Franco Baresi, o defesa que não corria atrás de adversários | MAISFUTEBOL
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Foi o alicerce de um dos maiores clubes da história do futebol, o capitão de um Milan que não dominava apenas Itália: dominava a Europa e o imaginário da nossa geração. Ele que era o homem que organizava, que antecipava, que nunca se perturbava. Jogou 20 anos no clube, quinze deles como capitão. Quando o Milan desceu à segunda divisão, Baresi era campeão do mundo e desceu também. Porque havia coisas que simplesmente não estavam à venda.
Foi o alicerce de um dos maiores clubes da história do futebol, o capitão de um Milan que não dominava apenas Itália: dominava a Europa e o imaginário da nossa geração. Ele que era o homem que organizava, que antecipava, que nunca se perturbava. Jogou 20 anos no clube, quinze deles como capitão. Quando o Milan desceu à segunda divisão, Baresi era campeão do mundo e desceu também. Porque havia coisas que simplesmente não estavam à venda.
- Sérgio Pereira
- @sergiolpereira
Franco Baresi jogou numa época especial para a minha geração: ali entre o fim da infância e o início da adolescência, quando as coisas valem pelo que são e pelo que a nossa imaginação acredita que elas devem ser.
Ora neste barómetro infantojuvenil, na defesa Baresi foi o número um.
Não era forte, não era alto e não era duro, mas tirando isso, era tudo. Era sobretudo rápido e muito, muito inteligente.
A imagem que me vem à cabeça, aliás, é estar a ver um avançado a isolar-se, qualquer um, para de repente aparecer Baresi, vindo de fora do plano televisivo, e limpar a jogada.
Baixinho, com o cabelo desgrenhado e a camisola sempre por fora dos calções, jogava como líbero, a posição mais italiana que existe. Ele era o último homem, o pensador solitário atrás da linha, o que vê o jogo inteiro como quem lê um mapa.
Era uma espécie de Beckenbauer dez anos depois - que também sabia tratar bem a bola e sair a jogar - mas mais baixo e menos alemão.
Havia, no entanto, algo surpreendente no seu jogo: não tinha pressa. Onde os outros desesperavam, ele antecipava. Por isso diziam que ele não corria atrás dos adversários: esperava por eles. Essa diferença - subtil, quase filosófica - resume vinte anos de futebol e uma carreira irrepetível: carregada de títulos e de amor.
Um amor que já não existe.
Mudou-se para Milão com o irmão, um tornou-se capitão do Milan e outro do Inter
Nasceu em Travagliato, uma vila lombarda onde não é habitual nascerem heróis. Perdeu a mãe aos 13 anos e o pai aos 16. Ele e o irmão mais velho, Giuseppe Baresi, ficaram só com o futebol.
Foi então que o treinador do pequeno clube onde jogavam os levou a fazer testes no Inter Milão. Giuseppe ficou, Franco Baresi não. Diziam que era demasiado pequeno.
Nem ele, nem o treinador desistiram. Enquanto o irmão jogava no Inter, Baresi foi fazer testes ao Milan. De início não foi fácil, os treinadores tinham dúvidas. Fez um, dois, três treinos, até que chegou a decisão: fica.
Baresi disse então que até tinha sido melhor que o Inter o tivesse recusado, assim podia jogar no clube do coração. Enfim, visto de fora parece conversa de jogador, uma frase que qualquer um diria. O tempo mostrou que não, que era mais do que isso.
Era honesta.
Mudou-se para Milão com o irmão, tornaram-se ambos defesas, ambos internacionais italianos e ambos capitães dos dois rivais da cidade.
Giuseppe fez uma carreira honesta no Inter, Franco fez outra coisa: fez-se sinónimo do próprio Milan, numa fusão de identidades tão completa que hoje é quase impossível separar o homem do escudo.
Um campeão do Mundo a jogar na segunda divisão
Estreou-se na equipa principal com 17 anos, na época seguinte foi campeão sendo titular absoluto e aos 20 anos foi convocado pelo selecionador italiano para o Euro-80.
Curiosamente nesse ano o Milan desceu à segunda divisão devido a um escândalo com resultados combinados. Baresi voltou do Europeu sem ter jogado, mas com apenas 20 anos e muitos clubes interessados. A todos disse que não: queria ficar e ajudar o Milan a subir à Série A.
Assim fez, de consciência tranquila e sem nada a esconder. O Milan foi campeão da Série B e subiu, mas para descer logo depois. Baresi continuou a ir à seleção, foi convocado para o Mundial 82, foi campeão do mundo e no regresso viveu o mesmo filme: muitos convites e a mesma resposta. Ele ficava.
A segunda divisão voltaria, então, a ter um internacional italiano, agora campeão do mundo, jovem e muito promissor. E porquê? Por amor ao clube. Por isso o Milan entregou-lhe a braçadeira, aos 22 anos, que Baresi nunca mais largou. Foram vinte anos na equipa principal e quinze anos como capitão.
Depois dos trevas da Série B... os anos de glória do grande Milan
O Milan voltou a ser campeão da Série B e pouco depois chegou Silvio Berlusconi. Tão polémico quanto louco, Berlusconi foi à segunda divisão buscar um desconhecido chamado Arrigo Sacchi, que nunca tinha jogado e só treinara em divisões inferiores. Itália riu-se às gargalhadas e questionava como podia o Milan apostar num treinador que nunca tinha sido jogador. Arrigo Sacchi respondeu então com uma frase que ficou para a história.
«Não sabia que para ser jockey era necessário ter sido cavalo antes.»
Certo é que o treinador reinventou o Milan e inovou o futebol. Terminou com o líbero clássico, para implantar uma defesa a quatro em linha, a jogar alta e com marcações à zona.
Uma revolução no futebol italiano daquela época, que podia colocar em causa Baresi, o libero por excelência. Mas não colocou. Pelo contrário. Baresi adaptou-se, tornou-se o ponto de referência da linha a quatro e reinventou a capacidade de jogar com a linha de fora de jogo.
Entretanto o Milan tornou-se uma superpotência no fim dos anos 80 e início dos anos 90. Primeiro com Arrigo Sacchi, depois com Fabio Cappelo, o clube tornou-se uma espécie de Barcelona de Guardiola: em seis anos jogou quatro vezes a final da Liga dos Campeões e ganhou três delas. Ganhou três Supertaças Europeias e foi cinco vezes campeão italiano.
Era o Milan das grandes equipas, primeiro com a armada neerlandesa (Van Basten, Rijkaard e Gullit), depois com as armadas de França (Desailly e Jean-Pierre Papin) e da ex-Jugoslávia (Boban e Savicevic), mais o liberiano George Weah, o dinamarquês Laudrup e os italianos, claro: Baresi, Costacurta, Maldini, Ancelotti, Albertini, Donadoni, Tassotti, enfim.
Uma imagem que ficou para a história, num momento de infelicidade
Do início ao fim desta odisseia, houve apenas dois nomes que estiveram em todas as equipas: Baresi e Paolo Maldini. Mas só um deles foi do fundo do poço da Série B aos anos de glória do grande Milan: uma lealdade que já não existe no futebol.
Viveu o pior momento provavelmente na final do Campeonato do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, quando anulou Romário durante 120 minutos e depois falhou o primeiro penálti da decisão. Caiu de joelhos no chão e chorou. Depois dele Roberto Baggio também haveria de falhar e o Brasil foi campeão.
Aquela imagem em Pasadena, de Baresi de joelhos, com a cara escondida entre as mãos, ficou para a história, mas não conta tudo. Aliás, não conta nada. Foi apenas um momento de infelicidade.
Baresi foi o defesa que não correu atrás da bola e também não correu atrás da fama. As duas vieram, de qualquer forma, encontrá-lo. Retirou-se com mais de 700 jogos pelo Milan e um jogo de despedida em que estiveram todas as grandes estrelas do futebol.
San Siro encheu-se com mais de 70 mil pessoas para aplaudir Il Capitano e o número 6 foi retirado para sempre: ficou suspenso alguns entre o teto e a memória. De onde nunca sairá.
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