José Carlos, o "guru" da volta ao mundo

🗓️ 2026-09-12 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

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Sejam bem-vindos às Conversas do Fim do Mundo. O viajante desta semana aprendeu a andar de moto muito antes de aprender a ler e a escrever. Nascia aos quatro anos, em Angola, a paixão pelas duas rodas. Anos mais tarde, e já em Portugal, iniciou um projeto a longo prazo: volta ao mundo em etapas. Vamos conhecer esse projeto e essa volta na próxima hora. José Carlos Magdalene, bem-vindo às Conversas do Fim do Mundo.

Olá, obrigado.

Ora essa. José Carlos, conta-nos lá este projeto da volta ao mundo, que tinha nome de código 11111, é isso?

Mais ou menos. O nome de código é os Elevens e a razão foi porque ele começou precisamente no dia 11/11/11, às 11h11min.

E começou onde?

Começou em Luanda. Eu resido entre Portugal e Angola, e a minha base em Angola é Luanda, aqui em Portugal, no norte, é em Valongo. Em Luanda, naquela altura, estamos a falar em 2008, 2009, havia uma escassez muito grande de motas, não havia concessionários, não havia nada. Nós quando queríamos motas, como deve ser, tínhamos que importá-las ou daqui da Europa, ou a parte mais fácil era ir à Namíbia buscá-las, e foi o caso. Em 2010, com um grupo de amigos, resolvi ir buscar uma BMW, uma 1200 GSA, na altura, refrigeradas a óleo, e tive cinco amigos que se juntaram, fomos seis companheiros buscar as motas à Namíbia. Ir buscar a moto à Namíbia e vir direto pra Luanda, não vale a pena. Resolvemos dar um passeio, descemos até lá abaixo à África do Sul, à Cape Town, depois seguimos pela costa até, na altura, a Suazilândia, agora Eswatini. Entramos em Moçambique até Maputo. Depois de Maputo, demos a volta, voltamos a entrar na África do Sul, Botswana, Namíbia, Faixa de Caprivi, Angola e chegamos a Luanda. Eu disse: "Isto sobe-me a pouco". Foi uma voltinha muito engraçada, de seis países, mas sobe-me a pouco. Na altura, face à ligação Portugal-Angola, eu disse: "Olha, uma coisa que eu gostava de fazer, que já tinha sido desafiado pra fazer com uma alta amiga, de jipe, na altura de Portugal pra Cabo, quando eu vivia em Portugal". Eu disse: "Bem, então em vez de ser de jipe de Portugal pra Angola, vamos fazer a de Angola pra Portugal". E assim foi.

Muito bem, foi essa a primeira etapa, então, Angola-Portugal.

A primeira etapa foi de Angola pra Portugal, Luanda ao Porto, que na altura eram duas cidades minadas. Saímos de Luanda no dia 11/11 às 11h11min, em frente ao governo provincial. Acabou por ser uma viagem de Estado, porque o governo provincial é o equivalente à Câmara Municipal em Portugal. E juntámos as duas cidades, saímos de Luanda e chegamos ao Porto, à Câmara Municipal do Porto, no dia 31 de dezembro de 2011.

Portanto, dois meses, mais ou menos, de viagem.

Foi mais ou menos dois meses. Foi uma viagem de sonho, porque era a nossa primeira, particularmente a minha primeira grande viagem. Aliás, não era particularmente a minha, era de nós todos que participamos nela. O nome dos Elevens é porque nós passamos 11 países da África, éramos pra ser no início 11 motas, acabamos por ser 12 a sair de Luanda. Ironias do destino, acabamos por ser só 11 a chegar a Portugal, e daí o nome dos Elevens.

Muito bem, deixa-me adivinhar, tiveram 11 furos. Não.

Não, eu acho que tivemos mais. Eu nessa viagem, aconteceu uma coisa que pra mim foi um fenômeno, pela primeira vez eu tive três furos na mesma roda, na mesma altura. Não sei o que se passou, se tinham lançado ali uns pregos quando eu ia passar, mas tive no mesmo pneu, na mesma altura, três furos.

Pronto, condensaste os furos todos e reduziste a probabilidade de voltar a furar ao longo da viagem. Nunca mais furaste, pois não?

Não, nunca mais.

Pronto, aí está.

Por isso resolvi já pras viagens todas.

Gastaste tudo.

Gastei tudo no mesmo dia.

No mesmo dia. Boa. Então, a primeira etapa desta tal volta ao mundo foi ligar Angola a Portugal. Isto é uma particularidade, porque vocês eram 11, 11 amigos, faziam uma viagem num ano, depois paravam outro, paravam pra trabalhar e ganhar dinheiro e depois voltavam a fazer outra viagem no outro ano. Era isso?

Exatamente.

Portanto, iam alternando viagem com trabalho, é isso?

Nós quando tivemos a ideia, quando eu lancei o desafio da volta ao mundo, não foi só vir de Portugal pra Angola, a ideia era tentar fazer um continente em cada grande viagem que a gente fizesse.

Ok.

Portanto, a primeira seria a África, da ligação a Portugal, a segunda era, como não dava, porque nem nós tínhamos vida profissional, nem financeira pra sair um ano e largar toda a vida, toda a família, tudo, e andar sempre, decidimos então um ano era pra trabalhar e pra família, e o outro ano era pras viagens. E assim foi. A programação foi 2011, Luanda, Angola. Em 2013, era suposto fazermos de Luanda à China, a Beijing, só que tivemos uma dificuldade, que não nos deixaram entrar com as motas na China, portanto acabamos por contornar e demos uma voltinha e fomos até Vladivostok, até a ponta da Rússia, até o Mar do Japão. 2015, fazer Estados Unidos e Canadá. Saímos de Seattle, demos a volta pra cima, entramos no Canadá, demos a volta toda até aos Lagos de Ontário, que pra mim continuam a ser de Ontário, não passaram a ser Lagos da América.

Isso é o Trump, o Trump é que quer mudar o nome.

Exatamente. Descemos até Nova Iorque, depois descemos até New Orleans, Grand Canyon, Las Vegas e acabamos em São Francisco. Depois, em 2017, fizemos a América do Sul, saímos de Buenos Aires, da Argentina, descemos até a Ushuaia, depois começamos ao Estreito de Magalhães, depois começamos a subir entre a Argentina e o Chile, Bolívia, Peru, Equador e acabamos na Colômbia, em Bogotá. 2019 fizemos a volta à Austrália, sair de Perth, descemos, atravessamos a grande estrada, onde tem a segunda maior reta do mundo, a maior da Austrália, que são 200 e tal quilómetros de reta, que é uma loucura.

Sem buracos ou com buracos?

Não, sem buracos, inclusive tem uma pista de aviação, de aterragem, de emergência no meio, que serve de emergência, que aquilo é tão extenso, qualquer avião pode aterrar lá.

Então é ótima para os aceleras.

Exatamente. É ótima para os aceleras, mas tem um problema, é extremamente cansativa.

Por quê?

É onde vemos aqueles famosos road trains, que têm 40 e tal, 50 metros de comprimento, aqueles caminhões gigantescos. E tem uma particularidade que não é nada agradável na Austrália, é a quantidade de cangurus mortos que se vê, precisamente por causa dos road trains e dos caminhões durante a noite, eles nem param. Portanto, aquilo é sempre em frente.

E os animais são atraídos pelas luzes, não é?

Exatamente, são atraídos pelas luzes e pela umidade que o alcatrão acaba por conseguir fazer durante a noite. E eles são atraídos pelas duas situações e infelizmente é uma das partes negativas da Austrália, principalmente porque eles depois não os recolhem. Nós vemos cadáveres de cangurus acabados de falecer, mas também vemos cadáveres que já lá estão há algum tempo, que é uma das coisas que me chocou um bocado. Demos a volta à Austrália toda também, e para já foi um standby, porque entretanto veio o Covid. Nós estávamos na altura para fazer a parte da Ásia, veio o Covid, não fizemos viagens absolutamente nenhumas. Há dois anos, os meus companheiros dessas aventuras da volta ao mundo resolveram fazer a Ásia. Eu estava para ir, mas infelizmente, por razões pessoais e familiares, não tive hipótese absolutamente nenhuma de fazer essa viagem. Eles ainda fizeram Singapura, Malásia, Vietname, Laos, Camboja. Entretanto, tenho feito uns passeios aqui pela Europa toda. O ano passado foi o Reino Unido todo e vou fazendo.

Muito bem. Portanto, falta-te só a etapa asiática para concluíres a volta ao mundo, Zé Carlos.

A volta ao mundo, na realidade, eu já dei. Porque se considerarmos que a Rússia também faz parte da Ásia, o Cazaquistão, por onde eu já passei. Agora, a realidade que eu próprio digo é a Ásia, a verdadeira Ásia, é precisamente essa lá embaixo, a Malásia, Vietname, Laos, Camboja, e essa eu quero-a fazer e estou a ver se me organizo para mais um ano, dois, o máximo, fazê-la.

Vamos a isso. Olha, no total, tens ideia de quantos quilómetros percorreste nesta volta ao mundo, por etapas ou não?

Sinceramente, não faço a mínima ideia quantos quilómetros é que eu tenho. Como eu costumo dizer, sei que tenho mais de 600 mil, 700 mil quilómetros à vontade. Não consigo ver, porque as motas que eu vou tendo, vou trocando desde os quatro anos de idade, que ando de mota e desde os quatro anos de idade que tenho mota, portanto, é impossível eu saber quantos quilómetros. Sei que tenho neste momento 66 países, entre países, principados e estados, porque há questões dos Mônacos, dos Luxemburgos, se são países, se não são, mas considerando que são, tenho 66 países atravessados neste momento.

Ok, muito bem. Olha, suponho que te relaciones muito com pessoas que viajam de mota. Tenho aqui uma dúvida, enfim, pode ser só um detalhe, mas gostava de explorar isto. Primeira etapa desta viagem de volta ao mundo, Angola-Portugal, é diferente. A maior parte dos viajantes europeus faz ao contrário, começa na Europa e vai até lá abaixo. É diferente fazer ao contrário, começar na selva africana e depois ir até a savana africana, depois a selva e depois o deserto africano, muda alguma coisa ou nem por isso?

Eu acho que muda no sentido, eu talvez como africano, porque eu nasci em Angola, e ao viver ainda muito tempo em Angola, acho que muda uma coisa, é estou mais habituado à África do que a maior parte das pessoas que saem da Europa e vão para a África.

Ok. Tu ao fazer Angola-Portugal, estás tu a deixar o teu país para trás, é isso?

Não é deixar o meu país para trás, é considerar que estou a entrar numa incógnita, que é a África, porque a África é sempre uma incógnita, mas é uma incógnita que eu acabo já por conhecer e dominar mais ou menos. Uma pessoa que vive em Portugal, por exemplo, e que de repente vá, como o João Luís, por exemplo, foi dos primeiros grandes viajantes que eu conheci.

Esteve cá semana passada.

Eu conheci-o no Dakar, quando fiz o Dakar em 2006. Mas das conversas de mota e o encontro de motas que nós tivemos foi em Cape Town em 2010. E o João Luís, quando foi daqui para lá, foi para uma aventura total, porque ia para a África, que ele não conhecia aquela zona da África, não sabia como é que funcionava. Esta é a grande diferença, eu já conheço como é que a África funciona. Os medos que as pessoas têm quando vão para o continente africano, é o medo que eu não tenho, porque vivo lá.

Ok.

Portanto, é a única diferença essa. Tirando essa, não há diferença nenhuma.

E tu tens mais medo, em África não tens medo, e nos outros continentes, tens andar de mota?

Eu nunca tive medo em lado nenhum. Antes pelo contrário, eu acho que as pessoas às vezes fazem os filmes da África, das Américas do Sul. Eu atravessei a Líbia dois meses depois da morte do Kadhafi. Orgulho-me de ser das poucas pessoas do mundo, mas mesmo muito poucas, são 20 e tal pessoas que fizeram isso nos últimos 20 anos, atravessar a Líbia de uma ponta à outra. E passar da Líbia dois meses depois da morte do Kadhafi, em que nós no Egito estivemos presos na fronteira do Egito não sei quantas horas, porque não nos queriam deixar entrar porque diziam que aquilo estava em guerra. E de repente, os líbios entram por ali adentro armados até aos dentes pra nos levarem pro outro lado. E nós entramos e a primeira coisa que nos fizeram foi pôr Kalashnikovs, metralhadoras antiaéreas nas mãos pra nós dispararmos. Tudo aquilo foi uma coisa de loucos pra nós.

Mas qual era a ideia, desculpa, qual era a ideia de vos pôr a disparar?

A loucura da guerra vivia-se. Era normal as mãezinhas tirarem fotografias aos filhos com as pistolas na mão. Era normal nós passarmos nos controles que havia ao longo da estrada e eles dispararem aquelas pickups com as antiaéreas em cima e com as metralhadoras. Era normal eles dispararem, porque pra eles era a festa. Nós aqui lançamos fogo de artifício em Portugal, mas eles lá disparavam.

Kalashnikovs.

Exatamente, eu disparei numa antiaérea.

Mas deve ser assustador atravessar um país onde há tantas armas à solta.

É isso que eu ia dizer. O choque quando entramos na fronteira foi assustador, ao ver aquelas armas todas. Nós em Benghazi ficamos num hotel, éramos os únicos hóspedes que estávamos na baía de Benghazi. E quando eu ia à janela ver, aquilo era um aparato militar a toda a volta, porque eles estavam ali pra nos proteger, basicamente. Eu passei o Natal em Misrata, na Líbia, noite de 24 pra 25. Foram nos mostrar o museu dos espólios de guerra que eles tinham, o fulano que era o comandante das forças rebeldes esteve conosco lá. Mas a verdade é uma, é que eu atravessei a Líbia de uma ponta à outra, em todo este ambiente, mas se me perguntarem a mim: "Tiveste medo?" Com toda a sinceridade, não tive medo nenhum. Estava a correr um risco, todos nós sabíamos que corríamos, mas eu acho que hoje em dia em Portugal, andar na estrada e por aquilo que nós temos visto ultimamente, se calhar também todos corremos um risco.

Isso é um facto.

Por isso, eu nunca senti medo em lado nenhum que andei até hoje, a não ser, não foi medo, foi receio, na altura assustei-me um bocado, foi nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos foi o único sítio na zona do Texas.

Vamos começar por aí a segunda parte, por esse medo nos Estados Unidos, no Texas, mas pra já vamos abrir o álbum de viagem. José Carlos Madeleine, guardas contigo algum objeto que tenhas trazido das tuas viagens e que seja especial, claro?

Tenho um objeto que me acompanha todos os dias, está ao meu peito, é uma medalha que no Egito, como eu disse, nós atravessamos aquela zona em plena primavera árabe e estivemos em Assuã parados um tempo e um dos nossos companheiros, que é o Nicolas Mancilha, um espanhol, fez questão de fazer umas medalhas que têm os hieróglifos egípcios num lado com o nosso nome e do outro lado a dizer Eleven Up, que era o nosso nome. Essa medalha é uma medalha em prata que eu ainda hoje tenho no meu fio e que me acompanha desde 2011 até hoje. É a marca da minha viagem que eu tive, a primeira grande viagem foi essa. E indiscutivelmente, por ter sido oferecido por um colega e um amigo de viagem, tem muito significado pra mim.

Muito bem. Vocês são sempre 11? São sempre os mesmos 11 desde 2011 ou não, José Carlos? A fazer esta volta ao mundo em etapas?

Não. Em 2011 nós nem éramos 11, éramos mais, éramos 12 motas, mas depois tínhamos dois carros de apoio, iam pessoas nos carros de apoio também, uma médica. No total éramos 18 pessoas. Mas depois, por exemplo, quando foi da Rússia, já só éramos seis, já não tínhamos carros de apoio, só fomos seis. Nos Estados Unidos já foram outros diferentes, houve pessoas que não tinham feito, que foram, houve outros que não foram. Portanto, vai variando, é um grupo que vai variando, não somos um grupo fechado. Aliás, nós não nos consideramos um motoclube, nem nos consideramos nada. Hoje em dia eu já considero que é a família. Todos nós temos as nossas alcunhas. Eu sou o guru porque vêm todos atrás de mim, sou o mentor deste projeto todo. Mas somos uma família a mais. Mas não é fixa, nem é fechada. Na próxima viagem que eu tiver, que eu estou a planear para a Ásia, se for pra fazer com alguém que não pertença ao grupo, não está fechado e não dizemos que não possa ser feito.

Ok, muito bem. Há alguma dificuldade acrescida em viajar com grupos de moto, José Carlos?

Há vantagens e há desvantagens. É uma das conversas que eu falo muito com os chamados solitários, como o João Luís, que eu digo, eu viajo às vezes eu próprio sozinho e sem ninguém e outras vezes nestes grupos. A vantagem que eu vejo é que nós não estamos sozinhos. E eu acho que as viagens, por muito bom que seja andar de moto, o final do dia de convívio e de histórias do dia que nós passamos e de conversa entre nós, é extremamente agradável. Eu nas viagens não gosto de almoçar, porque acho que o almoço é uma perca de tempo, mesmo porque depois dá-nos sonolência a seguir ao almoço. Portanto, eu gosto de à noite sim, chegar cedo, apreciar o sítio onde nós vamos dormir e ter uma conversa.

Fazer uma espécie de síntese do dia, não é?

Exatamente. E as histórias, contar coisas que eu vi.

Com uma boa refeição

Com uma boa refeição. Às vezes não é possível ter uma boa refeição, mas sempre que for possível, sim. Mas essencialmente é que nós quando vamos andar de moto, só temos dois olhos. Os dois olhos não conseguem ver tudo. E muitas das vezes eu vejo coisas durante o dia de viagem que os meus colegas não viram e vice-versa. Portanto, essa partilha que nós temos, eu acho que é muito engraçada e cada um vive a viagem à sua maneira, e é muito engraçado. Agora, para fazer viagens com pessoas, tem que haver uma coisa que é crucial: é realmente haver uma boa ligação entre todos, porque se não houver, é uma viagem estragada. Eu estar com alguém que não me agrade, que não goste da pessoa ou que ela não goste de mim, ou que tenha gostos completamente diferentes dos meus, pode estragar a viagem completamente. Esta viagem da volta ao mundo, é por isso que eu digo, nós já somos uma família. Os filhos mais velhos dos meus amigos, que começaram esta aventura comigo, que hoje estão na faculdade, ainda me cumprimentam por tio e dão-me um beijo na cara. Esta é a relação que nós temos, os meus filhos fazem a mesma coisa com eles. Isto é a relação que nós temos e isso é crucial pra ser possível, porque nem tudo nas viagens corre bem.

Claro.

Às vezes as coisas correm mesmo muito mal e temos que ter uma união muito grande e por muito bom que o líder que eu seja, não consigo liderar tudo, porque os egos são a parte mais difícil de gerir.

Vamos falar disso também na segunda parte das "Conversas do Fim do Mundo". Fazemos aqui uma curta pausa e regressamos já a seguir. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte das "Conversas do Fim do Mundo". Esta semana estamos à conversa com José Carlos Madaleno, luso-angolano, motociclista. Ele tem um projeto montado que é fazer uma volta ao mundo em etapas. Falta-lhe aqui a Ásia do Sul, digamos assim, esta zona do Vietname, Laos, Cingapura, Malásia, Tailândia, enfim, aquilo que nós vulgarizamos ou que chamamos de Sudeste Asiático. José Carlos Madaleno, no final da primeira parte disseste-nos que viveste uma situação de medo nos Estados Unidos, no estado do Texas. O que é que aconteceu? Apareceu por lá algum cowboy aos tiros? Não.

Literalmente.

Foi?

Parece que adivinhaste.

A sério? Juro que disparei pro ar. Esta foi mesmo pro ar.

Foi pro ar, mas acertaste em cheio.

Acertei. Então.

Nós basicamente paramos numa bomba de gasolina. Nós, nos Estados Unidos, saía mais barato alugar lá as motas do que mandar as nossas motas, portanto, na altura andou-se a pôr e alugámos as Gold Wings. E nós éramos à volta de 10 motas. Sou sempre eu que venho à frente e quando entro na bomba de gasolina, sou o primeiro a chegar, vem nove motas atrás de mim. E quando estou a sair da moto, olho pra frente e está um fulano, não era pelo tamanho dele, era um fulano extremamente pequeno, mas de calções, chapéu de cowboy e com duas pistolas tipo colt, tipo cowboy mesmo dos filmes de western.

Sim, à cintura.

À minha frente, a olhar pra mim, com as mãos assim de lado pra as pistolas e com uma cara trancada, fechada, e eu assustei-me na altura e eu disse: "Espera aí". Levantei as mãos, pus as mãos no ar e disse: "Calma", e fiz-lhe sinal. "I'm here only to refuel, just petrol." Só quero gasolina, não quero mais nada, calma. E pronto, ele esteve ali, manteve aquela cara fechada, nós começamos a abastecer. Entretanto, conforme abastecemos, fomos pra dentro da bomba de gasolina pra pagar. Ele depois que começou a perceber que nós não estávamos ali pra fazer mal a ninguém, aproximou-se e eu vim falar com ele, mantive conversa com ele, a perguntar por que era aquilo, aquele aparato todo. E ele disse: "Ah, porque isto aqui, as motas aqui nos Estados Unidos e nesta zona é um sinal de gangues. E portanto, nós já temos criado muitos problemas e eu estou aqui pra defender a minha mãe". E a mãe dele era a senhora que estava na bomba de gasolina, na caixa, era uma senhora com 80 e tal anos.

Ok.

E eu disse: "Epá, se calhar a melhor maneira pra defenderes a tua mãe era mandares a mãe pra casa reformada, ires pra lá tu trabalhar, em vez de estares aqui com a pistola". Acabou por ser uma situação caricata, mas que no princípio, o que é isto, não é?

Ok, muito bem. Olha, o que é mais perigoso numa viagem ou numa longa viagem de moto, José Carlos Madaleno?

Olha, o mais perigoso é que nós nunca viajamos sozinhos. Quando eu digo nós não viajamos, nós de moto temos um problema. Somos o para-choque, somos o capô, somos tudo.

Ah, ok.

Nós temos que conduzir pelos outros e não por nós. E contrariamente ao que muita gente possa pensar que andar de moto é perigoso, eu já ia sendo atropelado no Quênia por uma girafa.

Sério?

Não era eu que ia atropelar a girafa, era a girafa que me ia atropelar a mim.

Ok.

Portanto, este é o grande perigo que nós temos ao andar de moto, é os outros condutores. Na Tanzânia fui posto fora da estrada três vezes ou quatro vezes.

Mas posto como?

Porque ele vinha fora de mão e vinha ultrapassar um carro e se eu não saísse pra fora da estrada, ele levava-me, que eles ali não há piedade. Na Bolívia tive uma situação idêntica também. Também fui posto fora da estrada de um caminhão que vinha completamente fora de mão. Portanto, esses são os riscos que eu considero realmente ter. Nós perdemos um colega na viagem de Angola pra Portugal, na Tunísia, na única autoestrada que nós tivemos Logo na primeira etapa, na única autoestrada que nós tivemos, uma armadilha que estava na estrada, infelizmente, vínhamos no último dia da África, autoestrada, relax, vínhamos a 120 km/h, numa armadilha. Ele, infelizmente, não conseguiu segurar a moto e acabou por falecer. Esses são os riscos que nós temos. Aquela armadilha que nunca na vida devia estar numa autoestrada.

Quando dizes armadilha, estás a referir-te especificamente a quê?

É muito simples. As pessoas que sabem o que é que são as juntas de dilatação das pontes, que é aquelas coisas que geralmente estão transversais, e quando nós passamos de moto, sentimos o abanão da moto. Agora é imaginarem o que é uma junta de dilatação com cerca de cinco metros de comprimento por um de largura no meio da faixa de rodagem, portanto longitudinalmente. Estava a chover aquela chuva miudinha, quando as motos entram ali, elas desequilibram completamente. O problema não é quando entram, é quando saem, quando voltam a agarrar o alcatrão, leva-se aquele coice. Eu passei por lá e senti o coice da moto, não sei como é que consegui segurar a moto. Porque aquilo era por baixo de um viaduto, era uma zona de muita chuva e eles resolveram fazer aquela drenagem ali, que é um verdadeiro crime. E é um crime, porque posso vos dizer que o ano passado passei pela mesma zona e ela ainda lá está, é um crime que ainda existe ali. Entre Sfax e Túnis, na autoestrada. Esses são os riscos. Os outros riscos eu não considero que são riscos, as outras situações são situações que nós vamos vivendo e conforme a situação vamos ter que nos adaptar ou não.

Vai-se servindo, não é? Então vamos passar aqui em revista. Fizeste Angola-Portugal, Portugal-Vladivostok, Estados Unidos e Canadá, a América do Sul, a Austrália. Já fizeste outras viagens. Qual é a estrada mais bonita que conheces até hoje para fazer de moto, José Carlos Madeleine?

Olha, eu há bocado estava a falar contigo em off e disse uma brincadeira que se calhar não conhecia Portugal tão bem como conheço alguns países. Agora, indiscutivelmente, começo por Portugal, Portugal tem estradas fantásticas. É raro o sítio que não tive uma estrada que gostei. É, pra mim, extremamente difícil dizer assim: "Olha, a estrada foi aquela", porque eu acho que cada uma tem a sua beleza. Na Noruega, na zona dos fiordes, Trollstigen, é uma estrada fantástica. Nos Estados Unidos passamos por estradas fantásticas, na Austrália, apesar daqueles desertos terríveis, naquela zona de Cairns e em Uluru, passamos estradas fantásticas. Agora, eu considero que a minha viagem, que mais me marcou pelas paisagens, foi à América do Sul, indiscutivelmente.

América do Sul.

América do Sul, toda aquela zona da Route 3, da Route 40, não tanto, mas da Route 3, entre a Argentina e o Chile, por ali acima, a zona do Salar do Uyuni, Machu Picchu, todas essas paisagens são paisagens que nunca mais na vida me vão passar ao lado e que nunca mais consigo esquecê-las.

Mas por quê, José Carlos? Descreve-as.

É impossível. Há imagens que são impossíveis, por exemplo, o Salar do Uyuni. Estares dentro do Salar do Uyuni, fazer 70 km em linha reta dentro de um salar, é só pra as pessoas imaginarem a dimensão que aquilo tem. Nós costumamos ver aquelas fotografias da praxe, que é o reflexo que aquilo faz quando tem um bocado de água, da mistura das nuvens. Mas a realidade daquilo, são das paisagens que é impossível descrever, porque andar 70 km dentro do salar e a única coisa que se vê é sal. As pessoas dizem assim: "Mas que piada é que isso tem?" É fascinante. É fascinante, tu chegas a um ponto que estás perdido, nem sabes onde é que estás. Se não tiveres uma bússola ou GPS, pra onde é que tu vais, depende de como é que estiver o dia, mas há dias que tu não consegues ver o fim. Chegar ao lago de Malawi e de repente estares de noite e ouvires: "Mas eu estou no mar? Não, mas eu estou no meio da África, isto não é mar". E no dia a seguir acordas e percebes que tens o lago Malawi, que tem ondas de um metro de altura, e é um lago no meio da África. Chegares ao lago Baikal, na Rússia. É aquilo que eu digo, tens paisagens que te marcam de tal maneira que só vivendo-as é que nós conseguimos dizer: "É lindo".

Ok, pronto. E é um bom statement. Tu quando viajas de moto, vais parando, vais desfrutando dos lugares ou és daqueles motards que quer fazer a tirada e o máximo de quilómetros possível num dia, José Carlos?

Não, depende do conceito da viagem. Há viagens que infelizmente é ir daqui pra ali e temos que fazer aquilo. Nós, por exemplo, às vezes perguntam-me quantos quilómetros é que eu já fiz de moto. Eu digo assim: "Eu não sei quantos quilómetros foi o máximo que fiz. Já fiz mil e muitos quilómetros, sem dúvidas nenhumas. Agora, o que eu sei dizer é que já estive 48 horas a conduzir a moto sem dormir".

Seguidas?

Seguidas.

Uou! Onde?

No Quénia, na altura era a chamada Estrada do Moial, que era das estradas mais difíceis, eram 500 km que não estavam alcatroados. Na famosa estrada que existe, Cape Cairo, que é uma estrada que é de Cape Town até ao Cairo, toda ela é alcatroada. A única que não era naquela altura era precisamente a estrada do Moial, que eram 500 km. Nós chegamos lá numa altura de chuvas terríveis, nós ficamos presos numa aldeiazinha de Turbie, com uma chuva terrível, nem pra frente, nem pra trás Quando chegamos a Moyale, que é a fronteira com a Etiópia, estávamos atrasadíssimos e tínhamos um colega que tinha que chegar a Adis Abeba para apanhar o avião por questões profissionais. Então, nós chegamos a Moyale e quatro de nós seguimos viagem diretos. Nós estivemos 48 horas a conduzir, passamos a noite toda ainda na estrada de Moyale. Depois chegamos a Moyale, nasceu o dia, nós arrancamos, a noite a seguir, ainda em viagem, chegamos de madrugada a Adis Abeba. Andamos dois dias a conduzir.

Uau, sem ir à cama.

Mas ele conseguiu chegar e eu depois também consegui ficar um dia inteiro a dormir.

Um dia inteiro mesmo?

Um dia inteiro. Nós deitamos de manhã e eu só acordei no outro dia à tarde.

Caramba, esses rins deviam estar desfeitos.

Estavam, completamente.

Quarenta e oito horas em cima de uma moto é um absurdo.

É muito e se me perguntarem: "É esse o prazer de andar de moto?" Não, mas teve que ser o prazer de andar de moto. Eu também organizo viagens de motos pra pessoal e quando eu organizo, faço etapas de 200, 300 km pra permitir que as pessoas apreciem o que vamos fazer e temos as paragens pra ver os miradouros e isso tudo. Há pessoas que fazem viagens, por exemplo, eu saí, eu fiz a Angola com 30 e tal, um mês e meio, sensivelmente, e nós temos pessoal que demora três, quatro, cinco meses a fazer. É óbvio que eles gozam muito mais a viagem do que eu gozo. Isso é indiscutível, porque eles são capazes de estar dois, três dias parados no sítio que gostam. Agora, o tempo não pode ser desculpa. Eu não vou deixar de fazer uma viagem de moto porque só tenho 15 dias pra fazer. Houve uma altura, tive um problema de saúde, foi das poucas alturas que eu não pude andar de moto, o médico proibiu-me de andar de moto, e quando eu fui ao médico, ele virou-se pra mim e disse: "Olha, agora preciso que faças uma viagem pra ver como é que estás". Eu, ok, cheguei em casa e disse à minha mulher: "Amanhã vou arrancar pra Noruega". E a gente foi de Portugal pro Cabo Norte. Só que nessa primeira viagem, eu não consegui chegar ao Cabo Norte. Na zona da Finlândia, estava a 200 e tal, 300 km do Cabo Norte, apanhei uma tempestade de neve e tinha que estar lá quatro dias para conseguir acalmar e esperar que a tempestade passasse pra poder subir. Eu não tinha esses quatro dias e tive que me vir embora.

Isso é quase morrer na praia, não é?

E foi, na altura, mas no ano seguinte fui lá outra vez e consegui ir.

Muito bem, mas já te aconteceu ficares retido em países?

Já me aconteceu. Além dessa situação do Quênia que nós tivemos, tivemos a situação da passagem do Egito pra Líbia, que também vimos muito complicado, estávamos a ver que não nos deixavam mesmo passar. Foi a fronteira que nós passamos mais tempo, foi uma coisa horrível, em cima estava uma tempestade de neve. Tive esta situação de não conseguir ir ao Cabo Norte e tivemos a situação quando era para irmos pra China e acabamos que não indo, porque não nos deixaram entrar com as motos e nós demos a volta e seguimos. Isto é sempre as situações. Como já tive viagens marcadas pra arrancar, nós tivemos uma viagem praticamente já tudo marcado pra arrancar na altura pra fazer da Índia até Portugal, e acabamos por não poder fazer por causa das guerras e dos conflitos no Paquistão. Estes são os problemas que nós, viajantes, temos que estar preparados.

É o mundo, não é?

É o mundo, infelizmente.

Muito bem. Há algum país onde tu queiras muito viajar de moto, ô José Carlos?

É a Ásia. Mais uma vez, não é nenhum país.

China e todos aqueles países no sul da China, é isso?

A China, não tenho muito prazer em revisitar, porque eu já andei muito tempo na China, porque eu, além da paixão pelas duas rodas de lazer, fiz competição durante muito tempo e fui piloto oficial de rallies de uma empresa chinesa. Portanto, andei algum tempo pela China. E se me perguntarem se é um sítio que tenho prazer em andar de moto, não. Gostava de andar de moto, como eu digo, e quem me conhece sabe, a frente da minha moto é as bandeirinhas, é uma das imagens de marca que eu tenho, as bandeiras pelos países onde vou passando de moto. E como é óbvio, adorava ter lá uma bandeira da China pra dizer que andei de moto na China. Infelizmente, ainda não foi possível. Vietnã, Laos, Camboja, Malásia, são países que eu alguns já conheço, sem ser de moto, e esses sim, gostava de voltar lá para andar de moto.

Vá lá, marca isso. Vamos embora.

Está quase.

Está quase. Estamos a chegar ao fim, José Carlos, vamos fazer checkout?

Uhum.

Vamos lá.

Vamos embora.

Então vou pedir-te para completares as habituais frases: na minha mala vai sempre...

Cordas de sisal.

Então, por quê?

As cordas que nós no Quênia nos safaram pra podermos pôr as motos, pra sair com as motos do sítio onde estávamos e eu ando com elas pra me lembrar sempre que há sempre uma maneira de ultrapassar as dificuldades.

Mas de onde é que tinham de sair e como é que usaram as cordas?

Na tal aldeia de Turbi, nós só conseguimos com uns caminhões pra passar uma determinada fase e a maneira que eles tinham de prender as motas era suspensas. Não eram as motas amarradas, eram suspensas com cordas de sisal. E que foi muito complicado, mas teve piada no fim. E eu guardei essas cordas precisamente pra me lembrar sempre que as dificuldades conseguem ser ultrapassadas.

Voltaste a usá-las ou nem por isso?

Não, felizmente não. Se calhar é por isso. No dia que eu deixar de andar com elas na mala, se calhar vou ter que as usar.

É sempre assim. Só fazem falta quando não estão conosco. Olha, a viagem com mais peripécias que realizei até hoje.

De Angola para Portugal, sem dúvida.

Foi por ser a primeira, era mais dada a erros ou não?

Por tudo que se passou, a plena Primavera Árabe, a situação das chuvadas que apanhamos no Quénia, o falecimento do José Luís Carvalho. Tudo foi indiscutivelmente a viagem que mais peripécias nós tivemos.

Isso é batismo de fogo.

Foi. Exatamente.

O carimbo de passaporte ou o visto mais difícil de obter até hoje?

Líbia. Indiscutivelmente, mais de cinco horas na tal fronteira do Egito com uma tempestade de areia que não nos queriam deixar entrar, mas conseguimos. Não foi o visto, porque foi mesmo a entrada da fronteira, porque não havia vistos naquela altura. Eu considero aquilo como um visto para nos deixar entrar, a autorização para nos deixar entrar.

A recordação de viagem mais cara?

A minha viagem mais cara não é financeira, é ter perdido o meu amigo José Luís Carvalho de Angola para cá. Foi a mais cara de tudo, porque não há dinheiro que pague a vida humana.

É verdade.

Indiscutivelmente, foi a minha prenda mais cara, que não foi prenda nenhuma, é a recordação mais cara.

A refeição mais estranha, qual foi?

Em Turbi, nessa aldeiazinha que ficamos, que só havia carneiro.

No Quénia.

Só havia carneiro para comer. E eu detesto carneiro. Então estar num restaurante a ver todos a comerem carneiro e eu a comer bolachas de água e sal, aquilo foi um bocado esquisito. Foi a refeição mais estranha que eu tive até hoje, porque estavam todos felizes a comer o carneiro, nós estávamos cheios de fome, mas como eu era o único que literalmente detesto carneiro, fui comer bolachas de água e sal.

Durante uma semana, não é? Porque ficaste retido no Quénia durante uma semana.

Eu estive durante uma semana a comer chapatis, que é o pão deles de lá, ovos, porque galinhas havia muitas, mas as galinhas não podíamos matar porque tinham que fazer os ovos. Eram ovos, eram chapatis e bolachas de água e sal. Era o que havia.

Ficaram retidos por? Eu acho que ainda não tinha dito.

Pelas chuvas. Era uma zona na chamada Estrada de Moi Al, nem para frente, nem para trás, pontes caídas, tudo, e nós ficamos numa aldeiazinha acampados numa casa que era gerida por viúvas. A casa era tão boa, que eu estava a dormir com a tenda dentro da casa. Os banhos eram tomados com as águas que nós aproveitávamos da chuva. Foi uma semana que acabou por ser muito gira. Hoje digo que foi muito gira, mas na altura sofremos muito porque não sabíamos. Nós chegamos ao ponto de estarmos a ficar sem mantimentos, sem saber o que ia acontecer, porque estava a se esgotar tudo.

Caramba. Emagreceste nessa semana?

Emagreci, indiscutivelmente. Aliás, eu nas viagens das motas emagreço sempre, que é uma coisa boa para fazer.

Olha, gostava de viajar com?

Com o meu pai. O meu pai, tive o prazer de tê-lo como meu companheiro na viagem dos Estados Unidos e Canadá.

Boa.

O meu pai sempre foi um dos meus fãs incondicionais das minhas viagens de moto e sempre me apoiou. E quando foi o projeto Estados Unidos e Canadá, ele a primeira coisa que perguntou: "Vão levar carro de apoio nessa?" E eu disse: "Vamos." "Então eu vou no carro de apoio." E foi. Fez a viagem toda, infelizmente já faleceu, e era uma pessoa que eu adorava viajar com ele pela experiência, por ser o meu pai e pela relação que eu tinha com ele.

Boas memórias, então. Boa, isso é bom.

Exatamente.

José Carlos, chegamos ao fim. Qual foi a música que escolheste para fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana?

"Hotel California", dos Eagles, porque além de ser a minha música de sempre favorita, no fundo, é a música que eu escuto sempre que chego ao fim do dia de uma viagem de motas, porque cheguei ao meu hotel, welcome to the Hotel California.

Boa.

Naquele dia, posso estar na China, na Rússia, no Quénia, na Bolívia, seja onde for, mas é o meu Hotel California daquele dia.

Muito bem. Então olha, José Carlos, planeia lá essa viagem à região sul do continente asiático para fechares geograficamente, pelo menos, esse teu objetivo, que era ir a todos os continentes e ir nessa volta ao mundo. Boas viagens de mota. Foi um gosto receber-te aqui. Muito obrigado.

Obrigado, Leo. E espero vocês estarem presentes no próximo.

Na próxima viagem?

Na próxima aventura da Ásia.

Na próxima aventura. Vamos a isso. Eu vou de bicicleta.

Ora, pronto.

Mas tens que esperar por mim. Muito.

Não faz mal.

Um grande abraço, José Carlos.

Um abraço e obrigado.

Obrigado. "Hotel California" a fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana. Já sabem, estamos de regresso daqui a oito dias. Sejam bons e boas viagens.

She calls bands. How they dance in the courtyard, sweet summer sweat. Some dance to remember, some dance to forget. So I called up the captain, "Please bring me my wine." He said, "We haven't had that spirit here since 1969." And still those voices are calling from far away. Wake you up in the middle of the night just to hear them say. Welcome to the Hotel California. Such a lovely place. Such a lovely place. Such a lovely face. They're living it up at the Hotel California. What a nice surprise. What a nice surprise. Bring your alibis. Mirrors on the ceiling. Pink champagne on ice. And she said, "We are all just prisoners here of our own device." And in the master's chambers, they're gathered for the feast. They stab it with their steely knives, but they just can't kill the beast. Last thing I remember, I was running for the door. I had to find the passage back to the place I was before. "Relax," said the night man. "We are programmed to receive. You can check out any time you like, but you can never leave."