Fúria (Disney): autora de Morrendo por Sexo acerta de novo - 13/08/2026 - Luciana Coelho - Folha
É de se perguntar por que não estão todos falando sobre a série "Fúria", que estreou no fim de julho na Disney+ e já tem 5 de seus 8 episódios no ar. Foi criada por Elizabeth Meriwether, que escreveu a magnífica "Morrendo por Sexo", e isso já seria motivo suficiente para assistir. Mas há bem mais.
O policial barra-pesada salpicado com alguns momentos de humor negro trata de uma serial killer que mira homens com alguma proeminência e sem conexão aparente. Há uma lógica por trás, e é claro que aparecerá uma investigadora obsessiva para ligar os pontos e antagonizar com a assassina.
Apesar de alguns toques originais —uma criminosa em série mulher, o que não costuma ser comum nem na vida real, nem na ficção; o perfil da investigadora muito longe do heroísmo—, o enredo poderia se confundir entre os tantos do tipo se não fosse a sensibilidade com que Meriwether escreve seus personagens e conduz suas cenas.
Para começar, não há alguém presente em mais de três cenas por episódio que não exiba complexidade.
A assassina Catherine, vivida pela norte-irlandesa Lola Petticrew, é vulnerável e ardilosa, e seus critérios para decidir quem morre e quem vive mereciam ser dissecados em aulas de ética. A investigadora Alice, na pele e nos olhos gigantes de Emmy Rossum ("O Fantasma da Ópera"), é um poço de traumas e raiva, tão movida por sua determinação quanto por seus fantasmas.
As duas personagens concentram a tensão da série, e ainda assim, no roteiro de Meriwether, os coadjuvantes sobrevêm sem timidez.
Egressa da polícia e alçada ao centro da investigação da serial killer, a agente Alice, do FBI, atua com o policial Danny (Scoot McNairy), seu amigo cheio de sentimentos mal resolvidos e pai de um garoto neurodivergente; responde a Nora (Quincy Tyler Bernstine), a chefe veterana consumida pelo alcoolismo e o recalque; e coopera com Marshall (Jake Lacy, pela segunda vez no ano interpretando um abusador), o ex que a espancou.
As atuações de McNairy e Bernstine são intensas sem histrionice, e o mesmo vale para Steve Way, como o rapaz com distrofia muscular que contrata Catherine para ser sua enfermeira. Way, que tem a deficiência e se destacou na série "Ramy", maneja com precisão o timing cômico. Hope Davis e Campbell Scott fazem papéis menores com a destreza habitual.
A série aborda tráfico humano, exploração sexual, dependência química, misoginia, corrupção, violência doméstica, solidão e fetiches, mas nada parece forçado nem é tratado de forma superficial. A autora arremata esses elementos com um registro dramático tenso, distinto do drama otimista sobre o fim da vida visto em "Morrendo por Sexo".
É outra mudança para quem escreveu "The Dropout", true crime sobre a estelionatária que prometia um exame de sangue milagroso, e "New Girl", comédia romântica levinha que durou sete anos —a cinebiografia de Britney Spears virá em breve.
O que une essas criações de gêneros tão díspares é um olhar muito sensível e muito feminista sobre cada uma das tramas, sem apelos piegas, sem sermões ou panfletos. E, para quem não estiver interessado nesse tipo de credencial, resta o trunfo de Meriwether ser eficiente em instigar o espectador, mantendo-o ansioso pelo próximo episódio.
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