Alzheimer: biomarcador no sangue traz medo e incerteza - 14/08/2026 - Equilíbrio e Saúde - Folha

🗓️ 2026-08-15 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Em 2018, a mãe de Beth morreu de Alzheimer aos 75 anos. "Foi terrível", disse ela. E, após passar por isso, acrescentou, "você começa a se preocupar com o próprio futuro".

Há um ano, Beth, hoje com 58 anos, soube da existência de um novo exame de sangue para detectar Alzheimer. Dado seu histórico familiar, seu médico de atenção primária concordou em solicitar o exame em junho. O resultado mostrou níveis elevados de uma proteína chamada p-tau217, o que sugeria que ela apresentava sinais iniciais de Alzheimer no cérebro.

"Eu adoraria dizer que foi um choque completo, mas não foi", diz Beth. "Não quero parecer totalmente pessimista. É só que... sinto que a doença está vindo atrás de mim." (Para proteger a privacidade das pessoas ao tratar de informações sensíveis sobre saúde, o jornal The New York Times as identifica apenas pelo primeiro nome.)

Um neurologista realizou vários exames complementares e constatou que a cognição de Beth estava normal. O médico também lhe disse que os exames de sangue não são 100% conclusivos.

"Isso faz você se sentir melhor", disse Beth. "Mas também deixa toda a situação com muito mais pontos de interrogação."

Foi nesse cenário que surgiram perguntas como: o que o futuro reserva? Ela será um fardo para a família? Por quanto tempo conseguirá continuar trabalhando? Se não viajar para Paris no próximo ano, será que algum dia ainda poderá ir?

Foi nesse cenário que, no ano passado, dois exames de biomarcadores sanguíneos para Alzheimer foram aprovados pela Food and Drug Administration, a agência reguladora de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos, para ajudar no diagnóstico de pessoas com comprometimento cognitivo.

Cada vez mais, pessoas sem problemas de memória também estão fazendo esses exames para tentar determinar se desenvolverão Alzheimer no futuro. Algumas os compram em sites de exames laboratoriais vendidos diretamente ao consumidor; outras são encaminhadas por um médico. No entanto, especialistas em demência são quase unânimes em afirmar que os exames ainda não estão prontos para ser usados dessa forma e desaconselham essa prática.

Para alguns pacientes, os resultados são devastadores e os deixam assustados e desamparados. Outros os encaram como uma oportunidade de assumir o controle e logo partem para a ação, tentando melhorar a saúde de modo geral e organizar a própria vida. E muitos, como Beth, ficam confusos sobre o que seus resultados realmente significam.

Questões em aberto

Os exames medem os níveis sanguíneos de duas proteínas, amiloide e tau, que passam a funcionar de maneira anormal no cérebro de pessoas com Alzheimer.

Um exame em particular, chamado p-tau217 devido à forma da proteína que mede, apresenta correlação especialmente forte com a amiloide, que pode se acumular décadas antes de a pessoa começar a apresentar comprometimento cognitivo.

A p-tau217 está rapidamente se tornando o exame preditivo preferencial: um estudo publicado no mês passado na revista JAMA constatou que pessoas cognitivamente normais com níveis muito elevados de p-tau217 tinham 38% de probabilidade de desenvolver problemas de memória e raciocínio em até cinco anos e 78% em dez anos.

O Dr. Jeff Williamson, chefe de gerontologia e medicina geriátrica da Faculdade de Medicina da Wake Forest, disse ter atendido, nos últimos 18 meses, entre duas e três dezenas de pacientes cognitivamente normais —a maioria na faixa dos 50 e 60 anos —que fizeram o exame. Muitos têm pais ou outros familiares com Alzheimer, e os resultados os deixaram muito preocupados com o que pode estar por vir.

"Toda vez que esquecem alguma coisa, perdem as chaves ou não se lembram do nome de um colega de escola, começam de fato a desenvolver uma ansiedade do tipo: ‘Ah, talvez seja o Alzheimer que está no meu sangue’", disse ele.

Segundo o médico, isso ocorre mesmo quando o teste de memória deu resultado normal no mês anterior ou quatro meses antes.

Embora seja maior a probabilidade de que alguém com nível elevado de p-tau217 venha um dia a desenvolver demência, o diagnóstico não é garantido. Dois especialistas disseram que a relação entre a p-tau217 e o Alzheimer é semelhante à forma como o colesterol alto aumenta o risco de infarto.

Também pode haver problemas de precisão nos exames, especialmente quando as pessoas apresentam níveis moderados de p-tau217. Nesses casos, o exame não é tão confiável quanto quando os níveis são muito baixos ou muito altos, afirmou Rachel F. Buckley, professora associada de neurologia no Mass General Brigham e na Faculdade de Medicina de Harvard, que liderou o recente estudo publicado na JAMA.

"Eu teria muito menos confiança" nos resultados nessa situação, disse ela.

Outros fatores também podem afetar a precisão. Os médicos costumam confirmar os resultados com exames complementares e, ao fazer isso, às vezes identificam falsos positivos.

O Dr. Richard Isaacson, neurologista especializado em prevenção no Atria Health Institute, na Flórida, e no atendimento a pessoas com risco de demência, disse que vê falsos positivos "toda semana".

Ele citou o exemplo de uma mulher cuja amostra foi coletada antes do fim de semana do feriado de 4 de julho e analisada depois. Ele acredita que o gelo seco no qual a amostra estava acondicionada tenha derretido nesse intervalo, alterando-a e produzindo um resultado incorreto.

Em outro caso, um paciente teve um falso positivo porque apresentava rabdomiólise, condição em que o tecido muscular se degrada e libera proteínas na corrente sanguínea. Doenças renais também podem distorcer os resultados dos exames de sangue.

(Isaacson também desenvolve exames de biomarcadores cerebrais na AlzLabs, na Flórida.)

Também há possíveis implicações jurídicas a considerar. Os exames de biomarcadores não contam com proteção de privacidade, afirmou Jalayne Arias, professora associada de políticas de saúde e ciências comportamentais da Escola de Saúde Pública da Universidade Estadual da Geórgia.

Isso deixa as pessoas vulneráveis à discriminação por parte de seguradoras de vida, seguradoras de cuidados de longa duração, comunidades de aposentados ou residenciais com assistência, e até mesmo empregadores.

"Existe essa tensão porque, sem dúvida, essa informação poderia dar a alguém um conhecimento que a ajudaria a fazer planos e tomar decisões sobre onde quer morar e como quer passar o tempo", disse Arias, que escreveu recentemente sobre essas preocupações na revista Neurology.

"Por outro lado, o registro disso no prontuário médico ou a divulgação a terceiros pode, inadvertidamente, restringir as opções disponíveis para essa pessoa."

Esperança para o futuro

Os especialistas esperam que esses exames se tornem mais confiáveis para prever quem pode desenvolver Alzheimer e, mais importante, que passe a existir um medicamento capaz de retardar ou prevenir o surgimento dos sintomas. Se isso acontecer, a maioria dos especialistas disse que começaria a recomendar que pessoas cognitivamente saudáveis fizessem o exame.

Mas, por enquanto, não existe uma terapia preventiva eficaz.

Dois medicamentos usados no tratamento do Alzheimer estão sendo avaliados em ensaios clínicos quanto ao seu potencial de proteção, e os resultados são esperados em um ou dois anos.

Enquanto isso, Williamson e Isaacson aconselham os pacientes com resultados positivos a adotar um estilo de vida saudável e a se concentrar em melhorar outros aspectos da saúde, como manter a pressão arterial sob controle.

Um estudo publicado no ano passado constatou que, independentemente dos níveis de p-tau217, os participantes mais saudáveis apresentavam risco menor de desenvolver comprometimento cognitivo nos oito anos seguintes do que aqueles com saúde menos favorável.

Eles não tinham muitas doenças crônicas graves, se exercitavam regularmente, mantinham uma alimentação nutritiva e não fumavam.

Esses comportamentos não parecem afetar o acúmulo de amiloide ou tau no cérebro, mas oferecem uma espécie de proteção contra os danos que essas proteínas podem causar, afirmou Sterling Johnson, professor de geriatria e demência da Faculdade de Medicina e Saúde Pública da Universidade de Wisconsin-Madison, que liderou o estudo.

Cuide-se

Ciência, hábitos e prevenção numa newsletter para a sua saúde e bem-estar

Essa é a estratégia adotada por Susan, de 70 anos. Quando fez um exame de p-tau217 em junho e descobriu que seus níveis estavam elevados, ficou "meio pasma", contou. Embora seu pai tenha morrido com Alzheimer em estágio avançado, ela não apresentava nenhum problema de memória.

Nas semanas desde que recebeu os resultados, Susan tem se empenhado em se exercitar mais, adotar uma alimentação no estilo mediterrâneo e fazer jogos de raciocínio em vez de ficar rolando as redes sociais. Ela também confirmou que seu testamento e sua procuração para decisões médicas estavam atualizados.

Susan sabe que o exame de sangue não garante que desenvolverá Alzheimer, mas "é o empurrão de que você precisa para começar a fazer coisas que já deveria estar fazendo de qualquer maneira", disse ela.