Indecisos passam a orientar a movimentação das campanhas de Lula e Flávio na reta final

🗓️ 2026-09-13 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -
INVESTIDA - Flávio em Juiz de Fora: busca de apoios em um local simbólico
INVESTIDA - Flávio em Juiz de Fora: busca de apoios em um local simbólico (Vittor Sales/Divulgação)

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai no fim desta semana a um terreno hostil: ao lado de candidatos ao governo e ao Senado, fará atos de rua nos dois maiores estados da Região Sul, onde seu governo é amplamente reprovado (54% o consideram “ruim/péssimo”, segundo o Datafolha) e aparece atrás de Flávio Bolsonaro na corrida presidencial (31% a 38% no primeiro turno, segundo a Genial/Quaest). Na sexta, 11, está agendado um comício no Largo Glênio Peres, no Centro Histórico de Porto Alegre, em evento que marca sua volta à cidade pela primeira vez desde março de 2024. No sábado, repete o roteiro em Curitiba (onde ficou preso por 580 dias pela Lava-Jato), na Boca Maldita, tradicional ponto de discussões políticas, onde pisou pela última vez em setembro de 2022. A turnê faz parte de um esforço não só para diminuir sua rejeição nesses estados, mas para atingir um dos públicos mais cobiçados pelas campanhas presidenciais a pouco menos de um mês da votação: os eleitores que ainda não decidiram em quem votar.

VOLTA - Lula na Boca Maldita, em Curitiba: retorno ao local onde esteve em 2022
VOLTA – Lula na Boca Maldita, em Curitiba: retorno ao local onde esteve em 2022 (Ricardo Stuckert/.)

A caçada ao personagem que pode mudar o equilibrado jogo eleitoral tem dois cenários bem relevantes na região. Rio Grande do Sul e Paraná estão entre os três estados com maiores percentuais de brasileiros indecisos nesta altura da campanha (veja o quadro), todos com taxas bem superiores à média nacional, que é de 10%, o dobro do índice registrado nesse mesmo período em 2022, que era de 5%. A estimativa da Quaest é que no país haja mais de 21 milhões de eleitores indecisos, concentrados principalmente no Sul e no Sudeste. Se fossem um colégio eleitoral, os indecisos formariam o segundo maior do país, atrás somente de São Paulo.

Infográfico Voto em Aberto com três gráficos. O primeiro, de barras horizontais, mostra estados com maior concentração de indecisos, liderado por RS (18%), MG (17%) e PR (17%). O segundo é um mapa do Brasil com estados em azul, indicando os com maior percentual de indecisos, e um gráfico de pizza mostrando 10% como a taxa média nacional. O terceiro, também de barras horizontais, detalha os eleitores mais indecisos por perfil: independentes (19%), mulheres (14%), moradores do Sudeste (14%), renda de até dois salários mínimos (13%), ensino fundamental (12%), evangélicos (12%) e idade entre 35 e 59 anos (12%)

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Um dos motivos para o aumento da taxa é um certo cansaço com a polarização entre petismo e bolsonarismo, que vem desde 2018. “Temos vários indicadores nesse sentido: o eleitor, neste ano, está menos animado com as eleições”, aponta Guilherme Russo, diretor de inteligência da Quaest. A rodada mais recente de levantamentos estaduais do mesmo instituto mostra outro fator que ajuda a explicar esse índice: quase todos os locais com taxas elevadas de indecisão também registram pouca distância ou empate técnico entre Lula e Flávio. Quanto mais indefinida a disputa, maior parece ser a parcela dos que ainda não sabem para que lado pender: no Rio Grande do Sul, por exemplo, que registra a maior taxa de indecisão entre os estados (18%), Flávio tem 34% contra 28% de Lula — os dois estão empatados no limite da margem de erro de 3 pontos percentuais para mais ou para menos. O contrário também é verdadeiro: na Paraíba, que tem a menor taxa de indecisos do país (8%), Lula lidera com mais de 30 pontos percentuais de vantagem.

Diante desse contingente potencialmente decisivo de eleitores ainda em disputa, Flávio Bolsonaro também se movimenta. Na quarta 9, esteve em Juiz de Fora, onde refez o trajeto em que o pai, Jair, sofreu um atentado a faca em 2018. O ato não foi apenas simbólico: Minas Gerais, além de ter o segundo maior número de eleitores do país, possui a segunda maior taxa de indecisos (17%) — além disso, carrega a tradição de ser um “estado espelho”, onde quem ganha leva a eleição presidencial. Assim tem sido desde a década de 1950, mas esse paradigma pode ser rompido neste ano, segundo especialistas como Fábio Vasconcellos, professor da Uerj, que estudou o padrão de voto no estado nos últimos vinte anos. Ele aponta que, entre 2002 e 2006, Minas funcionou como uma espécie de alavanca para a esquerda, com vitórias de Lula superiores a 30 pontos percentuais. Essa vantagem foi se estreitando ao longo dos anos até chegar em 2022, quando a vitória de Lula no estado foi por 0,4 ponto percentual — ainda mais apertada do que a vantagem nacional, de 1,8. Foi a primeira vez que a margem no estado ficou abaixo da nacional, com o PT perdendo em regiões que antes dominava, como o Triângulo Mineiro, e a direita aprofundando a vantagem que tinha, como no sul do estado. “Pode ser que a gente veja pela primeira vez alguém que vença no Brasil, mas não vença em Minas”, diz Vasconcellos.

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APOSTA - Ato bolsonarista em solo gaúcho: estado lidera em indecisos
APOSTA - Ato bolsonarista em solo gaúcho: estado lidera em indecisos (Rafael Rosa/Agência Enquadrar/Agência O Globo/.)

Tendo em vista esse acirramento em estados mais populosos, conquistar o voto indefinido se torna mais importante. As pesquisas ajudam a traçar o perfil desse eleitorado: ele é principalmente feminino (69% dos indecisos são mulheres), tem entre 35 e 59 anos, baixa renda e escolaridade e, o que é determinante, se considera independente — nem de direita, nem de esquerda. Esse dado ajuda a explicar por que o eleitor ainda não escolheu um lado a poucas semanas do pleito: não se trata, em grande medida, de um contingente que precisa ser convencido a abandonar um candidato pelo outro, mas de pessoas que ainda não se sentem representadas por nenhum deles. O histórico desse grupo reforça essa distância dos dois campos. Uma parcela dos atuais indecisos votou em Lula no segundo turno de 2022 (32%), mas há também um percentual expressivo (33%) que afirma ter votado em branco, nulo ou simplesmente não ter comparecido às urnas. É um eleitor, portanto, que não está necessariamente disponível para ser tirado do adversário: em alguns casos, o desafio das campanhas é simplesmente fazê-lo sair de casa e participar da eleição.

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Se o perfil dos indecisos ajuda a explicar por que tanta gente ainda não definiu uma posição, as preocupações do grupo indicam o caminho que as campanhas terão de percorrer para conquistá-lo. Segundo a Quaest, a violência é de longe o principal problema para os indecisos, com 30%. O tema também lidera entre os eleitores de Lula e Flávio, mas o que vem em seguida revela as diferenças entre os grupos: para os lulistas, os problemas sociais ocupam o segundo lugar, com 21%; entre os bolsonaristas, a corrupção empata com a violência como a maior preocupação, com 26%. Entre os indecisos, esses temas não se destacam no mesmo patamar. Um dos principais nomes do PT no Paraná, um dos pontos de parada de Lula em busca do eleitor reticente, o deputado Zeca Dirceu diz que o discurso para atrair quem ainda não apoia o presidente tem de envolver as realizações do atual governo. “A estratégia é focar em alguns temas centrais, como o fim da escala de trabalho 6×1, mesmo ela não sendo votada antes das eleições, a redução dos juros, a renegociação de dívidas e a criação do Ministério da Segurança Pública”, afirma.

ESTRATÉGIA - Cury em Copacabana: aposta em eleitor fora da polarização
ESTRATÉGIA - Cury em Copacabana: aposta em eleitor fora da polarização (Tercio Teixeira/AFP)

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Os principais candidatos devem gastar energias na reta final em uma batalha localizada principalmente no Sudeste. A região, segundo a Quaest, concentra nada menos que 45% da população que ainda não escolheu nenhum candidato. São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro estão entre os locais com maiores percentuais desse tipo de eleitor em disputa. Isso não chama a atenção apenas de Lula e Flávio. Desde o final de agosto, o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) visitou Araçatuba, Barretos e Campinas, no interior paulista, região marcada pela cultura do agronegócio, que o candidato representa. Ele também esteve ao menos cinco vezes em atos de campanha na capital paulista. Romeu Zema (Novo) foi à Avenida Paulista em 7 de setembro (antes do ato de Flávio Bolsonaro) e já havia feito campanha na Rua 25 de Março, tradicional ponto de comércio popular do Centro da capital do estado, e em uma feira livre de Guaianases, no populoso extremo leste paulistano. Terceiro colocado na eleição presidencial, Augusto Cury (Avante) fez um ato em Copacabana no dia 7. O escritor, o único que conseguiu se movimentar fora da margem de erro nas pesquisas recentemente, tem focado principalmente o eleitor cansado da polarização. “O Brasil não aguenta mais ser capturado apenas por duas famílias”, disse, em referência ao embate entre petismo e bolsonarismo.

Mas não só no Sul e no Sudeste estará o esforço final dos candidatos. Flávio Bolsonaro vai manter o foco em São Paulo, Minas e Rio, onde está em empate técnico com Lula, mas deve priorizar também melhorar sua posição no Nordeste, onde tem ampla desvantagem para o petista. A região, segundo a Quaest, tem 19% dos eleitores do país que ainda não decidiram seus votos. Além de ter escalado seu coordenador de campanha, Rogério Marinho, que é do Rio Grande do Norte, e seu vice, Alfredo Gaspar, que é de Alagoas, para fazerem campanha na região, Flávio deve intensificar seu contato com o eleitor nordestino em setembro: tem agendas no Ceará (dia 15), em Pernambuco (16) e na Bahia (17), os três maiores eleitorados da região.

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FOCO - Toalhas à venda em São Paulo: estado concentra agendas de candidatos
FOCO - Toalhas à venda em São Paulo: estado concentra agendas de candidatos (Allison Sales/Folhapress/.)

O mapa dos indecisos, como mostram os números, também é um mapa das vulnerabilidades de cada campanha. Lula e Flávio não apenas buscam conquistar quem ainda não escolheu um lado — e que pode se inclinar por uma ou outra candidatura —, mas avançar nas regiões em que enfrentam resistência. É por isso que, na reta final, a disputa pelo voto que não tem dono deve se concentrar em um conjunto relativamente pequeno de estados, transformados em arenas decisivas da corrida ao Palácio do Planalto.

Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2026, edição nº 3012

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