Lições do passado e do Centrão servem de alerta a Flávio Bolsonaro
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Apesar de ter mandatos eletivos há mais de vinte anos, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nunca foi testado numa campanha. O capital eleitoral do pai dele, o ex-presidente Jair Bolsonaro, sempre lhe garantiu a consagração nas urnas, sem que ele tivesse de pedir votos ou negociar alianças com partidos e caciques políticos.
Talvez por desconhecer as agruras e os obstáculos de uma disputa de verdade, o Zero Um e parte de seu grupo político subiram no salto alto após o primeiro turno da corrida presidencial, do qual ele saiu vitorioso com um vantagem de 2,2 milhões de votos sobre o petista Lula, que concorre à reeleição.
Certos da vitória também no segundo turno, Flávio Bolsonaro e aliados passaram a tratar da formação do futuro ministério e até da eleição para as presidências da Câmara e do Senado, no início do próximo ano.
Em entrevistas, o senador chegou a falar como se já estivesse eleito, dizendo que, por ter maioria nas duas Casas, mudaria a Constituição. Quadros do PL compartilharam da euforia e se lançaram como candidatos para chefiar o Congresso.
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Coordenador da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, Rogério Marinho virou forte concorrente ao comando do Senado. Na Câmara, Sóstenes Cavalcante e Altineu Côrtes se apresentaram para o páreo. Com as maiores bancadas, o PL deu como certo que impediria a renovação dos mandatos do deputado Hugo Motta (Republicanos) e do senador Davi Alcolumbre (União Brasil) em fevereiro de 2026.
Choque de realidade
Nos últimos dias, Flávio Bolsonaro e a legenda dele foram lembrados de que a consolidação do poder do grupo, se acontecer, não será sem dificuldades. Expoentes do Centrão, Motta e Alcolumbre aprovaram bandeiras importantes da campanha à reeleição de Lula.
Entre elas, a proposta de emenda constitucional que acaba com a jornada de trabalho 6×1, sem redução de salários, e o recém-anunciado pacote do governo que perdoa dívidas dos microempreendedores individuais. Com as votações, Motta e Alcolumbre deram um recado claro ao PL: estão firmes no páreo e tentarão a reeleição para os respectivos cargos. Já o Centrão lembrou que, por mais forte que tenha saído da urna, o PL terá de negociar para aprovar seus projetos.
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Já as mais recentes pesquisas de intenção de voto serviram de alerta a Flávio Bolsonaro. Elas mostram um encurtamento da distância entre o senador e Lula, que agora estão em situação de empate técnico. No Datafolha e na Quaest, o Zero Um ainda aparece numericamente à frente, mas dentro da margem de erro. A história ensina que não é boa ideia cantar vitória antes da hora.
Em 1985, o então senador Fernando Henrique Cardoso se deixou fotografar — antes da votação — sentado na cadeira de prefeito de São Paulo, cargo que disputava e para o qual era considerado favorito. FHC liderava as pesquisas por uma margem estreita, mas acabou superado pelo oponente Jânio Quadros, que depois foi à desforra.
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Ao tomar posse na prefeitura, Jânio convocou a imprensa para acompanhar um de seus atos inaugurais. “Gostaria que os senhores testemunhassem que estou desinfetando esta poltrona porque nádegas indevidas a usaram. Porque o senhor Fernando Henrique Cardoso nunca teria o direito de sentar-se cá e o fez, de forma abusiva”, declarou.
A lição é conhecida. Antes de pensar no ministério, em eventuais mudanças na Constituição e na tomada dos comandos da Câmara e do Senado, Flávio Bolsonaro e o PL deveriam prestar mais atenção ao segundo turno da corrida presidencial. Afinal de contas, ninguém ganha ou perde de véspera.
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