Visão | “In My Father’s Room”, “What Remains” e “El mal padre”: Pais, poetas e filhos ajustam contas | Festival de San Sebastián 2026 — Dia 4

🗓️ 2026-09-21 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

A poesia e a paternidade atravessam este quarto dia quase como duas doenças hereditárias. A japonesa Maha Harada (In My Father’s Room) procura o pai poeta depois de ele morrer, a turca Yeşim Ustaoğlu (What Remains) põe uma poeta a fugir para voltar a respirar e os espanhol Roberto Bueso (El mal padre) reúne um pai e três filhos numa casa de família. Freud teria hoje feito umas horas extraordinárias entre o Kursaal, o Principal e o Victoria Eugenia

O cinema tem esta mania de nos obrigar a resolver em duas horas aquilo que as personagens passaram quarenta anos a evitar. Neste Dia 4, três filmes da Seleção Oficial acabaram por conversar entre si. In My Father’s Room, estreia na realização de Maha Harada; What Remains (Artakalan), regresso de Yeşim Ustaoğlu à competição onde ganhou a Concha de Ouro há 18 anos; e El mal padre, terceira longa de Roberto Bueso. O que os aproxima é uma herança: poesia, pais, filhos e a descoberta de que muito do que julgamos nosso veio de alguém antes de nós.

“In My Father’s Room”: O pai que deixou uma chave

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In My Father’s Room começa com uma chave. A metáfora não é subtil, mas Maha Harada sabe o que quer abrir com ela. Satomi, interpretada por Yu Aoi — de Mulher de Um Espião, de Kiyoshi Kurosawa — trabalha num museu e, depois da morte do pai, recebe um envelope. A chave leva-a a um quarto desconhecido, arquivo clandestino de uma vida que a filha julgava conhecer. Harada, escritora bestseller e antiga curadora de arte, chega à realização aos 64 anos adaptando o próprio conto An Unnecessary Man. Traz literatura, arte e uma obsessão por Mark Rothko. A cerimónia do chá e a pintura abstrata falam do valor das coisas que não precisam de fazer ruído. Na conferência de imprensa citou Ozu e O Espírito da Colmeia, de Víctor Erice: interessa-lhe menos explicar sentimentos do que deixá-los aparecer.

Issey Ogata, de Silêncio, de Martin Scorsese, é o centro ausente dessa investigação. Um homem aparentemente inútil aos olhos da sociedade, que viveu à volta das palavras, do chá e da arte. Por momentos lembra o protagonista de Dias Perfeitos, de Wim Wenders. Satomi não descobre um herói escondido; descobre um homem que escolhera viver segundo uma escala de valores que ninguém à volta parecia medir. Harada estreia-se tarde e sem hesitações de uma forma sóbria, mas brilhante do ponto de vista cinematográfico. Aos 64 anos, já sabe que novidade e juventude não são sinónimos.

“What Remains”: Uma poeta foge para conseguir ficar

Yeşim Ustaoğlu regressa a San Sebastián 18 anos depois de ter ganho a Concha de Ouro com Pandora’s Box, que deu também a Tsilla Chelton o prémio de melhor atriz. What Remains acompanha uma mulher que deixou de caber na vida que leva.

Elif é poeta e está a perder as palavras, a inspiração e o prazer de viver. Parte. Não exatamente do marido e do filho, mas da engrenagem em que deixou de se reconhecer. Ustaoğlu recusa fazer do marido o culpado útil: o bloqueio não está só fora, está também dentro dela. Fala de uma procura de “pureza”, de uma forma de existir sem medo e sem dependências confundidas com amor. O projeto começou em 2019, foi interrompido pela pandemia e retomado depois de 2021, em paralelo com o seu documentário On the Dry RockWhat Remains parece descobrir-se enquanto avança. É um road movie, mas a estrada serve sobretudo para retirar camadas. A poesia de Birhan Keskin acompanha Elif; a música de Şevket Akıncı e o som fazem o resto. Rostos, vento, silêncio, montanhas, tato: ver, ouvir e tocar deixam de ser automatismos.

Quanto mais Elif se afasta da cidade, mais o filme abranda, sem vender a ideia de que a natureza cura aquilo que a vida urbana estragou. Ustaoğlu pergunta outra coisa: o que sobra quando retiramos o ruído, as rotinas e as relações que fomos aceitando sem perceber quando começaram a apertar? A força do filme está aí. Não em saber se Elif tem direito a partir, mas em perceber se é possível amar sem possuir, ficar sem depender, partir sem destruir. A viagem dela obriga também o marido e o filho a moverem-se, mesmo ficando no mesmo lugar. Elif quer ensinar o filho a sentir o mundo em vez de simplesmente o consumir.

“El mal padre”: Um pai, três filhos e uma casa cheia de facturas

Depois do pai morto de Maha Harada e da mãe que precisa de sair para voltar a ouvir-se, chega Santiago Balmes, de El mal padre. Este ainda está vivo para escutar a acusação.

Eduard Fernández interpreta um escritor e académico que reúne os três filhos na casa junto ao mar onde passavam os Verões. Santiago abandonou a família anos antes por outra mulher. Os filhos chegam sem espírito natalício, mas com um arquivo de ressentimentos. Sobretudo Alberto, o mais novo, prestes a tornar-se pai e a perceber que certas heranças não vêm no testamento.

Roberto Bueso, depois de La banda e Llenos de gracia, dá aqui um salto de ambição. Eduard Fernández não transforma Santiago num monstro porque não precisa. Seduz, irrita, manipula, enternece e, por vezes, quase convence. Esse “quase” é o filme. Os maus pais raramente são maus vinte e quatro horas por dia; se fossem, a psicanálise perdia metade da clientela e os almoços de família acabavam antes da sobremesa.

Bueso fala de uma família desfeita, de ressentimento, medo e ternura. Esta última é perigosa no cinema: mal administrada, vira açúcar. Aqui funciona porque reconciliar não significa apagar a fatura, apenas lê-la até ao fim. E Alberto, prestes a ser pai, empurra a pergunta para a frente: até que ponto repetimos aquilo que passámos anos a condenar?

É isso que acaba por unir os três filmes. A família não como porto seguro, mas como idioma aprendido antes de sabermos se queríamos falá-lo. Harada encontra um pai nos objetos que deixou; Ustaoğlu encontra na poesia e na viagem a possibilidade de uma mulher voltar a ouvir-se; Bueso põe três filhos diante do homem que passou demasiado tempo a fugir do que fez. Ninguém fica curado. O cinema que resolve quarenta anos de danos antes dos créditos costuma ter um problema mais grave do que as personagens. Hoje, em San Sebastián, a poesia serviu para falar da vida e os pais para falar dos filhos. Ou talvez tenha sido exatamente ao contrário.