Legado de jornalista assassinada há 20 anos continua necessário na Rússia

🗓️ 2026-10-07 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Em 07 de outubro de 2006, dia do aniversário de Vladimir Putin, a repórter do jornal Novaya Gazeta, que previu os desvios autoritários do líder russo, foi morta com vários tiros no elevador do seu prédio, em Moscovo.

Para muitos opositores ao Kremlin (presidência), o assassínio da jornalista marcou um marco na descida ao autoritarismo da Rússia pós-soviética, após a chegada ao poder de Putin, há mais de 25 anos.

Até morrer, aos 48 anos, Politkovskaia, que sobrevivera a um envenenamento em 2004, documentou os crimes de guerra do exército russo durante a segunda guerra da Chechénia (1999-2009), desencadeada por Putin.

Denunciou esse conflito como um meio para Putin consolidar as ambições de "czar" através de "uma guerra sangrenta".

Hoje, a Ucrânia, de onde era originário o pai de Politkovskaia, está devastada pela invasão lançada em fevereiro de 2022 por Putin, e o exército russo é novamente acusado de crimes de guerra.

A Rússia, após um pluralismo imperfeito nas décadas de 1990 e 2000, está agora completamente sob o domínio do Kremlin, que esmagou toda a oposição.

"Tudo o que está a acontecer na Rússia foi previsto por Anna Politkovskaia", resume o chefe de redação do Novaya Gazeta, Serguei Sokolov.

A jornalista de cabelos prateados, mãe de dois filhos, criticava severamente o governo instaurado por Putin na Chechénia após a derrota militar dos independentistas.

Comparou o líder checheno Ramzan Kadyrov a um "pequeno dragão" que o Kremlin tem de "alimentar permanentemente", com financiamentos maciços, para "não deitar fogo".

Em 2014, cinco homens, dos quais quatro chechenos, foram condenados a penas pesadas pelo assassínio de Politkovskaia. Um deles foi indultado, em 2023, por ter combatido na Ucrânia.

Os mandantes do crime nunca foram identificados. O Kremlin e Kadyrov sempre negaram qualquer envolvimento.

"Nada a podia afastar do tema ou da ideia que defendia (...). E não havia lugar para rumores nem para simples comentários: ela só escrevia sobre o que tinha vivido e observado pessoalmente", recorda Sokolov.

Na altura, "diziam que ela exagerava os perigos" que, em sua opinião, ameaçavam a democracia na Rússia, reconhece Sokolov.

Todos os opositores russos de primeiro plano que denunciam a invasão da Ucrânia estão agora mortos, presos ou no exílio. E a maior parte da imprensa crítica do poder trabalha fora do país.

Segundo Sokolov, o jornalismo encarnado por Politkovskaia já não existe na Rússia: "Restam apenas alguns raros projetos mediáticos que, num contexto de censura militar implacável, ainda tentam escrever. Tudo o resto é propaganda".

Egor Feoktistov, um jornalista de dados de 28 anos, investiga fora da Rússia temas sensíveis para o iStories, um dos principais órgãos de comunicação social de investigação russos refugiados no estrangeiro.

Para ele, Politkovskaia representa, antes de mais, uma realidade sombria: o jornalismo, que abraçou em 2023, após ter fugido da Rússia, expõe-no a "represálias físicas" e à morte.

Mas Politkovskaia é também um "exemplo necessário de bravura".

"Compreendo que, se eu não escrever sobre determinados temas, ninguém o fará. E diria que pessoas como Politkovskaia incutem essa coragem e essa confiança", afirma.

Olga Tchurakova, 37 anos, dá aulas a aspirantes a jornalistas russos no exílio e diz-se surpreendida com o número de jovens que ainda desejam abraçar a profissão, apesar do perigo e da falta de financiamento.

"As pessoas vêm na mesma e dizem: 'Alguém tem de fazer este trabalho' (...). E referem frequentemente Politkovskaia quando lhes perguntamos quem são os seus heróis", conta.

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