Hormuz volta a travar petróleo e pressiona a economia - 21/08/2026 - Mundo - Folha

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Euro Radar

Uma newsletter sobre geopolítica e economia global, editada pelo jornalista João Caminoto, de Paris

O hemisfério norte se aproxima do fim das férias de verão sem saber quanto petróleo atravessa o estreito de Hormuz. Boa parte dos navios que ainda cruzam a passagem —por onde escoava um quinto do petróleo mundial antes da guerra— desliga os transponders, aparelhos que transmitem identificação e posição, para não virar alvo. O rastreamento virou exercício de estimativa sobre imagens de satélite.

Há dois meses o quadro parecia resolvido. O memorando assinado por americanos e iranianos em junho previa a retomada gradual da navegação. O mercado tratou o problema como encerrado e o barril chegou a cair abaixo de US$ 70 no início de julho.

O acordo desmoronou em semanas, depois que o Irã voltou a atacar navios e Washington restabeleceu o bloqueio aos portos iranianos, e o prazo de 60 dias para negociar um substituto venceu na segunda-feira (17) sem nada no lugar.

Na terça, Donald Trump publicou em sua rede social a imagem de um mapa com o estreito circulado e a legenda "novo território dos Estados Unidos", e horas depois negou que houvesse conversas em curso com Teerã, afirmando que a passagem está aberta e as minas, removidas.

O Irã chamou o mapa de delírio, e o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, listou o preço da reabertura: fim do bloqueio naval, liberação de ativos congelados, suspensão das sanções ao petróleo e fim das operações militares em todas as frentes. Omã tenta mediar sob ameaça de bombardeio do próprio Trump, caso atrapalhe.

Fontes respeitadas não confirmam a versão americana. A Administração de Informação sobre Energia (EIA), braço estatístico do Departamento de Energia dos Estados Unidos, calcula que o fluxo pelo estreito caiu para menos de um quarto do nível anterior à guerra. Ela trabalha com a hipótese de que os embarques sigam severamente restritos ao longo de agosto e não espera que a produção e as rotas de comércio voltem ao padrão pré-conflito antes do início de 2027. Enquanto isso, os estoques mundiais continuam sendo consumidos.

Na segunda-feira, Trump afirmou que os preços do petróleo estavam caindo; na manhã seguinte, o Brent passava de US$ 91, o maior valor desde julho.

Petróleo caro é, antes de tudo, um problema inflacionário, e por isso a guerra reaparece na conta de juros de países que nada têm a ver com o Golfo. No Brasil, o Boletim Focus, a pesquisa semanal do Banco Central com o mercado, projeta a Selic em 13,75% no fim do ano, com a inflação em torno de 5%, acima do teto da meta. Nem tudo é petróleo —o quadro fiscal pesa cada vez mais—, mas a aposta em juros bem menores foi engavetada.

Na Europa, o problema aparece com mais nitidez no gás do que no petróleo. Os carregamentos do Qatar estão retidos, os estoques do continente são repostos abaixo do ritmo necessário e cada carga disponível é disputada com compradores asiáticos, com o preço de referência perto do dobro do de um ano atrás.

A geografia da escalada também muda diariamente. O Financial Times informou nesta quarta-feira que comandantes iranianos avaliaram atacar instalações americanas no sudeste europeu, entre elas a Bulgária, que autorizou no mês passado o uso de uma base aérea por aviões de reabastecimento dos Estados Unidos.

Aniseh Bassiri Tabrizi, pesquisadora do Chatham House, argumenta em artigo recente que a guerra falhou nas apostas que a justificaram: o regime não caiu, a capacidade militar iraniana não foi destruída e Teerã não capitulou. O que o Irã faz desde então não é buscar vitória militar, e sim impor desgaste. Atacar os petroleiros que cruzam o estreito, os terminais e portos dos vizinhos do Golfo e as bases americanas na região custa pouco em armamento e cobra caro do adversário em economia e política.

Foi por essa lógica que o controle de Hormuz entrou na lista de interesses que o regime considera inegociáveis. Se Washington seguir partindo de premissas já desmentidas, adverte ela, corre o risco de combater "um regime iraniano que existe mais em suas expectativas do que na realidade".

Frase da Semana

Gosto da ideia de declarar o estreito um território


Fora de controle, e se espalhando

A epidemia de ebola no leste da República Democrática do Congo tornou-se a mais mortal da história do país. O boletim do Instituto Nacional de Saúde Pública divulgado no início da semana registra 4.945 casos confirmados e 2.325 mortes, acima das 2.299 do registrado em 2018-2020.

O surto atual foi declarado em 15 de maio, com semanas de atraso, em regiões onde a presença do Estado é frágil e a rede de saúde, precária. A letalidade chega a 46%, e não há vacina nem tratamento aprovados contra a cepa Bundibugyo.

Jean-Jacques Muyembe, virologista congolês que descobriu o vírus em 1976, disse ao Le Monde que a doença avança a "uma velocidade que nunca havíamos observado". Ele atribui parte da falha na resposta ao desmantelamento da Usaid, a agência americana de desenvolvimento, no início de 2025, que enfraqueceu a vigilância epidemiológica no país.

Nesta terça (18), o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que a epidemia está "longe de estar sob controle" e que o risco de disseminação internacional segue alto.

O tema deveria gerar mais atenção da comunidade internacional.


No Radar

O que monitorar até a próxima quarta-feira (26)

  • Hormuz — Sem negociação em curso, o que resta acompanhar é a frequência dos ataques a navios e algum sinal de retomada da mediação de Omã.
  • Ucrânia, 24 de agosto — O país marca o Dia da Independência sob ataques russos de drones e mísseis que atingem civis, e sem nenhuma perspectiva de negociação com Moscou.

Fora da Pauta

"Fjord", de Cristian Mungiu, filme que ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes deste ano, estreou nesta semana nas salas francesas. Um casal de forte religiosidade deixa Bucareste e se instala na Noruega, no vilarejo natal da mulher, no fundo de um fiorde. Quando uma professora nota hematomas no corpo de uma das filhas, a comunidade começa a discutir a educação que os pais dão às crianças, e o serviço de proteção infantil entra na história. É a segunda Palma de Mungiu, 19 anos depois de "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias". No Brasil, a estreia está marcada para 4 de fevereiro de 2027.