"Eventos como o que se viu em Ceuta têm de ser precavidos"
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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que destacamos as principais questões geopolíticas mundiais. Hoje contamos com a análise do tenente-general Marcos Serronha, a quem agradeço a disponibilidade. Seja muito bem-vindo à Rádio Observador.
Olá, bom dia. Obrigado.
Bom dia. Vamos começar por abordar a situação em Ceuta. O governo espanhol diz que a crise migratória súbita está bem encaminhada rumo à resolução, mas há relatos dos jornalistas que dão conta de migrantes que ainda chegam a nado encharcados ou apenas com a roupa que trazem no corpo. Este assunto vai estender-se durante quanto tempo, tenente-general Marcos Serronha?
Olá, bom dia. Muito obrigado pelo convite. Eu julgo que como evento, como um conjunto de características relativamente diferente daquilo que têm sido as tentativas de passagem migratória, devido essencialmente ao volume, julgo que vai ter um fim a curto prazo, naturalmente. Portanto, ainda estamos eventualmente com os últimos resquícios deste evento. É evidente que as tentativas de passagens a nado contornando os pontões ou mesmo saltando a rede são questões que têm, por vezes, números relativamente maiores, mas são questões que se passam quase, não digo dia a dia, mas que se têm passado. Agora, aqui a questão central é a capacidade dos países que têm fronteiras da União Europeia, nomeadamente o espaço Schengen, de controlar este tipo de movimentos de massas, que além do efeito de natureza humanitária que têm naturalmente, relativamente a este elevado número de mortos, tem um efeito sobre também a percepção de segurança dentro do espaço Schengen. E este evento, nós não sabemos os detalhes todos naturalmente, mas quem se dedica a estas coisas da segurança, da defesa e da geopolítica percebe que um evento desta natureza não é organizado em cinco minutos. Isto tem um processo, sejam as máfias, como diz Pedro Sánchez, tenha por trás alguma pressão de Marrocos, há quem fale dos Estados Unidos, eventualmente, não passa despercebido aos serviços de informações, muito provavelmente. Há suspeitas que os serviços de informações espanhóis pudessem estar ocorrendo disto. E aqui a questão se o governo espanhol fez ou não fez nada, é uma questão que terá que ser analisada naturalmente. Mas tem aqui outro aspecto também, julgo eu, sob o ponto de vista da unidade da União Europeia, também percebeu-se que há aqui algumas fraturas relativamente às posturas políticas dos países, são os líderes políticos que depois têm impacto nestas coisas. Mas voltando à sua pergunta, eu julgo que isto é um fenómeno que vai ser localizado. Sob o ponto de vista dos efeitos e da organização é localizado. Não quer dizer que não possa vir a haver no futuro com mais intensidade para potenciar as escolhas políticas.
Não há risco, no seu entender, de novas crises súbitas de migração como a que aconteceu nos últimos dias?
Não, eu julgo que há risco, quer dizer, o risco está presente. O que é preciso é antecipar o risco e de algum modo criar os mecanismos para esse efeito. E esses mecanismos são de diversas naturezas, são mecanismos de natureza física, das polícias, naturalmente, e do controle, mas também tem a ver com interação naturalmente, seja de Espanha, seja da própria União Europeia com Marrocos.
E como é que se antecipa esses riscos?
Esses riscos antecipam-se essencialmente, sob o ponto de vista da ocorrência do evento, é uma questão de segurança, naturalmente. Portanto, os serviços de informações têm que conhecer, e os serviços de investigação policial também, naturalmente, seja da Espanha, seja da União Europeia. Isto são coisas que podem acontecer. A Espanha tem a questão do enclave de Ceuta, que é uma questão sensível, mas também contrariamente àquilo que muita gente pensa, Ceuta está fora do espaço Schengen, portanto, tem um tratamento diferente. O espaço Schengen começa em Algeciras, não é em Ceuta e Melilha, por assim dizer. E portanto, estes eventos, que possam ser até utilizados com outro tipo de interesses políticos, nomeadamente neste caso de Marrocos, têm que ser prekazidos, não só sob o ponto de vista do conhecimento daquilo que se está a passar com as redes, de quem controla as redes, dos sistemas das máfias que controlam o tráfico ilegal, como também nos mecanismos, sejam eles de resposta imediata ou de antecipação e de prevenção, seja sob o ponto de vista do diálogo político com Marrocos. Terá que ser feito no sentido de Marrocos também, o próprio rei, já veio a terreiro dizer que este assunto tem que ser mais bem visto. Houve coisas que estão a correr mal que puseram em causa também a imagem de Marrocos, naturalmente. Não foi só a imagem de Espanha, foi a imagem de Marrocos também, que de algum modo também fechou um pouco os olhos a esta massa humana que se aproximou de Ceuta e que tentou passar por diversos sítios. Até haverá indicações que a guarda que está do lado de Marrocos não fez absolutamente nada e que até terá aberto algumas das portas, não sei. São coisas que terão que ser investigadas, mas há aqui dimensões de natureza geopolítica que também têm que ser tratadas, que não só a pura segurança da migração ilegal e da questão criminal da utilização da imigração como fenómeno Criminal, com o crime organizado. E há questões de natureza política e têm que ser ambas tratadas.
Marco Serronha, gostaria também de abordar a resposta europeia. Tivemos vários países a intervir de forma pública após estes primeiros tempos da crise de migração. Tivemos o governo de Pedro Sanchez também a responder a essas críticas. Uma resposta muito fragmentada na Europa. Há quem veja isto como uma crise humanitária, há quem apelide isto quase como uma praga que está a chegar a Ceuta. Que leitura é que podemos fazer desta reação dispersa por parte da União Europeia?
Eu acho que dispersa é uma palavra simpática. Há, de facto, uma polarização dentro da Europa em termos políticos sobre diversas questões. Não é só a questão da imigração, são outras questões de natureza, relações com a Rússia, relações com os Estados Unidos. Portanto, há uma polarização de posições, neste caso da imigração. Os países que têm mais preocupações com a questão do tratamento político do fenómeno das migrações, tiveram uma reação relativamente brusca, talvez, na minha opinião, um pouco mais brusca do que aquilo que era necessário. Para já, é preciso também pôr a questão em contexto. Como eu há pouco disse, Ceuta não faz parte do espaço Schengen. O que alguns países disseram parece que tinha havido uma invasão do espaço Schengen, o que não é verdade. Sob o ponto de vista formal e técnico, não é verdade. E portanto, eu julgo que aqui há uma polarização. O assunto da migração, como sabemos, é um assunto de polarização interna dentro dos países. Isso passa-se em todos os países, onde há partidos que são mais antiimigração do que outros partidos que são mais pró, ou pelo menos de maior acomodação do fenómeno das migrações, em termos internos nos países. E depois também há uma polarização dentro da União Europeia relativamente a isso, onde há países que têm governos, por assim dizer, que seguem essas políticas de controle mais exigente ou quase total do fenómeno migratório, contra países ou governos de países que têm posturas mais abertas relativamente a isso. E essa fratura notou-se nitidamente e depois tem os efeitos negativos. Agora a União Europeia, de algum modo, a Comissão tem tentado pôr aqui alguma água na fervura, mas de facto isto tem questões que são controláveis e têm que ser bem articuladas ao nível local dos países, porque os países é que têm as fronteiras, naturalmente, e é que fazem o controle da sua parte de fronteira da União Europeia ou do espaço Schengen, com questões de natureza mesmo institucional da União Europeia, que é a própria União Europeia que tenta tratar e tenta regular de algum modo e criar as diretivas necessárias para o controle e para a organização deste fenómeno. Sabemos que os países da União Europeia precisam de mão de obra, em termos internos. E portanto, isto tem que ser controlado a todos estes níveis. A questão mais sensível da segurança é uma questão mais dos países, embora há sítios onde tem que haver coordenação entre os países, que é o caso, por exemplo, de nós, Portugal e Espanha, naturalmente, temos uma fronteira contígua da União Europeia, que tem que ser tratada de forma articulada e com os meios necessários suficientes e a articulação entre países que tem que haver.
Vamos avançar, tenente-general Marco Serronha, abordar a situação no Médio Oriente, até porque Donald Trump anunciou a suspensão de ataques perante a perspectiva de um novo acordo de paz com o Irão. Isto é um esforço diplomático por parte do presidente norte-americano ou uma consolidação de forças?
Eu julgo que é uma mistura de várias coisas. Os Estados Unidos tiveram esta parte nos últimos dias dos ataques, depois pararam. Houve uma pequena reativação dos ataques com efeitos que nós já esperávamos que o Irão vai ter e com a questão do ataque e da retaliação sobre os países do Golfo, alguma preocupação da Arábia Saudita, como sabemos, relativamente a esta questão, que inclusivamente o príncipe Bin Salman está a falar com Donald Trump no sentido de acautelar os ataques para evitar retaliações complexas. Isso por um lado, sobre a Arábia Saudita e sobre outros países. E por outro lado, uma ideia que teremos que ver agora ainda analisar melhor e ver os resultados de um avanço, isto foi Donald Trump que disse, de algum avanço nas negociações. Vamos ver, havia informações que tinham, de facto, iniciado com os mediadores. Deve haver, e haverá com certeza, propostas de um novo acordo, um novo memorando, com um texto que seja mais facilmente inteligível e percebível por toda a gente, ou seja, que seja interpretado por todos da mesma maneira, coisa que nós sabemos que não se passou com o acordo dos 14 pontos. Foi feito relativamente à pressa e o texto lá ficou. Não era exatamente interpretado da mesma maneira, tanto pelos Estados Unidos como pelo Irão, nomeadamente sobre a questão de Hormuz. E portanto, vamos ver. Mas essencialmente, eu julgo que há aqui um processo negocial e julgo que vamos assistir um pouco ao mesmo que assistimos no acidente. Ou seja, conforme isto anda mais ou menos em favor dos Estados Unidos, poderá haver ações de natureza militar, com a resposta evidente do Irão. Mas vamos ver, pode ser que haja expectativas positivas relativamente ao haver um acordo, embora nós sabemos à partida que as posições, tanto dos Estados Unidos como do Irão, não se alteraram significativamente, pelo menos sob o ponto de vista retórico. Portanto, o Irão não abdica do Estreito de Hormuz, não quer a questão nuclear posta nesta fase. Os Estados Unidos insistem na questão de Hormuz aberto E livre e do Irão não ter armas nucleares. Vamos ver como é que conseguem, de algum modo, acordar alguma coisa que leve pelo menos a um reativar do cessar-fogo mais previsível, mais monitorizável, com mecanismos que possam monitorizar o cessar-fogo, coisa que não se passou do antecedente, conforme vimos.
Para já o-
Quando se entrou. Até nas negociações técnicas a coisa não funcionou porque não era possível pelas duas partes perceberem. Se não se entendiam sobre o conteúdo e sobre o conceito de cada ponto, não era possível criar medidas técnicas que fossem eficazes para o controle.
Para já, o que temos é o Ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão a deixar um aviso aos Estados Unidos: qualquer ação temerária vai merecer uma resposta por parte de Irão. Isto fragiliza desde já a narrativa que estava a defender?
Isto fragiliza no sentido da retórica, mas isso não é novo também. Nós sabemos que o Irão teve sempre uma preocupação e de algum modo-
Era a segunda parte da minha questão, que é se esse tipo de avisos/ameaças têm algum tipo de efeito ainda.
Tem, porque nós o que vimos desde o início desta guerra foi que o Irão teve sempre a capacidade, sob o ponto de vista da retórica e do fenómeno da comunicação estratégica internacional relativamente ao conflito, de algum modo ter a liderança disto. Tanto para efeitos essencialmente de natureza interna, da própria população iraniana, como na região, que é onde lhe interessa de algum modo influenciar também. E os Estados Unidos também. Mas essencialmente a questão interna e, por assim dizer, dá a ideia e cria uma ideia, uma narrativa que quem controla a sequência das operações, seja do processo negocial, seja das operações militares, é o Irão. Com essas ameaças e se os Estados Unidos não fizerem nada, dá a ideia que esta ameaça está a funcionar. Está a dissuadir os Estados Unidos de atuar. Vamos ver o desencadear disto, mas o que resulta daqui é que quem lidera a questão das negociações e da narrativa comunicacional à volta de tudo isto é o Irão. E essa é a preocupação que o Irão tem tido sempre e de algum modo tem tido sucesso nesse capítulo.
Vamos ainda manter-nos no Médio Oriente, mas falar um pouco sobre Gaza. Pelo menos oito pessoas morreram esta madrugada na Faixa de Gaza, novos ataques israelitas, apesar do acordo sobre o desarmamento do movimento islamista do Hamas e a possível retirada de Israel de território palestiniano. Este acordo entre Israel e o Hamas está condenado a fracassar?
Vamos ver. Eu não teria uma interpretação tão radical. Não vai ser fácil, nós sabemos que as posições do Hamas, embora tenha havido aqui uma evolução sob o ponto de vista positivo do Hamas no sentido da sua desmilitarização, condicionada atualmente à retirada de Israel de Gaza. Mas que era a questão que o Hamas, em determinada altura, conforme nos recordamos, não aceitava a questão do desarmamento e mesmo assim sob o ponto de vista prático, independentemente se o ponto de vista formal tenha manifestado essa possibilidade, sob o ponto de vista prático, é sempre o velho problema da implementação. Porque os dois atores, seja o Hamas, seja Israel, são muito assertivos sob o ponto de vista da implementação das medidas. E basta o Hamas interpretar que aquilo que Israel está a fazer não é a retirada que estava a pensar, para de algum modo este acordo ou esta implementação durar muito mais do que aquilo que era esperado ou mesmo parar ou retroceder. É um pouco essa a questão. Agora vamos ver até que ponto os mecanismos de monitorização com a tal Força Internacional de Segurança e o formato da desmilitarização do Hamas e da retirada de Israel de dentro de Gaza, como é que vão ser implementados e como é que vão ser feitos. É evidente que as eleições de Israel também não ajudam muito isto, sob o ponto de vista da luta política interna, naturalmente, especialmente do lado do governo Netanyahu, e até que ponto o Hamas vai ter algum tipo de força interna dentro de Gaza para continuar a tentar pelo menos implementar uma liderança política e de segurança dentro de Gaza, na prática, que foi o que fez durante os últimos 25 anos. É um pouco isso, pode ser que sim.
Tenente-general Marcos Rebelo, temos ainda dois minutos para abordar a situação na Ucrânia. Moscovo mantém ataques constantes a várias cidades, sobretudo também a Kiev, e há cada vez mais notícias sobre a possibilidade de Vladimir Putin avançar mesmo com uma nova mobilização de forças. O presidente russo precisa de mais botas no terreno?
Precisa por duas razões. Primeiro, porque precisa de rodar ou de recompletar as baixas que tem tido, que são muitas. Mais de 1000 e à volta das 1500 por dia. Isso tem que ser recompletado, por assim dizer, mas mais do que isso, tem a noção que é preciso haver um aumento das capacidades militares relativamente àquilo que tem estado presente pra ter algum grau ou mais grau de sucesso naquilo que pra ele é mais importante, que é a progressão do Donbass, porque isso não tem sido conseguido. Putin tem resistido à mobilização, porque a mobilização, sob o ponto de vista político interno É complicado pro Putin, pra quem andou a vender durante quase cinco anos que isto... É evidente que foi decrescendo esta dinâmica de uma vitória em larga escala e de forma imediata. Foi decrescendo ao longo do tempo, naturalmente, pela realidade dos factos, mas vai ter que mexer, porque o Putin, o regime arranjou um processo de mobilização que passava essencialmente pela contratação e por pagar bons ordenados aos voluntários que iriam lá pra guerra da Ucrânia. Isso não tem chegado, não vai chegar e portanto, terá que ir pra um fenômeno de mobilização. E a mobilização é um fenômeno forçado. Não é voluntariado, é forçado. É de algum modo, fazer uma lei de mobilização que obrigue as pessoas de determinada idade a incorporar as Forças Armadas russas quando destino ao creche. E portanto, isso era uma coisa que ele sempre evitou fazer, que vai afetar um pouco aquilo que é chamado o contrato social entre o regime russo e a sua população, em especial a população das províncias e das repúblicas da Federação Russa mais ao ocidente, aquelas que onde está a mais população e que vão ser mais afetadas por isso, nomeadamente dos oblasts de Moscou e de São Petersburgo. Ele andou a evitar isso e vai criar alguma turbulência interna. E ainda por cima há aqui outra dúvida: se isso será eficaz. Porque depois a Rússia tem um problema que é o treino que dá aos seus militares ser muito fraco. E foi identificado aqui há uns dias pela directora da CIA que o tempo de vida de um militar russo recém-treinado que chega à linha da frente é entre 20 minutos a meia hora. Portanto, mau treino. E se houver mau treino, podem arranjar 300 mil que não é isso que vai fazer a alteração, naturalmente.
Muito obrigado, tenente-general Marcos Ronha. Chegamos ao final do nosso tempo, fica por aqui a edição de domingo do Gabinete de Guerra.
Muito obrigado, bom domingo.