Fundo moçambicano de garantias já cobriu financiamento a 630 empresas
Em entrevista à Lusa, em Maputo, a presidente da Sociedade de Garantias de Moçambique, Beatriz Freitas, explicou que o fundo foi criado para facilitar o acesso ao crédito por parte das MPME, num contexto marcado por um sistema financeiro que classificou como "muito particular".
"Nós só estamos no mercado há cerca de um ano e já estamos a ver frutos deste crescimento. Estamos já com mais de 630 empresas apoiadas pela garantia. O que significa que a economia moçambicana tem 630 empresas que já conseguiram aceder ao financiamento porque tiveram acesso a esta garantia. E isso vai permitir que elas consigam crescer, criar emprego e trazer maior crescimento para a economia moçambicana", afirmou.
O Fundo de Garantias Mútuas está operacional desde o ano passado e trabalha atualmente com os moçambicanos Banco Comercial de Investimentos (BCI), o Standard Bank e o Absa Bank. É financiado pelo Banco Mundial com uma dotação de 120 milhões de dólares (104,9 milhões de euros) e pretende apoiar o financiamento de 15 mil empresas nacionais, contribuindo para a criação de mais de 20 mil postos de trabalho.
Beatriz Freitas, que se tornou a primeira mulher e primeira portuguesa a dirigir o fundo, recordou que a iniciativa foi lançada oficialmente em agosto de 2025 pelo Presidente moçambicano, Daniel Chapo, que então defendeu que o mecanismo deveria ajudar a transformar "sonhos em negócios" e "ideias em empregos", sobretudo para os jovens e as mulheres.
Pelo menos 40% das empresas já beneficiadas são lideradas por mulheres, uma das prioridades do fundo, destacou Freitas. Segundo explicou, o Governo moçambicano identificou a falta de garantias como um dos principais obstáculos ao acesso ao crédito, levando os bancos comerciais a hesitarem no financiamento de pequenos negócios.
"O fundo pretende que as empresas moçambicanas, principalmente as micro, pequenas e médias empresas, consigam, com o acesso ao financiamento, crescer de uma forma sustentável. O grande objetivo é sempre o crescimento económico do país. E, por trás disso, têm que estar empresas que sejam sustentáveis, que tenham melhores condições para trabalhar e que criem mais emprego", afirmou.
A responsável explicou que o mecanismo reduz o risco associado às operações de crédito junto da banca comercial.
"O fundo ajuda com as garantias e a fazer com que as empresas sejam vistas como empresas com menos risco. Porque os bancos muitas vezes não financiam as empresas não porque elas não sejam viáveis ou não tenham projetos viáveis, mas porque não têm histórico de crédito, não apresentam demonstrações financeiras robustas ou têm modelos de gestão ainda pouco consolidados", acrescentou.
Segundo Freitas, o principal problema enfrentado pelas pequenas empresas continua a ser a ausência de garantias reais exigidas pelos bancos para a concessão de crédito, lacuna que o fundo procura agora colmatar.
Além dos projetos liderados por mulheres, o fundo privilegia iniciativas ligadas às energias renováveis, conservação ambiental, turismo, comércio e agricultura, setor que, segundo a gestora, apresenta menores níveis de risco e tende a exigir menos cobertura de garantia.
Freitas admitiu igualmente que a reduzida literacia financeira constitui outro entrave ao acesso ao crédito bancário. Para responder a esse desafio, a Sociedade de Garantias de Moçambique está a trabalhar com microbancos e outras instituições financeiras locais na capacitação de pequenas e médias empresas.
Essas instituições são também fundamentais para expandir a atuação do fundo para fora de Maputo, onde ainda se concentra a maior parte das operações apoiadas. A Sociedade de Garantias procura atualmente dar-se a conhecer em todo o país através de ações de divulgação realizadas em parceria com a banca comercial.
"Já fomos a todas as províncias do norte e tentamos sempre falar não só com empresários, através das organizações empresariais locais, mas também com os bancos, porque isto é um mecanismo novo. Não existia e nunca existiu aqui em Moçambique. Portanto, não só as empresas têm de perceber como funciona, mas também os bancos têm de perceber para o colocarem no mercado", explicou.
O projeto prevê apoiar cerca de 15 mil micro, pequenas e médias empresas ao longo dos próximos sete anos.
"Mas isso é ao longo de sete anos. Eu acho que os resultados que alcançámos, tendo em conta que começámos há um ano, são positivos. Primeiro assinámos três contratos e depois houve uma fase importante de implementação dos processos junto dos nossos parceiros. O que vimos nos últimos três meses foi um crescimento muito rápido do número de operações de crédito com garantia", concluiu.
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