Lisboa ganha projeção na música eletrónica, mas DJ alertam para risco de gentrificação

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*** Ana Matos Neves, da Agência Lusa ***


Boom, Bélgica, 19 jul 2026 (Lusa) — Lisboa tem vindo a afirmar-se no panorama internacional da música eletrónica, atraindo um número crescente de DJs e produtores estrangeiros e alimentando comparações com Berlim, embora artistas portugueses alertem para os riscos de gentrificação associados a esta transformação.

A comparação com Berlim, considerada uma das capitais mundiais da música eletrónica, tem surgido nos últimos anos devido à chegada de artistas internacionais, ao crescimento de clubes e eventos e à criação de novas comunidades ligadas a este estilo musical.

“Lisboa é a nossa nova Berlim, não só pela cena eletrónica, mas pelas condições que proporciona aos artistas estrangeiros, permitindo um maior crescimento financeiro”, afirmou Beatriz Soares (de nome artístico BIIA), em declarações à agência Lusa.

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Depois de se estrear no palco de um maiores festivais de música eletrónica do mundo, o Tomorrowland na Bélgica, jovem DJ portuguesa relatou à Lusa que vários artistas se mudaram para Lisboa por fatores económicos e de qualidade de vida, embora ela esteja atualmente baseada em Itália.

Certo é que, a seu ver, tem havido uma afirmação da cena eletrónica portuguesa: “Antigamente ninguém ou poucas pessoas conheciam Portugal e hoje em dia é um país que toda a gente tem alguém que conhece que vive lá ou que quer visitar”.

Para BIIA, acrescem fatores como regimes fiscais mais favoráveis e a localização geográfica de Portugal, atrativos para alguns criadores internacionais.

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A artista considerou, contudo, que Portugal ainda não tem uma dimensão comparável à capital alemã: “Infelizmente, Portugal ainda não está a par de Berlim e penso que nunca irá estar porque Berlim tem muita história”, acrescentou à Lusa.

Também a dupla MXGPU, formada por Moullinex (Luís Clara Gomes) e GPU Panic (Guilherme Tomé Ribeiro), reconheceu uma evolução da música eletrónica portuguesa e uma maior atenção internacional sobre Lisboa.

“Existem muitos produtores, novas gerações de DJs, também nomes consolidados com projeção artística internacional e muitos nomes a vir para cá e a sediarem-se cá e não só a utilizarem em Lisboa para dormir, mas também para criar coisas e fazer coisas, que também é uma coisa que aplaudimos e celebramos”, afirmou Luís Clara Gomes (de nome artístico Moullinex) à Lusa.

Para o artista, “Portugal está ao nível de qualquer outra cena” eletrónica.

“Há muitos eventos em Portugal, muitos produtores, novas gerações de DJs e nomes consolidados com projeção artística internacional, além de muitos nomes a virem para cá e a criarem coisas”, o que demonstra que “a cena eletrónica portuguesa está fértil”, elencou.

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Contudo, essa evolução traz também preocupações, de acordo com Luís Clara Gomes: “Resta saber de que forma é que estes eventos, esta estrutura, esta plataforma é acessível a todos com diferentes poderes de compra e essa é uma questão que obviamente tem de ser discutida”.

O membro da dupla MXGPU pediu que não se crie “uma Lisboa muito bonita para a música eletrónica quando as pessoas que cá trabalham não podem cá viver”, alertando para eventual “gentrificação da cidade”, fenómeno relacionado valorização dos imóveis dados os novos investimentos e os novos moradores, dificultando a permanência de residentes e atividades culturais tradicionais, isto num contexto de crise habitacional.

Apesar dos desafios, os artistas portugueses que por este fim de semana passam pelo Tomorrowland — o duo MXGPU estreia-se hoje — sublinharam que Portugal atravessa um momento positivo na música eletrónica.

“Hoje Portugal é muito mais respeitado internacionalmente”, afirmou à Lusa Diego Miranda, DJ português com uma carreira de mais de 20 anos e 10 atuações no Tomorrowland Bélgica.

A opinião é corroborada pela porta-voz do festival: “Em Portugal, acho que a música eletrónica já é bastante popular e sei que muitos DJs vivem atualmente em Portugal”.

Debby Wilmsen adiantou à Lusa que “muitos artistas estão a escolher Portugal, também pelas condições de vida, pelo clima e pela possibilidade de viver na Europa do Sul”.

Lisboa surge assim como uma cidade com crescente atração internacional para a música eletrónica, mas longe de substituir Berlim, cuja história, dimensão e influência continuam a colocá-la como uma referência global do género.

Nomes ligados às cenas techno e house internacionais, como Patrick Mason, Steffi, Virginia, Miss Monique, Damian Lazarus, Blawan e Charlotte de Witte são apontados entre os artistas que escolheram Portugal como base nos últimos anos.