia e China já usaram esses sistemas no espaço.

No entanto, uma base lunar precisaria de muito mais energia do que esses sistemas são capazes de gerar. Os painéis solares não funcionariam durante as frias noites lunares, que se estendem por mais de duas semanas terrestres. Qualquer sistema de energia próximo ao polo sul da Lua teria de suportar bruscas variações de temperatura.

Moscou encarregou suas agências estatais de entregar, até 2036, um reator lunar chamado Selena, destinado a fornecer energia às estações no satélite lideradas pela China. O Selena geraria até 10 quilowatts de eletricidade e poderia operar de forma autônoma por uma década. Ele teria características em comum com um reator anterior projetado para funcionar no Ártico.

A Nasa acelerou seu cronograma, temendo que um reator russo-chinês possa estabelecer, na prática, uma zona de exclusão na Lua. A previsão é que o Reator Lunar 1 da agência produza 20 quilowatts de eletricidade —aproximadamente o consumo de 16 residências americanas— e funcione por cinco anos sem nenhuma intervenção.

Como primeiro passo, a Nasa planeja usar energia nuclear para impulsionar uma nave espacial rumo a Marte em dezembro de 2028. Isso nunca foi feito antes.

Paralelamente, o Pentágono pretende desenvolver seus próprios reatores espaciais para serem instalados em órbita e na Lua, segundo a Casa Branca.

Os prazos previstos vêm sendo adiados repetidamente, e poucos especialistas dizem acreditar que os países conseguirão cumpri-los. Ninguém dispõe de um módulo de pouso comprovadamente capaz de levar material pesado e potencialmente radioativo até a superfície lunar. Tampouco alguém já instalou um reator em condições de baixa gravidade.

As bases lunares ainda não foram construídas, e a quantidade de eletricidade de que precisariam é uma questão em aberto. Por isso, especialistas afirmam que os projetos dos reatores ainda podem mudar.

"Nada é certo neste momento", disse o cientista nuclear Julien de Troullioud de Lanversin, professor da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong.

Riscos envolvidos

Os EUA e a Rússia afirmam que seus reatores permaneceriam inoperantes até chegarem à Lua. Isso reduziria os riscos. Engenheiros nucleares afirmam que o combustível de urânio "frio" representa pouca ameaça radioativa, mesmo que caia de volta na Terra.

Ainda assim, as coisas podem dar errado, sobretudo durante a explosão controlada que é o lançamento de um foguete.

"Esse é o momento em que há muito risco", afirmou Leopold Summerer, que lidera um grupo de trabalho das ONU sobre energia nuclear no espaço sideral. "Tivemos muitas falhas em lançamentos. Por isso, dispomos de muitos dados sobre o que pode dar errado."

Imagine, por exemplo, um reator caindo no oceano. A água desacelera os nêutrons, aumentando a probabilidade de que eles dividam átomos. Isso poderia causar estragos ao fazer com que um reator atingisse a criticidade, ou seja, entrasse em uma reação em cadeia de fissão de átomos que libera radiação. O risco é real porque a maioria das plataformas de lançamento fica perto de algum corpo d’água.

As especificações da Nasa exigem um projeto capaz de evitar esse desfecho. A Rosatom, empresa estatal de energia nuclear da Rússia, não quis comentar, afirmando que seu programa espacial era sigiloso. O Instituto Kurchatov, responsável pela área científica, e a Roscosmos, responsável pelo programa espacial russo, não responderam às perguntas. O Ministério das Relações Exteriores da China e a Agência Espacial Tripulada da China também não responderam.

É perfeitamente viável instalar um reator na Lua

O outro risco é uma falha que possa fazer o reator retornar à Terra após entrar em operação.

Na Terra, os reatores ficam protegidos dentro de estruturas de contenção, cuja construção na Lua seria extremamente cara e tecnicamente desafiadora. A Nasa afirmou que seu reator teria blindagem, embora não esteja claro como isso seria feito.

Especialistas disseram que os reatores lunares provavelmente seriam cercados por zonas de acesso proibido para reduzir o risco de exposição à radiação para astronautas e equipamentos.

Com pouca contenção, até mesmo acidentes menores produziriam uma precipitação radioativa muito maior, segundo R. Scott Kemp, professor associado de ciência e engenharia nuclear do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Não há vento na Lua, mas, devido à menor gravidade, os destroços podem percorrer grandes distâncias após uma explosão.

E o combustível?

Em documentos, a Nasa afirma que usaria um combustível nuclear que não é altamente enriquecido e é considerado o mais seguro para reatores avançados.

No entanto, alguns especialistas dizem que a geopolítica e um prazo apertado podem complicar a situação.

O último reator espacial testado pela Nasa, em 2018, usava urânio altamente enriquecido, que é mais leve e mais barato de lançar ao espaço do que outros combustíveis. Porém, o primeiro governo Trump desestimulou o uso desse combustível porque ele poderia acabar sendo transformado em uma arma nuclear.

Agora, a Nasa quer usar um combustível conhecido como urânio de baixo enriquecimento e alto teor, ou Haleu, cuja oferta é escassa nos EUA. A Rússia é a maior produtora, mas os americanos proibiram as importações de urânio russo em 2024 por causa da guerra na Ucrânia.

Documentos da Nasa mostram que a agência espera que o Departamento de Energia destine combustível de baixo enriquecimento a reatores espaciais. Contudo, o próprio governo tem enfrentado dificuldades para produzir combustível em quantidade suficiente.

A aliança russo-chinesa não revelou que tipo de combustível seria usado. Os reatores espaciais mais antigos da Rússia eram alimentados com combustível altamente enriquecido.

Pelo menos uma possível concorrente ao contrato da Nasa para o reator lunar, a Space Nuclear Power Corp., está desenvolvendo um reator que utiliza urânio altamente enriquecido. Um dos fundadores da empresa não quis comentar, "dada a natureza competitiva" dos próximos projetos.

O programa espacial dos EUA pode representar uma oportunidade valiosa para as empresas que fabricam microrreatores, capazes de gerar até 10 megawatts de eletricidade. Esses reatores caros são pequenos demais para atender à demanda energética de centros de dados, mas encontraram um nicho de mercado em aplicações espaciais e militares.

Os microrreatores podem, no futuro, chegar à Lua, mas nenhum deles está comprovadamente pronto para uso. Questões de segurança —como dissipar o calor, como proteger o reator e como manter sua integridade estrutural— ainda não foram totalmente solucionadas no caso dos reatores espaciais, que precisam ser compactos e leves.

"É perfeitamente viável instalar um reator na Lua", afirmou Katy Huff, que dirige o Departamento de Engenharia Nuclear e Física da Engenharia da Universidade de Wisconsin-Madison (EUA). Entretanto, segundo ela, quanto maior a potência necessária, mais difícil será construir esses reatores.