Leonardo Di Costanzo: “Quis olhar a maldade de frente, sem perdão nem complacência”

🗓️ 2026-08-21 📁 sports 📝 ⏱️ 👁️ : -

O cinema pode combater esse medo?
Eu perguntei-me se, através de um filme, poderia enfrentar essa sensação. Quis olhar a maldade de frente, sem perdão nem complacência. Sem esse gosto mórbido que consiste em ver o mal como um espectáculo que está distante. Também quis oferecer ao espectador uma suspensão do julgamento sumário. Porque todos nós já pensámos em cometer delitos – mas só alguns passam ao acto. Todos nós somos “produtores de maldade”, digamos assim. E a tradição católica intensificou esta ideia.

Não sou crente, evidentemente. Mas o Diabo faz parte de nós, está presente em nós, não é por acaso que a humanidade o inventou e lhe deu uma representação. Por outro lado, sempre fui um grande admirador das pessoas que, por vocação ou espírito religioso, se aproximam e tentam compreender alguém que cometeu uma atrocidade. São pessoas que testam a nossa humanidade. Levam-na ao limite. Quando um crime horrível é cometido, tentamos afastar-nos ao máximo do criminoso. Pensamos logo: “aquele que matou é diferente de nós.” Tranquilizamo-nos com isso.

Não querer olhar para o criminoso, ou evitá-lo, pelo menos, também é uma auto-defesa. Ora, o seu filme obriga-nos a olhar para Elisa em grande plano. O valor do filme deve muito a esta frontalidade.
Exactamente. No cinema, o espectador tende a ligar-se ao destino do protagonista. Deseja que ele supere as dificuldades. Quer que ele chegue ao fim do deserto ou, como Ulisses, que regresse a Ítaca. Ora, em Elisa, a protagonista cometeu um crime atroz. Sabemo-lo desde as primeiras cenas. Não é possível estabelecermos uma ligação com esta personagem. Não há identificação possível. Contudo, à medida que vamos seguindo a história, damo-nos conta de que a personagem de Elisa é uma mulher comum, vem de um estrato social confortável, com problemas familiares, certo, mas quem não os tem? E a dado momento, esta pessoa, em tudo normal, perde a razão e passa ao acto. Porquê? Foi isto que me interessou.

Elisa vai propôr-nos uma expiação, numa prisão que parece uma utopia. Essa prisão não existe. Foi inventada por si. Como construiu aquele espaço?
Mesmo quando faço ficção, permaneço, de certa maneira, ligado à minha experiência de documentarista, trabalhando com coisas que vivi, observações que presenciei. O que é formidável na ficção é que ela permite-nos inventar algo de novo a partir de tudo isto e de experiências que existem. Nos países nórdicos, existem prisões experimentais cujo primeiro objectivo não é a punição mas a recuperação do ser humano. Esses estabelecimentos começam agora, a pouco e pouco, a chegar ao resto da Europa. Já há uns quantos em Itália. Permiti-me criar um desses estabelecimentos, desde logo rodeado por um bosque, para me concentrar no drama interior daquela mulher. E a prisão foi-se construíndo a pouco e pouco, quase como um estaleiro, um espaço teatral que se foi erguendo para os actores. Eu nunca quis fazer um filme sobre prisões.

Do ponto de vista emocional, Elisa é muito exigente para os intérpretes: Barbara Ronchi e Roschdy Zem. Comecemos por Barbara, que é capaz de passar por todos os espectros que podemos imaginar de um ser humano: por vezes doce, angelical, ingénua, noutras parece facínora, maquiavélica, perversa.
Quando os dois criminólogos que interrogaram Stefania Albertani me enviaram a transcripção dos diálogos que tiveram com ela — doze encontros de duas horas cada — dei-me conta de que tinha nas mãos um volume de material extremamente denso a nível psicológico. A condenada, de resto, não só havia estudado e obtido um diploma em Direito na prisão como conhecia muito bem o trabalho dos criminólogos. Sabia que, ao participar daquela experiência, era suposto ir ao limite dos seus erros e da sua culpabilidade. A partir do momento em que ela aceitou participar, deu provas de querer acertar contas consigo própria. Mas, até chegar a esse fim, houve imenso medo, recuos, mentiras, manobras de sedução… Dei-me conta disso à medida que folheei aquele documento de 250 páginas. Quando comecei a trabalhar com a Barbara, pedi-lhe então que procurasse toda esta riqueza de atitudes com todas as transformações que a personagem atravessa. E isso levou-nos a um trabalho enorme nos ensaios. Começámos em Outubro para rodarmos no Março seguinte: seis meses de preparação. A Barbara acabou mesmo por aprender francês neste período, era uma língua que ela não dominava por inteiro.