"Se eu fosse Milošević, limparia etnicamente o Kosovo." Ministra da Sérvia sob fogo após sugerir limpeza étnica do território
“Se eu estivesse no lugar de Slobodan Milošević em 1998, teria levado a cabo a limpeza étnica do Kosovo. Não no sentido de os liquidar. Eles não se sentem parte da Sérvia e devem regressar aos seus países de origem.” As declarações da ministra da Administração Estatal e do Governo Local da Sérvia, Snežana Paunović, estão a causar uma forte polémica por evocarem os fantasmas da guerra no Kosovo, território que declarou independência em 2008 e que Belgrado recusa reconhecer.
As autoridades kosovares já reagiram e declararam a ministra como persona non grata, impedindo-a de entrar no país. O ministro da Administração Interna do Kosovo, Xhelal Sveçla, fez esta terça-feira o anúncio e lamentou que a Sérvia continue com um projeto que “nunca abandonou”: “O projeto de limpeza étnica dos albaneses”. “O seu antigo Presidente, Slobodan Milošević, já tentou fazer isso”, afirmou, avisando: “Qualquer tentativa de reavivar as ideologias da limpeza étnica ou de ameaçar a República do Kosovo enfrentará uma resposta determinada, legal e institucional”.
O Kosovo divide-se entre a maioria de origem albanesa e uma minoria sérvia, que vive sobretudo no norte do território. As tensões permanecem com a Albânia a defender a independência, ao passo que a Sérvia não reconhece a soberania do país. A ministra, nascida em território kosovar e identificando-se como sérvia, foi bastante criticada no país vizinho, assim como dentro de fronteiras.
Snežana Paunović é membro do Partido Socialista da Sérvia — que faz parte da coligação governamental com a força política do Presidente Aleksandar Vučić. Vários rostos da oposição sérvia pediram a demissão de Snežana Paunović. Nas redes sociais, a governante já reagiu e esclareceu as declarações que fez, embora não tenha voltado com a palavra atrás: “Nunca mataria ninguém. Apenas pedia que regressassem ao vosso país [Albânia], que penso que vos deveriam aceitar”. A governante respondeu ainda aos críticos no seu próprio país, acusando-os de “apoiar terroristas”.
A União Europeia, organização internacional a que a Sérvia aspira a aderir, já criticou as palavras da ministra sérvia. Anitta Hipper, porta-voz para os Assuntos Estrangeiros e a Política de Segurança, afirmou que “não deve haver lugar na Europa para retórica que justifique ou promova uma limpeza étnica”. “Essas declarações contrariam os valores da dignidade humana, da reconciliação e das boas relações entre vizinhos sobre os quais a União Europeia foi construída.”
A porta-voz acrescentou que estas declarações são “contrárias aos compromissos assumidos pela Sérvia” no âmbito do diálogo para a normalização das relações com o Kosovo. “Esperamos que todos os líderes ajam de forma responsável, evitem uma retórica inflamada e contribuam para um clima de confiança e estabilidade regional”, concluiu.
Slobodan Milošević foi Presidente da Sérvia durante as guerras dos Balcãs. O regime que liderou foi acusado de promover uma campanha de limpeza étnica contra a população albanesa do Kosovo. Após ter saído do poder, foi detido e transferido para Haia, nos Países Baixos, onde foi julgado pelo Tribunal Penal Internacional para a antiga Jugoslávia por crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio. Morreu na prisão em 2006, antes de o julgamento chegar ao fim.
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