Trabalhadores da Radio France em greve por contratação de comentador de extrema-direita
Os funcionários da emissora de rádio pública francesa, Radio France, começaram este domingo uma greve de dois dias devido à nomeação de um comentador que os sindicatos acusam de promover ideias de extrema-direita na véspera das eleições presidenciais em França na próxima primavera.
A 26 de agosto, a redação da France Inter (a principal frequência do grupo público Radio France) “descobriu” que o segmento semanal de comentário político ao domingo de manhã tinha sido confiado ao diretor-adjunto do semanário de extrema-direita Valeurs actuelles, Charles Sapin, escreve o jornal Le Monde.
Os trabalhadores manifestaram a sua oposição à contratação, argumentando que os valores editoriais da Valeurs Actuelles estão em contradição com a missão de serviço público da Radio France. O pré-aviso de greve apresentado por vários sindicatos de trabalhadores na última semana recorda que o semanário foi “várias vezes condenado por racismo e incitação ao ódio”, que é detido, em parte, pelo bilionário ultraconservador Pierre-Edouard Stérin, e que “não é compatível com os valores humanistas, democráticos e republicanos que as nossas rádios de serviço público têm por missão defender”.
Já a direção da Radio France argumenta com a questão do pluralismo, justificando que procurou “um contraponto” a Camille Vigogne Le Coat, jornalista do Nouvel Obs — semanário classificado como de esquerda — a quem está confiado o editorial de sábado de manhã.
Devido à greve, a coluna semanal de Sapin, cuja transmissão estava prevista para o início deste domingo, não foi transmitida. Outros segmentos do programa matinal da France Inter também foram retirados do ar e substituídos por música.
Num artigo de opinião publicado no diário Le Parisien este sábado, cerca de 300 personalidades públicas, incluindo cineastas, escritores e advogados, descreveram a contratação de Sapin pela France Inter como “ultrajante“, exigindo o fim da rubrica.
“O pluralismo deve funcionar no âmbito dos valores republicanos e não deve ser confundido com complacência perante ideias que representam uma ameaça à democracia e ao respeito pelos direitos fundamentais”, afirmaram. Entre os signatários encontravam-se figuras de esquerda, nomeadamente a atriz Julie Gayet, mulher do ex-presidente François Hollande, e a escritora Annie Ernaux, vencedora do Prémio Nobel.
As eleições para escolher o sucessor do presidente francês Emmanuel Macron estão previstas para abril e maio do próximo ano. As sondagens sugerem que a líder da extrema-direita, Marine Le Pen, tem agora a sua melhor oportunidade de sempre para conquistar o Palácio do Eliseu.