Droga, violência e uma bala perdida. Juntas de Lisboa pedem mais segurança na cidade
Uma turista baleada, em plena luz do dia, na rua mais icónica da Baixa Pombalina, em Lisboa. O incidente ocorrido esta segunda-feira na Rua Augusta, que, ao que tudo indica, terá resultado de uma bala perdida, veio relançar o debate sobre o aumento da insegurança sentida em determinadas zonas da capital. Ouvidos pelo Observador, presidentes de juntas do centro histórico de Lisboa denunciam isso mesmo e exigem medidas para travar o problema.
“O nível de insegurança na freguesia — não só na Baixa da cidade — tem aumentado. Essa é a perceção quer da junta de freguesia, quer dos moradores, quer dos comerciantes”, diz ao Observador Maria João Correia, presidente daquela junta de Santa Maria Maior. A autarca socialista conta que têm ocorrido “alguns episódios com recurso a arma de fogo” e diz que o que aconteceu na segunda-feira só “vem reforçar” aquilo que o executivo da freguesia vem dizendo há já algum tempo.
Depois de ter sinalizado a sua preocupação com o aumento da insegurança há quase meio ano, a presidente da junta de Santa Maria Maior ainda continua à espera de uma resposta. “A junta de freguesia, desde março, solicitou uma reunião ao ministro da Administração Interna e ao presidente da Câmara, em relação à qual, até à data de hoje, não obtivemos resposta. Porque, de facto, aquilo que temos vindo a assistir nos últimos meses é um aumento desta criminalidade [violenta].”
Em outubro de 2024, o Observador publicou um raio-X aos pontos mais problemáticos da capital. Nessa altura, das 24 freguesias de Lisboa, havia pelo menos 15 com pontos de preocupação identificados pela polícia — que oficialmente não revela essa informação para não criar estigmas. As “áreas quentes” da capital dividiam-se em três grandes categorias: zonas de grande aglomeração, zonas de diversão noturna e zonas com ligação ao tráfico e consumo de drogas.
A freguesia de Santa Maria Maior já estava sinalizada pelo número de crimes contra a propriedade, furtos por carteiristas, roubos (por oportunidade ou por esticão) e venda ambulante, nomeadamente, de droga falsa (“louro”). Também o tráfico e consumo de drogas preocupavam as autoridades.
A bala perdida que atingiu o abdómen de uma mulher sueca de 40 anos terá tido origem num desacato entre dois grupos referenciados por se dedicarem à venda de louro prensado (ou produtos semelhantes), uma prática sinalizada há vários anos na capital e que serve para mascarar o tráfico de droga. A presidente da junta de Santa Maria Maior conta que este não é o primeiro episódio de violência a que assiste entre vendedores deste produto.
“Já diversas vezes existiram situações de confronto entre os próprios. Nunca houve uma situação, pelo menos que eu tenha conhecimento, deste nível de violência. Mas como em qualquer situação de tráfico de droga, às vezes há desentendimentos entre os próprios”, afirma Maria João Correia.
A socialista acredita que é necessária uma alteração à lei para criminalizar a venda de louro prensado, que é vendido, nomeadamente a turistas, enquanto haxixe. “Isso é fundamental. Há aqui uma lacuna muito grande nesta matéria”, acrescentou, em declarações ao jornal Público.
Também a polícia pediu a criminalização da venda deste e de outros produtos, na sequência do sucedido na segunda-feira. “A PSP já fez diversas propostas de alteração legislativa para fazer face a este fenómeno da venda de louro prensado, pó de talco, gesso e outros produtos que simulam estupefaciente, de forma a conferir enquadramento e segurança jurídica à atuação da PSP, atendendo ao vazio legal atualmente existente”, afirmou esta força de segurança em resposta à agência Lusa esta quinta-feira.
Para lá desta questão, Maria João Correia quer esclarecer junto de Carlos Moedas e Luís Neves quatro aspetos principais, sendo o principal a razão para a implementação de videovigilância na freguesia “ainda não ter avançado”. Em segundo lugar, assinala que “nunca obteve uma resposta” na sequência do “levantamento exaustivo” sobre a falta de iluminação pública que a junta realizou.
A autarca de Santa Maria Maior também procura respostas para conseguir lidar com o consumo de droga e a aglomeração de pessoas em situação de sem-abrigo, que considera ser uma “problemática instalada” na freguesia. Por fim, levanta dúvidas sobre uma medida anunciada por Moedas durante a última campanha eleitoral. “Não sabemos se vai haver guardas-noturnos, quando é que vai haver, se já existe regulamento, se não existe.”
Autarca responsável pelo Bairro Alto fala em “sentimento de insegurança real”
Maria João Correia não é a única presidente de junta do centro histórico que demonstra preocupação com a segurança em Lisboa. A responsável máxima pela junta de freguesia da Misericórdia — que abrange zonas de animação noturna como o Bairro Alto, o Príncipe Real ou a Rua Cor de Rosa — diz ao Observador que tem observado uma “sequência de episódios graves”, que “a par do aumento do tráfico visível e dos focos de tensão ligados à vida noturna, fundamenta o sentimento de insegurança real“.
Carla Almeida, também do PS, não se refere apenas à bala perdida que atingiu uma turista na Rua Augusta, mas também ao homicídio com recurso a arma branca de uma mulher de 45 anos por um colega de casa de 29 anos, na freguesia da Misericórdia na semana passada. A presidente de junta do PS exige uma “resposta imediata e musculada“, lembrando que os desafios do centro histórico são transversais e que “a criminalidade não conhece fronteiras administrativas”.
A autarca elogia o trabalho desenvolvido pela PSP, nomeadamente pela 3ª Esquadra do Bairro Alto e a 1.ª Divisão Policial de Lisboa (Rua da Palma), mas a escassez de efetivos “torna a presença policial praticamente invisível para responder à pressão contínua, traduzindo-se num trabalho inglório para os agentes no terreno”. Carla Almeida reclama mais efetivos para a polícia de proximidade da esquadra do Bairro Alto, para que possam atuar de forma “preventiva e dissuasora“.
Nesse sentido, a autarca socialista exige ao Governo que disponibilize às autoridades de segurança “os meios humanos e tecnológicos necessários”, nomeadamente para conseguirem garantir o “reforço e plena operacionalização da videovigilância” na freguesia. Carla Almeida propõe, inclusivamente, que existam “operadores a visionar as imagens em tempo real, 24 horas por dia”.
Na já referida investigação do Observador, a Junta da Misericórdia aparecia referenciada como uma zona referenciada por nela haver registo de venda ambulante ilegal, tráfico de drogas e episódios de violência, muitas vezes associados ao consumo excessivo de álcool e à utilização grosseira do espaço público. Em maio, o Observador publicava uma reportagem sobre a noite de Lisboa nessas zonas da cidade — e o álcool, a droga e a violência continuavam a ser alguns dos cartões de visita.
Outra freguesia vizinha de Santa Maria Maior onde se têm registado episódios de violência com recurso a armas brancas é Arroios. “As ocorrências que nos têm sido reportadas em Arroios estão sobretudo relacionadas com tráfico de estupefacientes e crimes contra o património, como roubos e furtos, tendo também sido registadas algumas situações pontuais envolvendo armas brancas. Não temos conhecimento, através da PSP, de ocorrências recentes em Arroios envolvendo armas de fogo”, diz João Jaime Pires ao Observador. Também os roubos (por oportunidade ou por esticão) e venda ambulante, nomeadamente, de droga falsa (“louro”) são uma realidade desta freguesia.
Já o presidente da Junta de São Vicente explica ao Observador que “por enquanto, felizmente, as coisas estão mais ou menos controladas” na sua freguesia, onde se encontra a também turística zona da Graça. André Biveti nota que São Vicente está entre as três freguesias com menor índice de criminalidade na cidade de Lisboa, segundo dados que a PSP apresentou recentemente aos autarcas locais numa reunião sobre iluminação e videovigilância.
“Felizmente, não temos ainda reparado um grande aumento da insegurança na nossa freguesia, mas também tendemos a agir sempre com precaução. Estamos sempre em comunicação com a polícia, temos uma unidade móvel que está sempre aqui na freguesia”, afirma o presidente da junta socialista ao Observador. Biveti explica que além do contacto com a população, a junta recebe informação relativa à criminalidade através de dados enviados pelas esquadras da Penha de França e São Vicente.
A criminalidade em São Vicente é, na sua maioria, não violenta, explica o autarca. Quanto à tipologia das ocorrências, Biveti afirma que os crimes mais comuns são furtos a turistas ou em casas que deixam portas ou janelas abertas. No entanto, sente que a “perceção em Lisboa da insegurança aumentou” e concede que casos como a bala perdida que atingiu a turista na Baixa contribuem para tal. Para combater esse sentimento, defende o investimento na iluminação e o patrulhamento de proximidade.
Os números oficiais apontam para descida da criminalidade violenta e grave
Apesar de tudo, os mais recentes dados tornados públicos sobre o crime na Grande Lisboa mostram uma diminuição da criminalidade violenta. Nos primeiros dez meses de 2025, o Comando Metropolitano de Lisboa registou um aumento da criminalidade geral de cerca de 6,1%, mas, por outro lado, uma diminuição de 1,9% da criminalidade violenta e grave, em relação ao mesmo período de 2024.
O Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2025 também apresenta dados no mesmo sentido, mas para todo o distrito de Lisboa: um aumento de 4% da criminalidade geral, mas uma diminuição de 3,4% na criminalidade violenta e grave. Ainda assim, tanto o presidente da Câmara de Lisboa como vários presidentes de junta em Lisboa têm defendido que estes dados não traduzem a perceção das comunidades em várias zonas de Lisboa.
Na verdade, os dados sobre a criminalidade em cada freguesia lisboeta não são públicos, sendo impossível determinar se, apesar da diminuição geral da criminalidade, haverá zonas da cidade onde esta aumentou. Apesar disso, os presidentes de junta acabam por ter acesso a informação sobre a criminalidade nas suas freguesias através das esquadras e divisões policiais locais.