Laerte: Já vi tira feita com IA e é uma coisa assustadora - 17/10/2026 - Mônica Bergamo - Folha
Um homem enorme, feito de puro músculo, com máscara, capa e vestes roxas e amarelas coladas, está parado, em pé, no meio de um engarrafamento. "Ei, Overman, não pode voar?", pergunta um motorista. "Hoje não. Rodízio", responde o super-herói. Foi essa a tira que introduziu, em 1998, nesta Folha, o herói satírico da cartunista Laerte.
Overman, diz a artista, não é um personagem de caráter muito firme. "Ele mora num muquifo, divide o quarto com um cara e aceita qualquer possibilidade desse negócio. Qualquer coisa cabe nele. Dizer que ele é um anti-herói seria redundante", afirma.
A figura que começou como uma paródia de quadrinhos americanos mergulhada na realidade brasileira estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta (22), no longa homônimo estrelado por Caco Ciocler, dirigido por Tomás Portella e produzido por Iafa Britz.
Para a cartunista, o filme deu ao personagem uma história "mais comprida", diferente das tiras "picadas" com humor absurdo e vilões caricatos, como o Capitalista Imundo e o Maníaco Flatulento. Nas telonas, Overman é um super-herói decadente que recebe uma proposta para trabalhar na Secretaria de Segurança Pública e enxerga na oportunidade uma chance de recuperar seu propósito.
Ele só faz sexo às sextas-feiras, e não consegue nem pensar em outra coisa quando chega esse dia especial. "Qualquer coisa do Overman funciona como um viés crítico, altamente não recomendável. Aquilo ali é assédio puro", explica a cartunista.
O longa é uma coprodução de Star Original Productions, FSA e RioFilme, com distribuição da Migdal Filmes e codistribuição da Elo Studios. A comunicação e a estratégia digital são da WIP.
Se fosse criado hoje, reflete Laerte, o personagem talvez fosse mais político. Em uma tira publicada durante o governo de Jair Bolsonaro, o herói foi contratado para acabar com as manifestações contrárias ao então presidente —o que terminou em "desastres espantosos".
A distância entre o que a cartunista pretende dizer e o que o público entende também se tornou parte de sua trajetória. Presente na alfabetização das últimas gerações através da onipresença de suas tiras em livros didáticos, a quadrinista passou a ser perseguida, nos últimos anos, pelo meme "Laerte, não entendi!", que costuma vir acompanhado de um lobisomem rasgando suas roupas em agonia pela incapacidade de interpretar os quadros.
Hoje, ela entra na piada —e lançou até uma camiseta com a estampa do licantropo em parceria com a marca Chico Rei. Mas também leva a sério as dificuldades de interpretação relatadas. "Para quem está fazendo a história, as coisas estão muito claras, mas, para quem está lendo, não. Então, quando é uma falha minha, gosto de perceber onde fiz bobagem e evitar ou consertar."
"O humor é uma linguagem muito ampla. Eu não sou poeta, mas, dentro do meu trabalho de quadrinhos, gosto da ideia de aquilo ser uma linguagem poética também. E a linguagem poética comporta mecânicas e dinâmicas de narrativa que são para ser questionadas. Você não lê João Cabral de Melo Neto ou Drummond e fica se questionando, porque isso é contexto. Você entra no universo da poesia e deixa aquilo chegar até você", afirma.
O que a artista acha problemático, porém, é a ideia de que tudo precisa ser entendido e tem uma resposta correta. "A pessoa vai procurando ler com os olhos de quem lê uma fábula, de quem espera uma moral no fim da história. E aí não tem moral, ou não tem a moral que ela esperava, enfim, e a pessoa fica meio perdida. É uma atenção específica dos dias de hoje, uma atenção moral, e eu não consigo trabalhar com isso."
Ela cita, por exemplo, a música 'Gol Anulado', de João Bosco, lançada em 1976, que foi alvo de críticas por retratar um episódio de violência doméstica do ponto de vista do agressor.
"Aquela frase, 'tirei sem pensar o cinto e bati até cansar', não era nem um pouco questionada na época em que foi escrita, porque aquela história é entendida como a de uma personagem abusiva. Hoje, as pessoas param na frase. 'Como assim, tirou o cinto e bateu? Não pode, isso é criminoso!'. É claro que é criminoso", afirma.
O que a artista produz hoje, diz, também está ligado ao conhecimento do mundo, aos lugares que frequentou e às pessoas que conheceu. "Eu gosto de ter ideias lavando louça, mas, de um modo geral, trabalho com várias possibilidades de construção. Uma delas é o acaso mesmo", afirma.
"Eu tenho uma certa idade. Então, a minha experiência de vida, de coisas que eu vi, observei e tal, ocupa um espaço cada vez maior na minha cabeça. Eu nunca tive 75 anos. É a primeira vez, e é difícil manter um olhar atento, aberto, interessado em tudo", diz Laerte.
Olhando para o momento atual, Laerte considera que a mídia digital representou uma revolução para os artistas, mas vê na inteligência artificial um problema profundo, com potencial para afetar toda a sociedade. "Já vi tira feita com IA, não era ruim nem boa em si, mas é uma coisa meio assustadora. Alguém fez essa ilustração sem precisar desenhar. Você pode instruir a máquina para fazer o traço do Stan Lee, do Quino, do Ziraldo."
Para ela, Overman e seus vilões esdrúxulos continuam a dialogar com os dias de hoje. "O capitalista continua aí, tão imundo quanto. Mas o próprio termo 'Capitalista Imundo' e a criação desse personagem é um comentário não só sobre o capitalismo, mas sobre esse jargão de uma certa esquerda também. Chamar assim já o veste com uma capa moral, e eu não sei se isso é uma boa para uma análise ponderada nesse mundo que a gente vive hoje, que é complexo."
com DIEGO ALEJANDRO, JULLIA GOUVEIA e KARINA MATIAS
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