IA: Qualquer futuro só tem interesse se for humano

🗓️ 2026-07-30 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

Não vamos de férias, muitos de nós, para desligar o telemóvel. Isso dura pouco. Vamos, ou devemos ir, para pensar no que estamos a fazer ao homem.

Leão XIV publicou a Magnifica Humanitas. Uma encíclica sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. Não é um texto contra a tecnologia. É um aviso contra a desistência humana.

A ideia central, digo eu, parece clara. A máquina calcula. O homem vive. A máquina trata dados. O homem sofre, ama, erra, perdoa, assume responsabilidades e distingue o bem do mal. A IA pode simular empatia. Não sente nada. Pode produzir respostas. Não responde pelas consequências.

Estamos a entregar às máquinas a memória, a escrita, a decisão e, pouco a pouco, o próprio pensamento. Chamamos eficiência ao que muitas vezes é dependência. Chamamos progresso ao que pode ser apenas abdicação.

A universidade deveria ser o lugar onde isto se discute. Mas grande parte dela continua ocupada a preservar cursos, departamentos, carreiras, modelos de avaliação e rituais de publicação.

A IA avançou. A universidade reuniu, à sua bela maneira, em comissão. E há comissões e conselhos de tudo e para tudo.

Leão XIV diz que os programas de estudo concebidos para outra época se tornam rapidamente inadequados. Diz que os espaços, os métodos de avaliação e a própria figura do professor têm de ser repensados. Exige formação contínua dos docentes. Pede um uso responsável, crítico e criativo da tecnologia. Não uma submissão passiva.

É precisamente aqui que a universidade tem de agir.

Tem de ensinar a usar IA. Mas também a recusá-la quando deve ser recusada. Tem de ensinar a formular perguntas. A verificar. A relacionar saberes. A procurar a verdade. A decidir com consciência. A assumir autoria, autonomia e responsabilidade.

Na investigação, não pode transformar a IA numa máquina de fabricar artigos. Mais texto não significa mais ciência. Mais citações não significam mais conhecimento. A produtividade sem verdade é apenas produção. Em massa.

Na formação de executivos, a exigência é ainda maior. Quem decide sobre pessoas, investimentos, dados e organizações não precisa apenas de dominar ferramentas. Precisa de compreender limites. Impactos. Poder. Justiça. Liberdade.

A encíclica pede que a tecnologia permaneça ao serviço da pessoa. Lembra que mais poder não significa necessariamente melhor poder. E atribui à universidade a tarefa de integrar saberes, interpretar a complexidade e averiguar os factos.

Durante as férias, talvez devamos ler a encíclica. Sem pressa. E fazer uma pergunta incómoda. Estamos a usar a inteligência artificial para desenvolver o homem? E outra: Estamos a treinar o homem para deixar de o ser?

A universidade não pode impedir a revolução tecnológica. Nem deve.

Mas tem uma última missão que nenhuma plataforma pode assumir: preservar a pessoa como fim. Nunca como dado. Nunca como produto. Nunca como peça substituível.

Não sabemos se a universidade sobrevive à IA. Com muita mudança, talvez. O que ainda não sabemos é se o homem sobreviverá à forma como a estamos a usar. Aos que vão de férias, umas boas férias.