Kauê foi deportado para o Brasil. Quando lá chegou, processo foi aceite
Kuaê Matos - jovem de 19 anos que foi deportado para o Brasil em agosto deste ano, apesar de viver há dois anos em Portugal com a família - revelou como foram os dias em que esteve detido no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa. Afirmou ainda que, depois de ter chegado ao Brasil, soube que o processo que iria permitir a sua permanência em Portugal tinha sido aceite.
Kauê, recorde-se, foi deportado para o Brasil na noite de quarta-feira, após ter sido intercetado no aeroporto, em Lisboa, quando regressava de um intercâmbio na Irlanda, onde realizou um estágio de 45 dias, financiado por uma bolsa do programa Erasmus, por ter sido um dos melhores alunos do curso que frequenta na Escola Secundária Dr. Joaquim de Carvalho, na Figueira da Foz.
Numa entrevista ao site brasileiro g1, o jovem de 19 anos relatou como viveu aqueles quatro dias que passou numa sala com outros imigrantes.
Kauê descreveu o local onde ficou como sujo, dando conta que as camas onde dormia eram semelhantes a macas de hospital e que eram "extremamente sujas". Contou ainda que a sala cheirava mal e que até a roupa de cama que era disponibilizada estava suja. No primeiro dia, conta, preferiu dormir numa cadeira.
O jovem disse ainda que os polícias não lhe davam qualquer tipo de informação sobre o caso e que o contacto com a família era também difícil, explicando que a internet do aeroporto era má.
Kauê revelou também só ter conseguido ver a mãe dois dias depois.
O estudante, como já foi referido, esteve detido no aeroporto quatro dias. Num desses dias, explicou, foi levado para um avião que tinha como destino o Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, tendo só descoberto que ia ser deportado quando já se encontrava sentado na aeronave.
No entanto, os agentes da polícia acabariam por retirá-lo daquele voo, levando-o de volta à sala de detenção e ter-lhe-ão dito que a deportação não iria acontecer, refere o g1.
Ora, no quarto dia, perto das 23h00, o jovem foi chamado e informado de que iria então ser deportado. Retiraram-lhe o telemóvel e o passaporte, colocaram-nos num envelope e disseram-lhe que só teria acesso às duas coisas quando aterrasse em São Paulo, no Brasil.
Note-se que tinha sido feito um "acordo de cavalheiros" entre o advogado da família e um inspetor, que indicava que iriam esperar até quinta-feira, 6 de agosto, para deportar Kauê, mas o jovem deixou de responder aos pais pelas 23h00.
Ainda antes de entregar o telemóvel, Kauê conseguiu enviar uma mensagem aos pais, tendo-lhes pedido que tentassem impedir a deportação.
Segundo relata o g1, quando o jovem chegou ao Brasil soube que os pais e o advogado não tinham sido informados nem sobre a deportação nem sobre o voo em que estava. A família, note-se, só terá conseguido localizá-lo porque um dos seus professores identificou em qual o avião Kauê tinha embarcado e, desta forma, os pais pediram a familiares que moram no Brasil para o irem buscar.
O mesmo meio dá ainda conta que, já no Brasil, Kauê soube que o processo que permitia a sua permanência em Portugal tinha sido aceite.
"Fico extremamente revoltado porque ninguém avisou os meus pais que eu estava a ser deportado. E, após ser deportado, o processo deu certo. Se estivesse lá, era para eu estar na minha casa em Portugal neste momento, porque eles aceitaram. E, se eu não tivesse sido deportado naquela hora, estaria na minha casa, estaria com os meus pais, com o meu irmão. Infelizmente, estou aqui agora", cita o g1.
Saliente-se que a família chegou a Portugal em março de 2024 e mudou-se para a Figueira da Foz. Após chegarem, abriram atividade nas finanças e avançaram com a Manifestação de Interesse e o processo na Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), mas, uma vez que não tinham cartão de residência, não foi possível avançar com o reagrupamento familiar imediato.
"O problema com o Kauê foi o descompasso das idades. Chegamos a Portugal na semana em que ele completou 17 anos. Fizemos questão de vir antes da maioridade para que ele pudesse estudar e para corrermos com os papéis. Quando o meu cartão chegou, dia 17 de março [de 2026], ele já havia feito 19 anos, no dia 1º. Ele já não se enquadrava mais no reagrupamento. Chegamos a tentar três artigos diferentes da lei com a ajuda de uma facilitadora, mas sem sucesso", contou a mãe, Gabriela Matos, ao Público Brasil em agosto.
O advogado da família adiantou que está a estudar a melhor forma para conseguir um visto para Kauê, tendo em conta que, em breve, se irá iniciar o novo ano letivo.
O site brasileiro g1 refere que entrou em contacto com a Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), que disse que os pedidos de nacionalidade não são da sua competência, mas sim do Instituto dos Registos e Notariado (IRN).
"Por outro lado, o controlo fronteiriço é da responsabilidade da Polícia de Segurança Pública (PSP) pelo que a AIMA não tem comentários a tecer sobre a alegada situação", referiu a entidade em resposta, citada pelo g1, que contactou também o IRN e a PSP.

Família de Kauê veio pela "segurança". Jovem sofreu tratamento "desumano"
Os pais de Kauê Matos, jovem de 19 anos deportado para o Brasil, contaram que emigraram para Portugal pela "segurança" dos filhos. A família denuncia ainda que o telemóvel do jovem foi confiscado antes da deportação e só lhe foi devolvido após a chegada ao Brasil.
Márcia Guímaro Rodrigues | 18:10 - 10/08/2026