Já atingimos o pico do verão? Ainda calor, mas mais moderado
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"Quente e Frio", o podcast da Rádio Observador dedicado à meteorologia, com a Filomena Martins. Também conto com a ajuda da Judite França. Eu sou o Ricardo Conceição. Filomena, vou já começar pelo tema mais quente do momento. Portugal vai escapar aos piores extremos da onda de calor espanhola?
Pois vai. Temos uma depressão em altura, uma DANA, uma gota fria, vocês já sabem estes nomes todos, que vai estar outra vez a oeste.
Causou grandes estragos em Valência, não é?
É essa, mas às vezes não fazem isso.
É outra, não é? Mas sim.
Esta vai estar a oeste da península e vai enviar vento, ar fresco, costa abaixo, o que nos deixará mais fresquinhos. Isto enquanto Espanha se espera mais uma onda de calor que vem do norte da África, via Mediterrâneo. Portugal assim fica de fora dos piores extremos que vai estar ali. No entanto, o calor vai aumentar durante o fim de semana, sobretudo no interior, só que a influência do Atlântico vai impedir esta onda de calor generalizada no país. Do outro lado da fronteira, aí sim, várias regiões vão ultrapassar os 40 °C durante o dia e em algumas zonas do sul e do Mediterrâneo vão estar mais de 30 °C durante a noite. São as chamadas noites equatoriais.
Essas são tórridas?
Não. Há as tropicais, mais de 20 °C, as tórridas, mais de 25 °C, as equatoriais, mais de 30 °C.
Ok.
Ok, então é pior ainda. E como é que estará por cá?
As temperaturas vão subir um pouquinho. Este sábado, o interior norte, o centro e o Alentejo já estarão mais quentes. Faro e Castelo Branco deverão chegar aos 34 °C, Bragança e Évora aos 33 °C. Depois, no litoral, a tal influência do Atlântico fica bem visível com Porto nos 24 °C só, Viana com 26 °C e Lisboa com 28 °C. No litoral norte e centro, ainda pode haver até mesmo algumas nuvens baixas, mas só de manhã, e até chuviscos pontuais, mas no resto do território o tempo será seco e com muito sol. No domingo, o cenário já muda um pouco, o calor mantém-se no interior e na costa mais fresco. Basta comparar, Porto e Viana do Castelo estarão nos 24 °C, enquanto Faro estará nos 34 °C e Castelo Branco e Évora nos 33 °C. São quase 10 °C de diferença no mesmo país.
Já agora consegues dizer-nos como vai estar segunda-feira?
Vou, consigo.
É só pra preparar a roupa do fim de semana.
Pode já preparar pra segunda-feira, porque Évora poderá já ir aos 35 °C e Bragança, Vila Real e Castelo Branco ficar nos 34 °C. Lisboa ainda não vai chegar aos 30 °C, ficará nos 29 °C e o Porto mantém-se nos 24 °C. A tendência aponta pra novo aquecimento durante o resto da próxima semana, sobretudo a partir de terça e quarta, em que o interior vai aproximar-se outra vez dos 37 °C a 38 °C, sobretudo o Alentejo, a Beira Baixa e o Nordeste Transmontano. Ainda assim, Portugal ficará mesmo muito abaixo do que está previsto em Espanha. Boa notícia pra quem vai aproveitar a praia. A água do mar continua morninha. Virá a variar entre os 22 °C e 24 °C no Algarve, entre 19 °C e 21 °C na costa ocidental, lá mais pra cima, no norte, 17 °C a 19 °C.
17 °C a 19 °C na costa norte é água a escaldar.
Coisa muito importante pra quem ainda está longe das férias. Há notícias que dizem que o verão já passou o pico.
Sim, há modelos que apontam pra isso. Ainda estamos em julho, vem mais calor, e mesmo assim começam a aparecer estas previsões.
Filomena, eu e a Judite ainda não fomos de férias.
Nem eu, Ricardo.
E tu também não.
Mas estas previsões sugerem que o verão poderá estar a aproximar-se do pico, e isso parece uma contradição, mas não é, porque nós estamos a entrar na chamada canícula.
Gosto tanto dessa expressão.
É, não é? O período que estatisticamente concentra os dias mais quentes do ano. Na Península Ibérica é entre meados de julho e meados de agosto. Só que este ano, este período chega depois de uma primeira metade do verão marcada por sucessivos episódios de calor, separados por pausas muito curtas, marcadas pelo frio, pelo vento do Atlântico. Desde o fim de maio, a atmosfera tem repetido quase sempre o mesmo padrão: vem uma crista anticiclônica sobre a península, o ar desce, aquece, fica seco e ao mesmo tempo, depois, vêm depressões pequeninas, bolsas de ar frias, como esta agora posicionada a oeste, que ajudam a puxar também ar quente do norte da África e refresca um dia ou dois e depois volta a entrar outra massa de ar quente.
Mas Filomena Martins, se as previsões mais fiáveis são a 10 dias, como é que podemos dizer que o melhor já passou?
É fácil. Aqui é preciso distinguir uma previsão do tempo de uma previsão de tendência. A poucos dias de distância, os modelos conseguem mais ou menos precisar se Lisboa vai ter 29 °C ou se Évora chega aos 35 °C. Agora, isto é olhando a três dias, quatro dias, mas se olhares a três ou quatro semanas, é impossível prever o tempo de um dia concreto. O que se procura perceber é se é mais provável termos temperaturas acima ou abaixo ou próximas da média. E pra isso fazem-se dezenas de simulações, os chamados ensembles. E cada simulação começa com pequenas diferenças no estado da atmosfera. Quando muitas apontam na mesma direção, a confiança na tendência aumenta. Quando divergem, a incerteza é muito maior. E as tendências atuais sugerem que depois desta fase muito quente de julho, e até de maio, as anomalias vão moderar-se durante a primeira metade de agosto. Muderam-se.
E, Filomena, outra dúvida que me assalta sempre é--
Imagino.
Porque sou grande artista, sou bom na arte de matar plantas. Qual é a melhor hora para regar, por exemplo, para regar as minhas roseiras, o meu jardim de roseiras?
Imagino que tens um quase como Versalhes.
Tomar é Versalhes.
Olha, nem toda mundo sabe que a melhor hora para regar uma roseira no verão não é ao fim da tarde, que foi a resposta que me deste antes de ligares os microfones, mas é de manhã cedo.
Mas de manhã, depois, como é que é? Fica seco ao final do dia, não?
Pois é, mas não é assim. Ao regares logo de manhã, a planta consegue absorver a água antes das horas de maior calor e se algumas folhas ficarem molhadas, têm tempo pra secar ao longo do dia, não há problema. E isso reduz o risco de doenças provocadas por fungos, como a mancha negra ou o oídio, e vocês já conhecem a palavra oídio.
Eu lembro-me bem.
Que se desenvolvem mais facilmente quando a folhagem permanece úmida durante muitas horas, que é o que acontece se regares de noite. Portanto, esta recomendação foi recuperada esta semana pelo site MeteoRed, seguindo as orientações do Royal Horticultural Society do Reino Unido e de vários serviços agrícolas universitários. E há ainda outro conselho de especialistas, é sempre para regar junto à base da planta e não molhar as folhas, a tal história das folhas por causa do oídio.
As minhas roseiras vão ficar incríveis.
Vai ter uma conversa de família aqui que nunca mais vai acabar, Ricardo.
Obrigado, Filomena Martins. O "Quente e Frio", de segunda a quinta, na hora das 16h, ou depois das 16h10, e à sexta-feira, já de saída para o fim de semana, na tarde política, às 17h10. E como sempre, está disponível em podcast.