Indefinições e reviravoltas marcam a reta final da pré-campanha em Alagoas
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Na manhã do último dia para registro das candidaturas, os principais concorrentes ao governo de Alagoas ainda não haviam se apresentado à Justiça Eleitoral. A indefinição, levada até os minutos finais de 15 de agosto, foi resultado de uma série de movimentos de última hora, que incluíram a escolha do deputado Alfredo Gaspar (PL), até então um dos principais nomes na disputa pelo Senado, para ser vice na chapa de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência e o vaivém em torno de qual cargo disputaria João Henrique Caldas (PSDB), o popular ex-prefeito de Maceió conhecido como JHC. E, não menos importante, teve como pano de fundo a disputa entre os grupos dos dois maiores caciques locais: o deputado Arthur Lira (PP) e o senador Renan Calheiros (MDB), ambos em busca de vaga no Senado.
A movimentação mais importante envolveu o futuro político de JHC. Embora as pesquisas o colocassem numericamente à frente na disputa pelo governo, sua candidatura era incerta até o limite do prazo. Reeleito prefeito de Maceió em 2024 com 84% dos votos, ele era o principal nome da oposição para enfrentar Renan Filho (MDB), ex-governador que tenta retornar ao cargo depois de ser ministro de Lula. Há tempos, JHC e Lira negociavam uma composição, com o ex-prefeito como candidato ao governo e o deputado, ao Senado. No entanto, conforme o prazo para definição foi se aproximando, a situação foi ficando nebulosa. JHC nem apareceu na convenção tucana, que deixou em aberto na ata quem seria o nome ao governo. No início da semana-limite, o ex-prefeito voou a Brasília, se reuniu com Lula, aliado dos Renan, e manifestou a intenção de concorrer ao Senado.
O movimento mostra como JHC estava no centro de uma equação peculiar. Ao mesmo tempo que tinha um acordo com Lira, ele manteve diálogo com Lula, que nomeou a tia dele, Marluce Caldas, ministra do Superior Tribunal de Justiça, em 2025. Além de deixar o caminho de Renan Filho ao governo praticamente livre, uma candidatura de JHC ao Senado ameaçaria diretamente Lira, que havia ganhado espaço com a saída de Gaspar. Não foi à toa, portanto, que o encontro com Lula irritou aliados do ex-presidente da Câmara, que viram a mudança nos planos como traição. Diante da pressão, JHC recuou e formalizou a candidatura ao governo no dia 15, com a esposa, Marina Candia, candidata ao Senado (e a mãe dele, Eudócia Caldas, de suplente), além de Lira.
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A definição de última hora também obedeceu a cálculos eleitorais mais complexos. Como sua candidata a vice, JHC escolheu Célia Rocha (PSDB), ex-prefeita de Arapiraca, a segunda maior cidade alagoana e tida como estratégica na campanha. Tão importante que atrasou também a definição da chapa de Renan Filho. O MDB havia formalizado a candidatura no dia 5 com uma vice provisória, a assessora parlamentar Marina Lamenha, para que as negociações seguissem ocorrendo. Poucas horas antes do encerramento do prazo, Renan Filho anunciou Yale Fernandes, presidente do MDB e ex-vice-prefeito (veja só) de Arapiraca.
A escolha dos vices evidencia o papel central que o eleitorado de fora de Maceió terá na disputa. A divisão entre capital e interior atravessa a política alagoana: de um lado, está a capital, onde JHC construiu sua força e onde o eleitorado é mais identificado com a direita — foi a única capital do Nordeste que deu a vitória a Jair Bolsonaro contra Lula em 2022. Já Alagoas foi o único estado onde Lula perdeu em 2002, quando chegou à Presidência pela primeira vez. “Ao longo dos anos, com os programas sociais e transferências de recursos, o interior foi ficando cada vez mais lulista, mas a capital permaneceu uma bolha, com forte influência das elites locais, extremamente conservadoras”, diz a professora de ciência política Luciana Santana, da Universidade Federal de Alagoas, que avalia que neste ano Lula pode ganhar em Maceió. É por esse exato motivo que JHC deve se manter neutro na disputa presidencial — por isso, a despeito de ter escolhido um vice alagoano, Flávio Bolsonaro pode ficar sem palanque forte no estado.
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Tão embaralhada quanto a formação das chapas está a disputa nas pesquisas. No levantamento do Paraná Pesquisas de julho, JHC tinha 45,9% das intenções de voto, e Renan Filho, 41% — um empate na margem de erro de 2,7 pontos percentuais. No Senado, Gaspar liderava com 40,4%, seguido por Lira, com 39,9%, e Renan Calheiros, com 36,4% — os três também empatados. Ainda não foram divulgadas pesquisas sem Gaspar, o que acrescenta mais uma incógnita ao cenário.
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A eleição de Alagoas, em que pese as intervenções de Lula e de Flávio, não é uma simples reprodução da polarização nacional. Ao contrário, ela é atravessada por uma teia de alianças locais. Em uma eleição que também testa a força dos dois grupos políticos mais influentes do estado, a disputa promete ser acirrada até o fim.
Publicado em VEJA de 21 de agosto de 2026, edição nº 3009
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