Exército israelita matou sete trabalhadores humanitários da World Central Kitchen em Gaza após associá-los ao Hamas. Mas eles não eram do Hamas
Uma investigação revela que uma prática militar que dá aos comandantes margem para identificar alvos pela associação a alegados combatentes terá pesado no ataque de abril de 2024. Israel atribui as mortes a uma avaliação errada e a falhas no cumprimento dos procedimentos
Durou poucos minutos. Uma equipa da World Central Kitchen, organização humanitária internacional dedicada à distribuição de refeições em zonas de guerra e de catástrofe, tinha acabado de concluir uma entrega de alimentos no centro da Faixa de Gaza quando alguns homens contratados localmente para proteger o carregamento se aproximaram. Pelo menos um estava armado.
A missão tinha sido previamente coordenada com o Exército israelita e os camiões chegaram ao armazém previsto, onde descarregaram a ajuda. Ainda assim, militares que acompanhavam a operação através de drones concluíram que o comboio poderia ter sido tomado pelo Hamas.
A presença dos homens armados e o breve contacto com os trabalhadores humanitários foram suficientes para levantar a suspeita.
Os dois grupos acabariam por seguir caminhos diferentes. Os guardas partiram num veículo para norte. Os trabalhadores da World Central Kitchen seguiram nos três carros da organização. O Exército israelita acompanhou essa separação através de drones, segundo novos elementos agora revelados, mas a suspeita manteve-se. Houve ainda uma identificação errada de que um homem armado teria entrado num dos veículos humanitários.
Pouco depois das 23h00 de 1 de abril de 2024, começou o ataque.
Os três carros, claramente identificados com o símbolo da World Central Kitchen, foram atingidos por mísseis disparados por drones israelitas, com cerca de dois minutos entre cada ataque. Houve sobreviventes no primeiro veículo que correram para o segundo. Depois do segundo impacto, sobreviventes mudaram novamente de carro. O terceiro míssil não deixou ninguém com vida.
Uma investigação exclusiva do Guardian revela agora que a morte dos sete trabalhadores não terá resultado apenas dos erros individuais apontados pela investigação oficial israelita.
Oficiais superiores envolvidos no caso ou conhecedores do inquérito descrevem uma prática militar conhecida em hebraico como haflala — “incriminação” —, que concede aos comandantes no terreno ampla margem para classificar alguém como terrorista, também através da associação a pessoas consideradas combatentes.
Nochi Mendel, coronel na reserva que ordenou os ataques, explicou ao Guardian que os trabalhadores se tinham “misturado” com homens que a unidade considerava operacionais do Hamas. A investigação concluiu posteriormente que essa suposição não tinha fundamento.
Questionado sobre se a presença de homens armados transformava todo o grupo num potencial alvo, Mendel respondeu que sim. “Não eram inocentes porque estavam ligados ao Hamas”, afirmou.
Para Mendel, estar perto dos suspeitos, conversar com eles ou permanecer na mesma zona podia estabelecer essa associação. Outros oficiais ouvidos pelo jornal descrevem a “incriminação” como uma prática comum, embora a forma como é aplicada varie consoante os comandantes.
O general da reserva Oren Solomon, que desempenhava funções de comando na Divisão de Gaza, explicou que o erro inicial teve consequências sobre tudo o que aconteceu depois: uma vez considerado que um veículo transportava elementos do Hamas, quem sobrevivesse a um ataque e passasse para outro carro podia continuar a ser tratado como alvo. Foi essa lógica, sustentou, que levou aos três lançamentos sucessivos.
Nem todos os oficiais envolvidos concordam que as regras permitissem ir tão longe.
Um militar superior que participou na investigação inicial considerou que Mendel ultrapassou os limites. Mesmo admitindo que o primeiro ataque pudesse resultar da identificação errada de um suspeito armado, os dois seguintes já não se justificariam depois de os ocupantes saírem sem armas visíveis.
Morreram os britânicos James Kirby, James Henderson e John Chapman, a australiana Zomi Frankcom, o palestiniano Saifeddin Abutaha, o polaco Damian Sobol e Jacob Flickinger, cidadão norte-americano e canadiano.
As Forças de Defesa de Israel rejeitam que a mera proximidade a uma pessoa armada transforme alguém num alvo legítimo. Numa resposta ao Guardian, sustentam que os ataques resultaram de uma “avaliação errada” de que havia operacionais do Hamas dentro dos veículos e admitem “falhas graves” no cumprimento das ordens e dos procedimentos militares.
A procuradoria militar israelita decidiu em agosto não abrir uma investigação criminal, concluindo que, apesar dos erros cometidos, não existiam suspeitas razoáveis da prática de crime. A decisão desencadeou críticas dos países de origem de várias das vítimas. A Austrália e a Polónia, entre outros, exigiram explicações a Israel.
A World Central Kitchen considera a conclusão “incompatível com toda a verdade e profundamente ofensiva”. A organização sublinha que os trabalhadores estavam desarmados, que os veículos humanitários estavam claramente identificados e que o Exército israelita conhecia antecipadamente os movimentos da equipa.
Mendel, entretanto afastado das funções que exercia, não recua na decisão. “Vim para derrotar o Hamas”, afirmou ao Guardian. Se voltasse a ser confrontado com o mesmo cenário, garantiu, faria “exatamente a mesma coisa”.