João Marcelo Bôscoli: “A memória é meu tesouro”
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Já havia pensado em adaptar sua história com sua mãe em um filme? Não. O livro Elis & Eu é confessional e a ideia me deixou tímido, mas entendi que havia um apelo para além da fama dela como cantora: o olhar de uma criança sobre sua mãe (Elis morreu aos 36 anos, em 1982).
Na infância, quando você percebeu que Elis era uma pessoa famosa? Me lembro de ir a uma feira no Brooklin, em São Paulo, quando tinha 5 anos. Foi lá que vi as pessoas cochichando. Primeiro fiquei enciumado e, conforme isso ocorreu outras vezes, fui me acostumando. Hoje, a lembrança desse equilíbrio entre a vida privada e a vida no palco me mostra que o conceito de estrela não precisa dissolver a humanidade de um artista.
Sua visão sobre Elis é muito diferente da Elis retratada em reportagens e livros? Elis vem de uma geração bem documentada e, além disso, falava muito, então não posso me queixar de não saber o que ela pensava. Quando leio uma entrevista, vejo a data e tento pensar onde ela estava ou como era nossa casa. Uma pessoa comum talvez não se lembre do que viveu aos 8 anos, porque não teve a necessidade de guardar o que resta de algo que acabou. Acho que preenchi lacunas com fantasias. Mas a memória é meu tesouro.
Recentemente, você compartilhou nas redes sociais sobre a dor de ter sido separado de seus meios-irmãos, Pedro e Maria Rita (que tinham 6 e 4 anos, respectivamente), já que eles foram morar com o pai, Cesar Camargo Mariano, logo depois da morte da Elis. Por que essa memória voltou à tona agora? Fiquei muito triste com a morte da minha mãe, mas quando vi meus irmãos no quarto deles eu desabei. Foi o que mais me doeu na época. Acho que eles representavam para mim a dimensão daquela tragédia. Eu tinha 11 anos, me apeguei ao instinto de sobrevivência para seguir em frente. Busquei a harmonia. Até que aconteceu o inaceitável, então decidi falar sobre isso.
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O inaceitável é a notificação extrajudicial enviada por Cesar Mariano à Universal em abril, contra a remixagem do disco Elis, de 1973, supervisionada por você, certo? Esse imbróglio continua? A gravadora não responde notificações extrajudiciais. Fiquei chateado pela maneira como ele fez isso. É importante ressaltar que os donos do disco são a Universal e o espólio Elis Regina, que é cuidado pela família. Família não faz pirataria. Ele não era mais dessa família, estava separado quando ela morreu. Sem dizer que a Elis é muito remixada e continuará sendo. Ela sempre prezou pela liberdade artística e nós também.
A perda de uma mãe não se esquece. Como se sente hoje, 44 anos após a morte dela? Aquilo foi uma tragédia, mas o que vivi antes foi incrível. Esse é o balão de oxigênio que eu vou usar com parcimônia para o resto da vida.
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Publicado em VEJA de 28 de agosto de 2026, edição nº 3010
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