Guerras de preços reforçam domínio da China nas tecnologias verdes
O Instituto Mercator de Estudos sobre a China indicou que a concorrência excessiva entre empresas chinesas de tecnologias verdes está a provocar prejuízos mas também a reforçar o domínio mundial chinês, aumentando a pressão sobre a indústria europeia.
Num relatório publicado na sexta-feira, o Instituto Mercator de Estudos sobre a China (MERICS) analisa as consequências das guerras de preços nos setores dos painéis solares, veículos elétricos e turbinas eólicas, que beneficiaram durante anos de forte apoio estatal.
Em 2025, as empresas chinesas forneceram pelo menos três quartos dos painéis solares, turbinas eólicas e veículos elétricos vendidos em todo o mundo, enquanto a China representou pelo menos 57% da procura mundial destes produtos, segundo o 'think tank' com sede em Berlim.
Os investigadores identificaram um paradoxo: apesar do sucesso internacional, muitas das empresas chinesas enfrentam margens de lucro reduzidas ou acumulam prejuízos, devido à concorrência intensa e ao excesso de capacidade de produção.
Na China, este fenómeno é conhecido como "involução", um termo utilizado para descrever uma competição em que as empresas investem cada vez mais recursos para preservar ou conquistar quotas de mercado, sem obterem benefícios proporcionais.
"Trata-se de uma corrida para o fundo, na qual todos os participantes de um sistema trabalham mais e gastam mais recursos, mas sem obterem maiores ganhos", lê-se no relatório, intitulado Survival of the fiercest: How involution helps China dominate green tech globally.
Segundo o MERICS, esta dinâmica tornou-se parte integrante da estratégia industrial chinesa, uma vez que a pressão sobre os preços reforça a competitividade das empresas nacionais face aos concorrentes estrangeiros.
"Isso significa que o domínio da China nas tecnologias verdes está a tornar-se ainda mais forte", apontaram os investigadores.
O setor solar é o mais afetado. Em 2025, as principais empresas chinesas registaram perdas equivalentes a 10,75% das receitas, apesar do crescimento da procura interna e internacional.
Entre 2022 e 2025, os preços dos produtos solares caíram mais de 50%, enquanto mais de 150 empresas do setor entraram em processos de falência ou liquidação desde 2024.
A dimensão do excesso de capacidade é particularmente significativa: em 2025, a China poderia ter satisfeito toda a procura mundial de painéis solares mantendo inativa cerca de 40% da sua capacidade de produção.
Nos automóveis elétricos, a guerra de preços intensificou-se em 2023, após o fim dos subsídios à compra, levando os fabricantes a reduzirem os preços para conquistar clientes.
Embora grandes grupos como a BYD tenham conseguido preservar margens de lucro consideradas saudáveis, a maioria dos pequenos fabricantes ainda não conseguiu atingir a rentabilidade.
O número de empresas neste segmento terá diminuído de cerca de 500, em 2018, para aproximadamente 100, em 2025.
A indústria eólica apresenta uma situação diferente. Os 12 principais fabricantes chineses, responsáveis por 99% do mercado interno, comprometeram-se, em outubro de 2024, a deixar de vender abaixo do custo de produção.
O acordo contribuiu para a recuperação dos preços e para travar a deterioração da rentabilidade.
O MERICS considerou que a concorrência excessiva no mercado chinês está a acelerar a expansão internacional das empresas, que procuram margens de lucro superiores.
Em alguns casos, o mesmo modelo de automóvel elétrico pode ser vendido na Europa por um preço até duas vezes superior ao praticado na China, segundo o relatório.
A Europa tornou-se o principal destino das exportações chinesas de tecnologias verdes, ultrapassando a Ásia em 2021.
Atualmente, os produtos chineses são entre 30% e 50% mais baratos do que os equivalentes europeus de qualidade comparável, dependendo da tecnologia.
"Para muitas empresas estrangeiras, a única estratégia viável parece ser transferir uma parte maior da sua produção para a China, para beneficiarem das mesmas vantagens de custos que os concorrentes", referiu o estudo.
Esta tendência coloca em causa as ambições industriais europeias, incluindo os objetivos da legislação comunitária destinada a reforçar a produção de tecnologias com emissões líquidas nulas.
Apesar de o Governo chinês ter elevado o combate à chamada "involução" a prioridade política, o MERICS considerou que as medidas adotadas até agora não resolvem as causas estruturais do problema.
Segundo o estudo, as autoridades locais continuam a ter incentivos para apoiar empresas estratégicas, mesmo quando estas acumulam prejuízos, uma vez que contribuem para o crescimento económico, o emprego e as receitas fiscais.
"Enquanto a concorrência implacável ajudar as empresas chinesas a conquistar quotas de mercado mundiais e a assegurar a posição da China no centro de indústrias fundamentais, Pequim continuará a considerar esta abordagem política um sucesso global", lê-se no relatório.
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