Há 25 anos foi ontem

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No final de Fevereiro de 2001 fiz a minha primeira viagem de avião. Tinha 23 anos. Para a classe média não era assim tão incomum chegar aos vintes sem nunca ter andado de avião. É curioso porque na altura não me custou nada. Todas as horas passadas lá em cima foram sem sobressalto. Gostava de ter ficado com a sensação desse tempo, a de voar sempre sem preocupação.

A primeira viagem de avião foram duas. Primeiro, uma escala na Alemanha (Frankfurt, acho). Creio que não chegou a três horas e a aterragem foi perfeita: calma, progressiva, solar, suave e serena. Só depois voámos para o destino final: Nova Iorque. Terão sido cerca de oito horas despreocupadas. Lembro-me de que aí a aterragem foi menos calma mas igualmente tranquila. Acho que era já da impressão que aquela grande cidade provocava connosco ainda no céu.

Sempre que falo com americanos que estão em Portugal digo-lhes que eles já cá chegaram antes ainda de pisarem o chão do nosso país. Nenhum americano viaja quando viaja porque a América já chegou ao mundo inteiro. O americano até pode ser turista mas para quem o recebe ele já é conhecido. O resto do mundo já foi todo americanizado e, nessa medida e estragando um pouco a frase do George Steiner, já não há chegadas para o americano.

O americano quando viaja pelo mundo julga que alguém o pode receber. Mas ninguém pode receber o que já tem. É por isso que a chegada dos americanos a qualquer lugar do mundo está sempre condenada. O americano viaja como Caim, sem poder ser aceite em lugar nenhum. É engraçado o esforço que um americano faz para se adaptar a um lugar novo mas ele será sempre um inadaptado porque quem está em todo o lado não está em lado nenhum.

É igualmente interessante o que acontece quando é alguém não-americano a chegar à América. Por um lado, a pessoa chega mas não chega a um lugar novo porque a América já existe dentro de nós desde sempre. E não dá para comparar chegar à América com chegar a Paris, ao Egipto ou ao Brasil. É verdade que todos estes lugares também existem na nossa cabeça antes de lá irmos mas eles não moldaram os nossos sonhos como a América.

A primeira vez que cheguei a Nova Iorque eu não cheguei a uma cidade que desconhecia. Pelo contrário, cheguei à cidade dos meus sonhos. Foi estranho e encantador. Primeiro, vimo-la à distância do lado de New Jersey. Logo aí o impacto foi especial: já estava perto mas ainda não estava lá. No dia seguinte, quando finalmente pisámos a City, entrámos por baixo e por dentro: saímos na estação de metro do World Trade Center.

As Twin Towers foram o primeiro lugar de Nova Iorque que conhecemos. Era eu, a minha namorada Ana Rute, a minha mãe Eunice e o meu primo Timóteo. Ainda antes de subirmos ao último piso (o terraço estava fechado), saímos à rua e olhámos para cima: era uma autêntica auto-estrada para o céu, as torres vistas de baixo. Os cheiros adocicados dos Estados Unidos, o ruído das ruas projectado infinitamente para cima à custa dos arranha-céus, a cidade-canavial de betão: coisa única.

Foi uma semana sem parar. Vimos as paragens típicas dos turistas, claro, mas sobretudo caminhámos. Caminhámos muito e saímos de Nova Iorque ainda mais apaixonados por ela. A cidade não destronou no meu coração Lisboa, mas ficou para sempre a segunda. Já lá regressei outras vezes e sei reconhecer melhorias e pioras. Mas o amor é isso mesmo, é encarar aquilo que amamos. I love New York.

O 11 de Setembro aconteceu meio ano depois dessa primeira visita. Estava a almoçar num chinês de Queluz com os meus amigos Miguel Sousa e Tiago Branco quando a minha mãe me ligou a dizer que uma das torres estava a arder. “Olha, agora começou a outra também”. Mas o almoço estava tão divertido que me distraí. Quando a seguir passo pela casa do Miguel e ligamos a televisão por curiosidade perdemos o pio. Assistimos a uma torre a desabar e depois a outra.

Toda a gente se lembra de onde estava no 11 de Setembro. Foi há 25 anos mas foi ontem precisamente porque essa memória é imperdível. Quando temos memória, temos presente. Quando recordamos, foi agora. No 11 de Setembro eu estava apaixonado por Nova Iorque e falava a todos desse amor. Vi-a sofrer e sofri eu à distância. Um ano depois, em 2002, pouco depois da nossa lua-de-mel, estávamos de volta. A cidade estava ferida mas estava viva. Vinte e cinco anos depois, o nosso amor também.