Já te fizeste esta pergunta? - Intermédios

🗓️ 2026-10-12 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

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Olá a todos, sejam bem-vindos a mais um episódio de Intermédios. Eu sei, na semana passada não houve, foi feriado. Então eu aproveitei também, como estou ainda a adaptar-me ao horário da manhã da RFM. Vocês não estão a ver o que é escrever todos os dias, ter que estar a escrever todos os dias e eu não escrevo todos os dias. Ou melhor, eu escrevo para todos os dias, mas escrevo adiantado, porque não vou deixar de um dia para o outro. Na minha cabeça não dá para esse estresse. Então eu tenho estado a escrever bastante, tentar que tenha uma semana de avanço, mas isso também desgasta bastante. Por isso, aproveitei o feriado para descansar. Muito obrigado por estarem desse lado. Já sabem, estes intermédios são conversas de 20 minutinhos em que eu estou aqui a partilhar convosco uma ideia. Às quartas-feiras há um convidado. Na semana passada foi o Gustavo Jesus, o psiquiatra. Sempre incisivo e conversamos sobre esta ideia de: será que hoje em dia é tudo saúde mental? Será que só se fala de saúde mental? Será que é mesmo tudo uma questão de saúde mental? Fomos abordar essa questão. E esta semana também é um tema muito polêmico. Não vou adiantar muito mais, mas é polêmico. Quanto ao dia de hoje, este Intermédios, eu tenho aqui uma pergunta de partida para vocês, que é esta, vamos refletir em conjunto: se ninguém pudesse ver o que nós temos, comprávamos as mesmas coisas? Já pensaram nisto? Se aquilo que vocês têm, se aquilo que nós ostentamos, já aqui a palavra está a induzir algo. Se aquilo que nós ostentamos e compramos ninguém pudesse ver, será que nós comprávamos as mesmas coisas? Isto porque faz-me alguma confusão, e eu sei que há aqui várias análises que se pode fazer sobre isto, mas a mim faz-me muita confusão esta malta dos YouTubes, os putos, meu, que vendem o lifestyle. Que vendem um lifestyle que muitas vezes, alegadamente, pelo que se fala pela internet, muitas vezes nem sequer é deles. Sei lá, há muitos miúdos que vocês-- nem vou estar a falar os nomes, eu sei porque me aparece muitas vezes e porque estou atento, mas nem vou estar a falar. Mas é aquele clássico: "Venham ver o meu novo carro, venham ver a minha nova casa, olha a minha piscina, não sei o quê. Comprei esta coisa no valor de 2.000 €". E esta necessidade de ostentação faz-me confusão. Eu acho que quando alguém ostenta e faz disso conteúdo, eu acho que está a querer vender um lifestyle. É a minha opinião. Estamos aqui a discutir o tema. Mas eu acho que está a querer vender um lifestyle e o que faz com que outras pessoas o vejam é a cena de querer ser igual e ter o mesmo. Mas até que ponto esta cultura de consumo não serve para mascarar outras questões. Até que ponto as pessoas que têm necessidade de mostrar-- isto são só reflexões, malta. Não venham com merdas a dizer que eu estou a dizer que as pessoas-- não, não estou a dizer, eu estou a pensar. E é isto que é esta conversa, estes intermédios é isto, é nós pensarmos sobre as cenas e podermos falar sobre as cenas. Mas a ideia que me dá é: a malta que ostenta, ou seja, que mostra "olha aqui o meu carro, olha aqui a minha casa e olha este relógio que eu comprei, olha esta nova não sei o quê", acho que poderá de alguma maneira estar a preencher um vazio de outro modo. Eu conheço muita gente rica que não ostenta, que simplesmente tem. Não conheço assim tanta gente rica, mas conheço alguns. Eu vou contar-vos uma história. Uma vez eu fui à casa nas gravações de um filme e fomos gravar altas horas da madrugada no Alentejo. E eu cheguei meia-noite e tal a uma casa entra assim por um caminho. Aquilo era tipo um portão grande, era uma quinta, depois eu entrei pela casa, pelo caminho, estacionei o meu carro, não se via porra nenhuma à noite. Bato à porta, não tinha muita iluminação, abro. A primeira coisa que eu vejo é no chaveiro, onde a gente mete as chavinhas dos nossos carritos, onde eu meto, no meu caso, como eu tenho a parceria com a Matriz Auto, onde eu meto agora do MG, mas também já meti de um Renault Captur, whatever, dos nossos Fiats, essas merdas, dos nossos Opel. Vejo uma chave de um Ferrari, chave de um Maserati, no chaveiro. E eu fiquei logo assim: "OK". Um casarão gigante. E nós estava malta a filmar, malta a preparar a filmagem, não sei o quê. E andava lá o senhor, tipo caseiro Um senhor de chinelos, uns calções muito amanhaços, manga cava ou camisa, mas super simples. O caseiro andava lá a ver a malta. E eu assim: "Olhe, desculpe, onde é que é o não sei o quê?" "Isso é ali naquela sala". Eu fui lá, até que eu, de repente, entro numa sala, 2:00, 3:00 am, e está uma lareira acesa e Fafá de Belém a beber um copo de vinho tinto. Completamente aleatório. A Fafá de Belém a beber um copo de vinho tinto com quem? Com esse senhor, que afinal não era o caseiro, era o dono daquela porra toda. E então eu sentei-me e tive a conversa às 2:00 no Alentejo, com a Fafá de Belém e com o dono daquele espaço. E o homem a contar-me a vida dele toda, a contar que não tinha isto e que tinha aquilo e que queria comprar uma casa não sei onde, mas a contar do mesmo modo que nós contamos, tipo: "Estou a pensar trocar de carro. Comprei um time sharing no Algarve e vou lá passar 15 dias", só que ele dizia: "Estou a pensar comprar uma casa nas Ilhas Salomão, que são umas ilhas super remotas, mas eu adoro aquilo, levei lá muito tempo". Um homem super simples, que devia ser podre de rico e que não ostentava. Simplesmente vivia a oportunidade que a vida lhe dava. E eu acho que há aqui esta diferença: até que ponto, e isto é pra mim o mais curioso, estes jovens que promovem um lifestyle e uma ostentação, será que eles estão a esconder ou a construir uma identidade também? Será que eles estão a esconder algo? Quando nós os despimos das coisas que eles têm, quem é que são eles para além disso? Quem é que é o Numero da Vida, por exemplo, que é desses putos talvez que faça assim mais vídeos de ostentação, os Windows e não sei o quê. Quem é que são esses miúdos se não tiverem nada daquilo que têm? E isto serve também uma própria reflexão pra ele. Pra eles, duvido que eles vejam isto, mas se virem, está aqui uma questão. E sem merdas. Se calhar até me podem dar uma resposta super lógica e eu: "Ya, faz sentido". Mas, por exemplo, eu estava a falar com um amigo no outro dia e ele estava a me dizer que: "Se tu tivesses dinheiro pra comprar aquilo que tu quisesses, a cena que tu quisesses comprar, o que tu compravas?" E eu não fui capaz de dizer, porque eu não tenho esse drive. Eu vou dizer o que eu fazia se eu tivesse todo o dinheiro do mundo. Pagava a minha casa, pagava as dívidas que tenho da minha casa, se calhar pagava as dívidas de minha irmã ou do meu irmão, ou casas que eles têm pra pagar ou o que quer que fosse, punha dinheiro pras minhas filhas. Aquele clássico: se fosse euromilionário, o que tu fazias? Eu acho que era por aí. Não faria como aquela euromilionária, que a mulher mal sabe conduzir e foi comprar um Ferrari porque o Ronaldo tinha um e queria um Ferrari igual ao do Ronaldo. Eu não fui capaz de dizer, mas esse meu amigo referiu que a cena dele era comprar o carro X, tal, porque era pra ele o marco que tinha conseguido. E eu percebo o que ele quer dizer com isso, mas ao mesmo tempo, nós estamos a colocar fora de nós. Quando nós atingimos um patamar na nossa vida, eu acho que o reconhecimento é sobretudo interior, porque lá está, quando nós colocamos esse prêmio fora de nós, esse prêmio também pode desaparecer. Esse prêmio também pode desaparecer, porque a vida depois pode correr mal e surge um problema qualquer e nós temos que vender esse carro ou essa casa ou ficar sem nada. Por outro lado, mesmo que nós tenhamos só um reconhecimento mental, eu estou aqui a pensar, se eu atingisse algo na minha vida que me desse satisfação monetária completa, que eu não tivesse problema nenhum e depois perdesse tudo, mesmo que eu não gastasse o dinheiro em nada, mas perdia tudo, eu acho que obviamente ficava mentalmente afetado também. Eu bolo muitas conversas aqui com o ChatGPT e ele referiu-me uma coisa interessante nesta conversa. Por exemplo, eu perguntei-lhe assim, e é mesmo verdade: "Eu não consigo compreender como é que alguém compra uma mala da Hermès ou lá que marcas são essas, por 5.000 €. Tu estás a comprar o estatuto, não é?" Obviamente para uns pode ser estética, pode ser coleção, mas muitas vezes quando tu compras uma mala por € 5.000 ou um relógio por 50 ou € 200.000, sendo que todos os relógios dão as horas e que todos os relógios, desde que não sejam muito maus, funcionam da mesma maneira, têm a mesma função, o que tu estás a comprar é um estatuto. Tu estás a comprar uma identidade e uma validação. Tu estás a comprar o querer pertencer a um grupo restrito de pessoas. E por isso é que me faz pensar neste fato: quando tu perderes isso tudo por alguma razão, ou se alguém perde isto tudo por alguma razão, ou se nós não pudéssemos mostrar isto a ninguém, se eu não pudesse mostrar a ninguém que tenho uma mala da Hermès, eu continuava a comprar esta mala da Hermès se não fosse efetivamente boa? Eu acho que isto também, de algum modo, pode ter a ver com a nossa educação. Eu venho de uma família humilde, do bairro dos Olivais. Eu ia muitas vezes à Feira do Relógio, tive muitos tênis da Feira do Relógio, muita roupa da feira. Claro que eu próprio, e aqui a cena do estatuto, eu lembro-me de comprar roupa da Quicksilver na feira e da O'Neill, mas eu ser puto e ter a sensação de que isto não é verdadeiro. Olhem que engraçado, só me lembrei disto agora. Eu lembro-me de comprar a roupa da O'Neill porque eu fazia bodyboard, tinha uma prancha que foi um amigo meu que me vendeu, uma dele já antiga. Um ex-namorado da minha irmã. Mas eu lembro que havia malta que tinha muita roupa da Quicksilver ou da O'Neill, etc. E eu lembro-me de comprar a roupa da feira da O'Neill e da Quicksilver, mas sentir-me falso, porque era falso. E não tinha a ver com a qualidade da roupa, tinha a ver com o estatuto, com o sentimento de pertença. É muito engraçado. Mas eu cresci e podia me ter dado para a cena. Obviamente, como vos digo, eu tenho casa para pagar, carro para pagar, tenho isso tudo, como a grande parte de nós, mas tenho uma vida relativamente tranquila, no sentido de que se eu tiver algum problema, acho que me consigo orientar. E se calhar eu podia ter roupa melhor do que tenho. Eu só compro roupa em saldos, por exemplo. Posso comprar roupa de marca, mas compro em saldos. E por exemplo, se eu vejo uns tênis por € 150, eu tenho que encontrar uma justificação muito grande para gastar € 150 naqueles tênis. Ou mesmo as minhas filhas: "Esta camisola, toda a gente está a usar." Se a camisola for um balúrdio, eu vou tentá-las fazer compreender que aquilo que elas estão a tentar comprar é um sentimento de pertença que rapidamente passa, porque essa camisola vai passar e vai surgir outra camisola ou vai surgir outra coisa, ou pode acontecer algo que faz diluir esse sentimento de pertença. Acho que esta reflexão toda leva novamente a uma questão que é: a nossa maior proteção, a nossa maior riqueza está dentro de nós. Que grande fogo. Que grande Gustavo Jesus. Não, Jesus é o psiquiatra. Que grande Gustavo Santos. Gustavo Jesus está certo, que é o psiquiatra que vem ao podcast. Que grande Gustavo Santos esta. A nossa maior riqueza está no nosso interior. Ama-te. Acorda! Acorda e não gastem o balúrdio que gastam nas lojas. Mas acho que é verdade, o maior sentimento de pertença, o maior estatuto, a maior riqueza está naquilo que nós conseguimos construir dentro de nós e perceber, se calhar, que quando estamos a comprar algo que é muito caro e que é uma marca, por que estamos a fazer? Porque gostamos? Porque é realmente um produto muito melhor, de qualidade acima dos outros e que eu sei que vai durar muito tempo e que é bom? Ou estamos a comprar um estatuto? Ou estamos a ter um sentimento de que aquilo nos vai preencher de alguma maneira? Eu acho que isto pode ser uma boa reflexão e é muitas vezes isso que eu faço. Sobretudo quando compro roupa, procuro comprar em saldos. E como estava a dizer, mas mesmo isso, eu pego na peça de roupa e penso: "Por que eu estou a comprar isto? Eu gosto? Eu vou usar? Faz sentido? Ou estou a comprar simplesmente porque estou numa vibe de compra ou porque é estilosa no sentido de pertença?" Porque pode ser estilosa, roupa de uma pessoa se sentir bem, é normal. Mas por exemplo, os carros. Eu tenho um carro meu e tenho outro da parceria com a Matriz Auto, sou embaixador da Matriz Auto. Isto por quê? Porque eu desgasto muito os carros. Eu ando sempre para cima e para baixo e ainda hoje que estou a gravar isto, vou para Viseu para ter espetáculo, para a semana volto a Viseu. Ando sempre para cima e para baixo. Então tenho uma parceria, é uma espécie de carros de produção. Mesmo os carros que eu tenho procuro que sejam úteis. Vou contar-vos esta história: eu escrevia para a revista Auto Hoje, que de vez em quando funcionava na mesma lógica: emprestava-nos uns carros uma semana, quando tínhamos espetáculos, o que nos permitia andar de um lado para o outro, e depois escrevíamos sobre os carros. Eu andei com carros utilitários, mas também andei com máquinas. Eu lembro de andar com um carro, se calhar já contei esta história: eu andava com um carro que era um Jaguar F-Type. É aqueles carros desportivos que vocês ligam e o carro já está assim: e gasta 20 L logo ali. Eu parava nos semáforos com vergonha. Eu olhava pro carro e dava-me vontade de abrir a janela e dizer às pessoas: "Não é meu, é só emprestado, só estou com ele há dois dias". Isto também pode querer dizer alguma coisa sobre mim. Calma, malta, que isto não é só mandar bocas. Isto também pode querer dizer alguma coisa sobre mim. Por que eu tenho medo de mostrar? Será que terá sido a minha educação humilde? O meu pai, não tanto a minha mãe, era poupadinho: "Para que vais comprar?" Era este registo. Será que ainda é isso? Será que eu também não compro as coisas porque acho que não as mereço ou acho que não posso mostrar que tenho? É uma boa questão pra mim e provavelmente também pode ser uma boa questão pra alguns de vocês desse lado. Vou ficar com esta. Eu acho que pode haver aqui, não é a questão principal, mas talvez em alguns momentos possa essa ideia estar presente, de que não se deve mostrar que se tem ou o próprio direito de ter, como se eu não fosse merecedor, mas ainda assim, eu aponto mais pra esta ideia de não ver necessidade. E por isso é que quando a malta me fala de carro: "Viste aquele cara do YouTube que tem dois carros?" E eu: "Chegamos os dois ao mesmo sítio. Até se eu for de FlixBus, eu chego ao mesmo sítio que o cara. Posso demorar um bocadinho mais, mas vou ver a paisagem, vou mais descansado, gasto menos gasolina e pago menos." Malta, muito obrigado por estarem desse lado. Voltamos quarta-feira com um convidado e vamos ter uns episódios especiais também do "Somos Todos Malucos", gravados no âmbito com o IPDJ. Isso será muito em breve, vou andar aí pelo país. Serão, se não me engano, cinco episódios especiais que vão estar aqui também disponíveis para todos vocês. Entretanto, boa semana, divirtam-se e pensem sobre isto. Obrigado, malta.