"EUA são aliados fortes. Se pedem bases, não temos de ser equidistantes"

🗓️ 2026-07-16 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

O antigo primeiro-ministro José Manuel Durão Barroso falou do panorama internacional - e da Base das Lajes, nos Açores -, apontando que não acredita numa paz para breve. Em relação à Ucrânia, rejeitou ser o enviado para falar com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, e apontou que António Costa, como presidente do Conselho Europeu, tinha agora uma tarefa difícil, mas que estava a tentar "afinar a orquestra".

O também ex-presidente da Comissão Europeia rejeitou que os líderes de hoje sejam "piores" do que antigamente, quando o assunto foi o momento atual ser um dos mais difíceis desde a II Guerra Mundial. "É uma ilusão de ótica [...]. Há sempre uma ideia de que vem a seguir é menos qualificado", apontou, em entrevista à SIC Notícias emitida esta quinta-feira.

"Tendemos a idealizar o passado e a dramatizar o presente. O que há é que hoje é mais difícil. Em parte por causa da comunicação [...]. A situação é mais exigente", afirmou, concordando que o nível de dificuldade poderá também estar relacionado com um perfil mais egocêntrico dos líderes. "Mas isso também a própria comunicação social. O narcisismo político é algo terrível. A vaidade é a doença profissional dos políticos, já disse Max Weber. Até um político gosta de ser amado, gosta de ser apoiado. É normal em democracia. Mas agora estamos a chegar a situações patológicas de exibição do poder, da imagem, do marketing. É também um efeito de um sistema de comunicação que mudou e que se traduz em comportamentos, a meu ver, perversos", atirou.

Questionado sobre se admira o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Durão Barroso rejeitou essa ideia, mas deixou uma nota: "Também não acho que seja possível pôr as culpas todas nele, nomeadamente, do ponto de vista europeu. Porque não é por causa de Donald Trump que a Europa ainda não concluiu o seu mercado interno [...], não é por causa de Trump que a Europa não investiu mais quando devia ter investido na Defesa. Temos de fazer o nosso trabalho de casa".

Diz-se: 'Quem muito se baixa, vê-se-lhe o rabo'. Não nos devemos nunca baixar perante ninguém.

O atual presidente da Fundação Luso-Americana Para o Desenvolvimento destacou que o republicano não reflete o seu "estilo de político". "De maneira nenhuma, diria até quase que o oposto no tipo de comportamento".

Ainda assim, ressalva: "Goste-se ou não dele, Trump é o grande disruptor. Mudou a gramática da política", disse, dando como exemplos protocolos diplomáticos e a forma como se dirige a adversários e aliados, "o que gera muito maior imprevisibilidade e complexidade".

"Como europeu - e português - é do nosso interesse manter uma relação especial com os EUA", considerou, apelando a que a Europa defenda os "seus interesses", com "firmeza", face às declarações e atritos que as políticas - e intenções, por exemplo, com a Gronelândia - da administração Trump com relação à Europa.

Rejeitando a ideia de que a Europa tem de ser subserviente, remontou às origens dos avós, lembrando uma expressão transmontana: "Diz-se: 'Quem muito se baixa, vê-se-lhe o rabo'. Não nos devemos nunca baixar perante ninguém."

Confrontado sobre a cedência de bases militares aos EUA, assunto no qual Durão Barroso foi crítico para com os países que não o fizeram, apontou: "É completamente diferente aí. Falando de Portugal: o nosso aliado com mais força e poder são os EUA. Há uma guerra que não é entre nós. Não estamos na guerra entre Irão de um lado e Israel e EUA do outro. Mas se há um nosso aliado que nos pede a utilização de uma bases, obviamente que não temos de ser equidistantes".

O antigo chefe de governo considerou que os Estados Unidos são "uma grande democracia" - e "independentemente do presidente". "Não podemos ser equidistantes entre os EUA [...], o maior aliado mundo ocidental e um regime teocrático, que é um dos regimes mais horríveis do mundo", afirmou.

Questionado sobre uma possível concertação antes do uso de bases militares - tendo a Base das Lajes, nos Açores, sido uma das usadas pelos EUA -, Durão Barroso defendeu que essa "deveria ter havido, com certeza que sim". "Mas aí que digo que Trump mudou as regras da política, tudo o que é a convenção diplomática", afirmou, apontando que a Espanha, que negou o uso de bases por parte dos EUA, "tem um governo muito fraco, dependente dos votos dos independentistas e de forças de extrema-esquerda, que sempre foram antiamericanas". "Portugal é país fundador da NATO, não é um recém-convertido. Em Portugal tem havido sempre um sólido consenso com as maiores forças políticas, incluindo com o Partido Socialista, a favor da relação transatlântica", afirmou.

Em jeito de balanço, e falando ainda do Iraque, Durão Barroso considerou que a escolha será Ocidente e não Oriente: "É do nosso interesse e conforme os nossos valores, termos uma relação privilegiada com os EUA. Com certeza que não é do nosso interesse termos alguma cumplicidade com o Irão ou com países semelhantes ao Irão".

Já em relação ao Estreito de Ormuz e à sua abertura, Durão Barroso disse ser "cético" em qualquer atuação na área. "Era secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, em 1987, e desde então já se falava que havia uma janela de oportunidade para a paz. É uma canção que tenho ouvido há muito tempo e eu não acredito nela. Não acredito que haja uma solução de paz enquanto não se resolverem assuntos. Hoje, apesar de tantos mortos, biliões gastos: hoje estamos piores do que estávamos há 50 anos. Estamos piores. Aparentemente, o regime do Irão, que estava muito fraco, está mais forte. Quando há agressão externa é muito mais difícil a oposição interna estar contra o regime".

Desejando que haja "um cessar-fogo", Durão Barroso considera que o mais provável é que a tensão se mantenha.

Já antes, Durão Barroso tinha sido questionado sobre se os alunos a quem hoje dá aulas pedem mais explicações pelo que fez ao longo do seu percurso ou pelo que não fez. O agora professor explicou que as experiências eram valorizadas, exemplificando: "Não é que eu tenha grande orgulho nisso, mas encontrei-me 25 vezes com o presidente [Vladimir] Putin, por isso posso contar algumas coisas. Ou [encontrei-me] com o presidente [Barack] Obama ou George W. Bush ou líderes europeus".

O nosso compatriota [António Costa] está a fazer os possíveis para pôr aquela orquestra mais ou menos afinada

Sobre a Ucrânia, foi questionado sobre se se via a ser o enviado especial europeu numa mesa negocial - até mesmo pela convivência. "Não. Francamente, não", afirmou, mas defendendo que é "um erro a Europa não falar com Putin. Em diplomacia, é precisamente com quem nós não concordamos que devemos falar".

O ex-presidente da Comissão Europeia defendeu que há atualmente no sistema quem possa avançar nesse sentido e, questionado sobre se o presidente do Conselho Europeu, António Costa, seria uma boa aposta, rejeitou dar a sua opinião: "O presidente do Conselho Europeu tem obviamente responsabilidades muitos importantes, que é de coordenar os países europeus".

Quanto à atuação de Costa em Bruxelas, Durão Barroso disse que os governos não têm sido capazes de se articular o suficiente, o que prejudica a atuação de quem está no cargo de presidente do Conselho Europeu. Destacou, no entanto, que esta é uma altura difícil. "É injusto criticar o presidente do Conselho Europeu ou a Comissão Europeia quando os próprios países não se entendem. Nesse contexto, difícil, o nosso compatriota está a fazer os possíveis para pôr aquela orquestra mais ou menos afinada - que tem mostrado algum desafinamento".

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