Fernando Alexandre Magno
Desde que me lembro que, sempre que nos deparamos com a mediania dos nossos governantes, reconforta-nos a ideia de que fora da política, na vida civil, existe um viveiro de talento, um repositório de excelência de onde poderemos recrutar reputados gestores, cientistas ou intelectuais de qualidade superior para virem dar uma mãozinha. À falta de habilidade dos habituais membros de governos, militantes cuja única profissão foi o partido, contrapõem-se as faculdades testadas nos ambientes competitivos e meritocráticos das empresas e da academia. É uma espécie de reserva moral de profissionalismo e a sua existência faz-nos sentir mais seguros. Dá-nos esperança.
Pois bem, isso acabou. Partimos o porquinho mealheiro mas não estava nada lá dentro. Pior que esta sensação de falsa segurança é a certeza da verdadeira insegurança. Que é o que temos agora: fomos buscar uma dessas pessoas muito boas e ela mostrou que é capaz de estragar tudo como o mais nepótico dos boys. Descobrimos que a nossa reserva moral de profissionalismo é uma espécie de Feiticeiro de Oz. São só pessoas normais que fazem uns truques visotsos.
Fernando Alexandre chegou ao Governo com fama de ser muito competente, elogiado por gente de todos os quadrantes ideológicos, dono de um currículo inatacável. No entanto, a forma atabalhoada como avançou para o processo de digitalização não pareceu nada excelente. Não fez testes suficientes para avaliar os procedimentos, os que fez foram ignorados, não previu salvaguardas para o caso de correr mal, não garantiu que quem ia implementar o novo sistema no terreno estava 100% a par. Se Fernando Alexandre fosse CEO de uma empresa e efectuasse uma mudança desta dimensão com este nível de amadorismo, o accionista não ia ficar satisfeito. Para se ter noção da gravidade, basta dizer que, mesmo com o nosso Código Laboral, era razão para despedimento com justa causa.
Num conjunto de declarações a fazer lembrar o voluntarismo de Pedro Nuno Santos quando anunciou o local do seu aeroporto fantasioso, Fernando Alexandre disse que em Portugal nunca se avança porque se quer sempre ter a certeza de estarem reunidas as condições ideais. Se estivermos à espera disso, nunca se faz nada. E, ao menos, ele fez alguma coisa. Nisto dou-lhe razão. A governação em Portugal padece deste imobilismo. Só que o oposto de “não fazer” não é “fazer mal”. Fernando Alexandre é como o condutor que enfaixa o carro num sobreiro a 250 km/h e depois diz: “Ao menos avancei, sr. Guarda! Não fiquei a atrapalhar o trânsito como esses molengas ali parados!” “Compreendo, Sr. Alexandre”, diz o GNR. “Mas, repare, eles estavam parados por causa do sinal STOP”. No mundo empresarial, chama-se ao que Fernando Alexandre fez “confundir empenho com desempenho”.
Há formas de se mudarem procedimentos em grande escala. Com método, com ensaios progressivamente mais completos, avaliações das várias etapas até haver segurança para se poder avançar para a totalidade. Não é à balda, com fezada. Até porque, se ouvisse os alunos a seu cargo, principalmente rapazes naquela idade estúpida entre os 13 e os 16, saberia que “fezadas” confundem-se facilmente com “fezes”.