Guilherme Dorini: Evento inédito no Brasil quer coroar novo campeão mundial de ondas gigantes

🗓️ 2026-10-11 📁 sports 📝 ⏱️ 👁️ : -

Se não existe um campeão de ondas grandes, não existe esporte. Para mim, você precisa ter um campeão mundial para que seja um esporte legítimo Gary Linden ao UOL

A última edição de um campeonato mundial unificado da modalidade foi realizada em 2018, ainda pela WSL. Desde então, o calendário passou a ser marcado por eventos independentes e premiações que reconhecem desempenhos individuais, sem uma competição que defina quem é o campeão mundial.

Linden conhece esse cenário de perto. Em 2009, ele criou o Big Wave World Tour, circuito que ajudou a estruturar o surfe de ondas grandes como competição profissional e que, posteriormente, passou a ser administrado pela WSL. Agora, quer tentar novamente.

Por que o Brasil?

A ideia de levar o campeonato à Laje da Jagua surgiu a partir de Thiago 'Jacaré', surfista brasileiro de ondas grandes e organizador de eventos na região. Ele procurou Linden com a proposta de transformar a onda de Jaguaruna, no litoral sul de Santa Catarina, no palco de uma competição internacional.

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A Laje da Jagua fica a cerca de cinco quilômetros da costa e é conhecida pela força das ondas que quebram sobre seu fundo rochoso. Jacaré acredita que o local ainda tem muito a mostrar ao mundo, inclusive por causa de sessões que nunca foram registradas oficialmente.

Com base em dias em que surfamos ondas que nem sequer foram documentadas oficialmente, Jaguaruna se qualifica, sem dúvida, como o lugar onde foram vistas as maiores ondas do Brasil. Já vimos ondas bem maiores que 16 metros 'Jacaré' ao UOL

Em julho de 2025, a Laje da Jagua ganhou ainda mais destaque quando Lucas Chumbo surfou uma onda de 14,82 metros no local, estabelecendo o recorde da maior onda já surfada no Brasil. A marca foi confirmada após análise técnica, superando o recorde anterior, de 13,7 metros, que pertencia ao próprio Jacaré.

A competição será disputada na remada, sem o auxílio de jet-skis para colocar os surfistas nas ondas. Além da dificuldade de encontrar a ondulação ideal, a localização exige planejamento e uma operação de segurança adequada.

Linden ainda não conhece pessoalmente a onda brasileira, mas vê vantagens na estrutura local, especialmente na experiência do país em organizar competições de surfe.

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"Minha parte é trazer o formato, e meu nome traz credibilidade junto aos atletas. Para mim, é ótimo porque o Brasil é profissional na organização de eventos. Tem federação, juízes, equipe de segurança na água e tudo aquilo que eu antes precisava levar comigo", afirmou.

A escolha também tem um componente pessoal. Linden chegou ao Brasil pela primeira vez em 1972, depois de atravessar o Atlântico em um veleiro. A viagem acabou se transformando em uma relação duradoura com o país. Ele viveu no Brasil durante parte daquela década e mantém uma casa em Saquarema, no Rio de Janeiro.

Eu ficaria feliz em realizar o evento em qualquer lugar que tivesse a premiação e a organização necessárias. Mas nada me deixa mais feliz do que fazer isso no Brasil e surpreender o mundo Gary Linden

No ritmo do oceano

Ao contrário dos circuitos tradicionais, com etapas marcadas em datas e locais definidos com antecedência, a proposta do Big Wave Alliance, assim como todo campeonato de ondas grandes, é trabalhar com uma janela de espera e realizar a competição quando as condições estiverem no ponto ideal.

O formato foi pensado para tornar isso possível. Serão 12 homens, divididos em duas semifinais e uma final com seis surfistas, além de seis mulheres em uma final própria. Cada categoria terá US$ 25 mil em premiação.

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Com poucas baterias, a organização pretende aproveitar o momento de pico da ondulação, em vez de obrigar os atletas a competir quando o mar já perdeu força ou as condições não são as melhores.

Uma ondulação de ondas grandes costuma ter cerca de três horas de pico: ela chega, atinge o auge e depois diminui. Quero ter condições de escolher esse momento Gary Linden

A lista de participantes inclui nomes importantes da modalidade, como os brasileiros Lucas Chumbo e Pedro Calado, o havaiano Billy Kemper e o britânico Tom Lowe. Entre as mulheres estão a francesa Justine Dupont e a brasileira Catarina Lorenzo.

O interesse dos atletas é um dos pontos que animam Linden. Segundo ele, vários surfistas aceitaram o convite rapidamente, mesmo sabendo que o campeonato ainda está construindo seu espaço no cenário internacional.

Campeão mundial?

A proposta não deve acabar com as discussões sobre quem tem legitimidade para organizar um campeonato mundial de ondas grandes. Sem um circuito unificado há anos, diferentes eventos e organizações construíram suas próprias referências, e o Big Wave Alliance terá de conquistar espaço nesse cenário.

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Gary Linden é uma lenda do surfe de ondas gigantes
Gary Linden é uma lenda do surfe de ondas gigantes Imagem: Instagram/@lindensurfboards

Linden não esconde que sabe disso. Para ele, no entanto, a existência de uma competição que tente coroar um campeão é mais importante do que esperar por um consenso que talvez nunca venha. Ele compara a situação à do boxe, que possui diferentes entidades responsáveis por reconhecer campeões mundiais.

O americano também não descarta que outra organização apareça com uma proposta mais abrangente. "Minha posição é que ficarei muito feliz se alguém aparecer e criar um circuito melhor", afirmou.

Por enquanto, a missão é fazer a competição acontecer.

Linden quer que as ondas sejam grandes o suficiente para desafiar até os melhores surfistas do mundo. É parte da ambição do projeto e também uma resposta a quem ainda duvida da capacidade brasileira de produzir ondas grandes.

Estou cansado de ouvir que o Brasil não tem ondas grandes. Quero ondas tão grandes que eles nem consigam surfar Gary Linden

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Se o mar colaborar, Jaguaruna poderá receber mais do que uma competição inédita. Poderá ser o início de uma tentativa de devolver ao surfe de ondas grandes uma disputa pelo título mundial.

Reportagem

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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