Londres restringiu os carros mais poluentes. Agora os pulmões das crianças estão mais saudáveis

🗓️ 2026-09-05 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Este é o primeiro estudo a apresentar evidências de que as zonas de ar limpo, implementadas em várias cidades de todo o mundo, podem beneficiar o desenvolvimento das crianças, afirmam os investigadores

As restrições à circulação de veículos mais antigos e poluentes na maior parte da capital britânica estão “fortemente” associadas a uma melhoria da saúde pulmonar das crianças, segundo um novo estudo.

Os investigadores concluíram que as melhorias na qualidade do ar após a introdução, em 2019, da Zona de Emissões Ultra Baixas de Londres (ULEZ) ajudaram a estimular o crescimento pulmonar, que anteriormente tinha sido afetado pelos efeitos da poluição atmosférica, segundo uma equipa liderada por cientistas da Queen Mary University of London (QMUL). 

“Já sabíamos que a ULEZ reduzia a poluição atmosférica, mas agora sabemos que a saúde pulmonar das crianças também melhorou ao mesmo tempo, o que é uma descoberta muito importante para as crianças e os pais que vivem em Londres”, afirmou a principal autora do estudo, Helen Wood, investigadora da QMUL, num comunicado.

Na prática, a ULEZ introduziu uma taxa de 12,50 libras (cerca de 14,58 euros) por dia, 24 horas por dia, sete dias por semana, para os veículos que não cumprem as rigorosas normas de emissões. Inicialmente limitada à zona central de Londres, a medida foi alargada em agosto de 2023 para abranger os bairros periféricos e os subúrbios da capital.

A sinalização indica o limite da Zona de Emissões Ultra Baixas (ULEZ) de Londres, junto à estrada South Circular, em 2023. (Susannah Ireland/Reuters)

O estudo acompanhou mais de 3.400 crianças, com idades entre os 6 e os 9 anos, de 84 escolas diferentes em Londres e Luton, uma cidade situada a cerca de 30 milhas (48 quilómetros) a norte da capital britânica, entre 2018 e 2022. Luton serviu como local de comparação, ou grupo de controlo, uma vez que apresenta uma combinação semelhante de poluentes provenientes do tráfego, mas não tem uma ULEZ.

Inicialmente, verificou-se que as crianças de Londres tinham uma capacidade pulmonar “significativamente” menor do que as que viviam em Luton.

Os cientistas avaliaram depois o tamanho e a saúde dos pulmões das crianças ao longo de cinco anos, durante visitas anuais às escolas. Os dados revelaram que, após a introdução da ULEZ, o tamanho e a saúde dos pulmões das crianças de Londres melhoraram, recuperando para níveis semelhantes aos registados em Luton.

“Ao longo do estudo, a equipa verificou que a proporção de crianças com uma função pulmonar clinicamente comprometida diminuiu de 14% para 9% em Londres, em comparação com uma redução de 9% para 7% em Luton”, lê-se no comunicado.

Embora Luton não tenha implementado uma zona de ar limpo, a autarquia local adotou medidas para melhorar a qualidade do ar durante o período do estudo, incluindo a redução dos limites de velocidade e o desenvolvimento de ciclovias e de percursos pedonais, de acordo com o estudo.

As crianças cujos pulmões não se desenvolvem plenamente até ao início da idade adulta enfrentam um risco acrescido de desenvolver doenças respiratórias, como a asma e a DPOC (doença pulmonar obstrutiva crónica), que inclui doenças como o enfisema e a bronquite crónica, bem como doenças cardiovasculares e metabólicas, e ainda um risco acrescido de morte prematura, segundo os investigadores.

Os resultados do estudo, que mostram que as deficiências na saúde pulmonar podem ser revertidas, têm “implicações significativas para a melhoria da saúde das crianças a longo prazo”, afirmaram os investigadores no comunicado.

Este é o primeiro estudo a apresentar evidências de que as zonas de ar limpo, implementadas em várias cidades de todo o mundo, podem beneficiar o desenvolvimento das crianças, afirmaram os investigadores.

“A poluição atmosférica é um problema global. Se queremos melhorar a vida das crianças que vivem em ambientes urbanos com tráfego intenso, precisamos de medidas arrojadas e ambiciosas”, afirmou o coautor principal do estudo, Ian Mudway, professor associado da Escola de Saúde Pública do Imperial College London, no comunicado. 

“Os nossos dados demonstram que as zonas de ar limpo podem ser uma intervenção eficaz de saúde pública para prevenir danos nos pulmões em desenvolvimento.”

O presidente da Câmara de Londres, Sadiq Khan, que introduziu a ULEZ em abril de 2019, enfrentou críticas consideráveis devido à medida.

Sadiq Khan escreveu um artigo de opinião no jornal britânico The Guardian, no qual classificou a decisão de implementar a medida como “a decisão mais difícil que tomei enquanto presidente da Câmara de Londres”, numa altura em que todos os principais partidos políticos do Reino Unido se opunham à medida.

“Durante anos, políticos e comentadores que se opuseram à ULEZ procuraram, de forma cínica, transformar questões de saúde pública numa guerra cultural simplista”, escreveu Khan. “Hoje, porém, é evidente que estamos a vencer a batalha contra o ar tóxico na capital — e são as crianças de Londres que estão a colher os benefícios.”

Descobertas “surpreendentes”

Stephen Burgess, professor de bioestatística na Universidade de Cambridge, em Inglaterra, que não esteve envolvido no estudo, afirmou ter analisado a investigação “com um elevado nível de ceticismo”.

“A minha expectativa era que os regulamentos da ULEZ tivessem um impacto pouco significativo na saúde infantil”, afirmou numa declaração ao Science Media Centre.

“No entanto, os resultados são surpreendentes”, afirmou Burgess, que, ainda assim, salientou que pode haver explicações alternativas para a melhoria da função pulmonar, como a diminuição dos níveis de poluição durante a pandemia de Covid-19. 

“É mais questionável se esta melhoria pode ser atribuída à introdução das regras da ULEZ", acrescentou. "Ainda assim, esta descoberta é importante, porque a função pulmonar na infância é um indicador importante de saúde, e o estudo apresenta evidências encorajadoras de que alterações no ambiente urbano podem beneficiar o desenvolvimento pulmonar das crianças.”

No entanto, Kevin McConway, professor emérito de estatística aplicada na Open University, no Reino Unido, que não esteve envolvido na investigação, afirmou que, embora o estudo sugira que a introdução da ULEZ tenha provavelmente melhorado a função pulmonar das crianças, não prova uma relação entre os dois fatores. 

“Este estudo não demonstra que esta seja a única explicação, e os investigadores reconhecem isso ao afirmarem que a introdução da ULEZ está ‘associada’, ou seja, correlacionada, a um crescimento mais rápido da função pulmonar, em vez de afirmarem que foi definitivamente a causa dessa diferença”, afirmou em declarações ao Science Media Centre. 

McConway acrescentou que o estudo se limitou a apenas duas áreas geográficas — Londres e Luton.

“Penso que os resultados poderiam ter tido uma interpretação mais clara se os investigadores tivessem conseguido incluir dados de mais alguns locais onde foram introduzidas zonas de ar limpo e de mais alguns locais onde não foram”, acrescentou.

O estudo foi publicado na revista científica “The Lancet Public Health”.