Garrett e as Folhas Caídas ou Bashô no Campo Grande
Assistir à manifestação visível de um poema japonês, escrito há dois séculos e meio, pode libertar no cérebro uma alegria tão súbita quanto as primeiras cigarras do Verão. Não se trata apenas das endorfinas — essa medicina secreta do corpo, que a música, o amor ou um sonho de inesperada felicidade sabem também convocar. Trata-se de outra coisa: de um instante em que aquilo que parecia disperso — uma cor, uma folha, um movimento de ar, uma recordação — se reúne diante de nós e adquire a maturidade do símbolo.
Então, por breves segundos, o mundo deixa de ser absurdo. Não porque tenha sido explicado, mas porque se torna legível. Uma ordem sem tirania, uma promessa sem palavra, uma espécie de concórdia entre o que vemos e aquilo que, sem saber, esperávamos ver. A beleza talvez seja precisamente isto: não a supressão da inquietação, mas a sua súbita reconciliação com a forma.
O haiku dizia mais ou menos assim:
De todas as folhas caídas,
apenas uma tenta regressar ao seu lugar:
a borboleta.
Quando o li pela primeira vez, tentei imaginar o século de Bashô: as sandálias de palha, as cerimónias do Shinto, os espelhos e as espadas, a simplicidade grave das casas de madeira, o ikebana natural das ilhas japonesas nos crepúsculos de estio. Mas não conseguia ainda ver o voo daquela criatura subtil. O poema, composto de uma brevidade luminosa, parecia-me exótico, inteligente, quase perfeito — e, por isso mesmo, distante.
Mais tarde, porém, compreendi que a folha que caía e a borboleta que voava eram da mesma cor. De outro modo, não teria sido tão nítida a percepção do poeta, nem tão exacta a ilusão. O que o haiku captara não fora um engano dos sentidos, mas uma cumplicidade entre as coisas: por um brevíssimo instante, a queda e o voo tinham decidido usar as mesmas vestes. A borboleta parecia querer regressar ao ramo; a folha parecia experimentar, antes do chão, um último gesto de liberdade.
Durante muito tempo, o poema permaneceu na minha memória como um episódio estético, remoto e íntegro, como uma pequena jóia guardada numa caixa de laca. Até que, há poucos dias, à sombra de uma tília antiga, dourada pelo calor recente e já disposta a desprender algumas folhas, assisti à cena: uma das folhas era, de facto, uma borboleta.
Era uma borboleta-de-Cleópatra, (Gonepteryx cleopatra), de amarelo-limão pálido, com nervuras finas nas asas, tão semelhantes às linhas de uma folha que o olhar vacilava entre o vegetal e o animal, entre a matéria que cai e a vida que sobe. Surpreendida pelo movimento das folhas, pousara no cascalho com as asas dobradas. Depois levantou voo. E, nesse voo breve, levou-me consigo.
Não houve revelação no sentido grandioso da palavra. Nenhum céu se abriu, nenhuma voz pronunciou o nome das coisas. Apenas aquela pequena criatura, confundida com uma folha, ascendeu de novo para um ramo coberto de verde. Mas a sucessão das imagens arrancou-me a mim próprio e transportou-me para a cena homóloga que um poeta japonês testemunhara muitos séculos antes. O tempo tornou-se ridículo. A História, com as suas distâncias e catástrofes, pareceu por instantes intranscendente. Entre Bashô, a borboleta, a tília e o meu espanto estabelecera-se uma correspondência que nenhuma cronologia poderia desfazer.
É talvez isto que a beleza redime: não o mal do mundo, que impõe, atro, o seu esgar aos dias; não a morte, que continua a visitar as casas; não a perda, que continua a escurecer os nomes que amámos. A beleza não apaga as feridas, nem nos concede uma inocência que já não possuímos. Redime-nos de outra maneira, mais discreta e mais verdadeira: impede que a realidade se reduza à sua evidência dolorosa. Mostra-nos que, mesmo no interior do perecível, há relações secretas; que uma folha pode recordar uma asa; que um homem separado de um poeta por séculos pode participar na mesma alegria; que a matéria, quando tocada pela atenção, deixa de ser muda.
A beleza não é uma fuga do mundo. É, pelo contrário, a sua mais intensa aproximação. Não nos arranca àquilo que existe, mas restitui-nos a ele. Faz-nos regressar à árvore, ao pó, ao rosto de alguém, à luz sobre uma mesa, ao rumor distante de uma água. E, devolvendo-nos às coisas, devolve-nos também uns aos outros. Porque ninguém contempla verdadeiramente algo belo sem desejar, ainda que em silêncio, partilhá-lo. A beleza é solitária no seu impacto, mas comunitária no seu destino: pede testemunhas, procura vozes, deseja passar de um olhar para outro como uma chama que não se consome.
Talvez por isso ela estabeleça o vínculo mais profundo entre nós, o mundo e a transcendência. Não porque transforme o mundo numa alegoria transparente de Deus, nem porque nos dispense da obscuridade, mas porque nele abre uma fenda de gratuidade. Aquilo que é belo parece exceder a sua utilidade. A borboleta não precisava de se confundir com a folha; a folha não precisava de parecer dotada de asas; o poeta não precisava de fixar em palavras aquele momento. E, no entanto, tudo aconteceu. Essa sobra de sentido, esse excesso sem função, essa luz que não serve para nada e, ainda assim, nos sustenta, é talvez o lugar por onde a transcendência se deixa pressentir.
Pascal chamar-lhe-ia sobrenatureza; Wilde perguntar-se-ia se é a natureza que imita a arte ou se é a arte que, ensinando-nos a ver, cria uma segunda natureza. A pergunta continua bela porque não pede uma resposta definitiva. Talvez a natureza não imite a arte, nem a arte a natureza. Talvez ambas se encontrem nesse lugar interior onde o olhar, educado pela memória e pela imaginação, reconhece na realidade uma possibilidade que ela sempre conteve.
A ciência poderá explicar-nos a anatomia da borboleta, a pigmentação das suas asas, a queda das folhas, a direcção do vento, os mecanismos neurológicos do prazer. E é bom que o faça. Mas, como dizia Goethe a propósito da maçã de Newton, explicar por que razão ela cai não é explicar como chegou ao ramo. Entre a lei e a aparição permanece uma reserva de espanto. É aí que a poesia começa.
Esse orgulho da poesia não é pecaminoso. É apenas a alegria de reconhecer que o humano não vive unicamente de necessidades, cálculos e sobrevivência. Vive também destas pequenas sincronias, destas correspondências inesperadas entre o fora e o dentro, entre a lembrança e a presença, entre uma coisa humilde e uma promessa maior do que ela. A beleza é, nesse sentido, uma forma de misericórdia do real: não nos salva do tempo, mas faz-nos sentir que o tempo, por vezes, se ilumina por dentro.
Uma borboleta sobe de uma folha caída. Um poeta vê-a. Outro homem, muito tempo depois, volta a vê-la. E, nesse breve intervalo entre o chão e o ramo, entre a fragilidade e o voo, talvez se conserve a razão por que ainda vale a pena olhar.