Cineasta ucraniano compara corte de financiamento da UE à Bienal de Veneza devido à participação da Rússia a um "castigo de jardim-escola"

🗓️ 2026-09-02 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Sergei Loznitsa criticou a decisão da União Europeia de cortar financiamento à Bienal de Veneza por ter permitido que a Rússia voltasse a ter um pavilhão expositivo durante o evento a decorrer este ano, considerando que tal medida prejudica os alvos errados e é ineficiente para demover Moscovo de continuar a sua guerra na Ucrânia.

Em declarações à imprensa na véspera da abertura do Festival de Cinema de Veneza — que é o ramo cinematográfico da Bienal mas que, ao contrário desta, ocorre todos os anos —, o cineasta ucraniano fez questão de afirmar que “jamais” visitaria o pavilhão que a Rússia trouxe para a cidade italiana.

No entanto, Loznitsa considera que a reação da União Europeia face à participação russa de retirar financiamento à organização apenas serviu para desviar atenções do seu próprio fracasso em impor sanções económicas mais eficazes contra Moscovo.

“A pergunta que me faço é esta: será que a existência deste pavilhão russo pode impedir esta guerra ou não? O que eu sei é que, no segundo trimestre deste ano, as empresas europeias importaram gás da Rússia a um nível sem precedentes, e todo esse dinheiro vai diretamente para as bombas que caem sobre a Ucrânia“, lamentou o realizador e argumentista. “Esta é uma questão muito mais grave do que saber se há ou não um pavilhão russo em Veneza. Cortar o financiamento à Bienal é como aplicar um castigo a alguém num jardim-escola”, acrescentou.

Um dos mais consagrados cineastas da Ucrânia, Sergei Loznitsa é conhecido por explorar a história da Ucrânia e da União Soviética de que fez parte em filmes de ficção como Dois Procuradores (2025) e In the Fog (2012), assim como em documentários como The Kiev Trial (2022) e Funeral de Estado (2021). No entanto, Loznitsa — que nasceu na Bielorrússia, cresceu em Kyiv e hoje vive na Alemanha — também tem apontado o olhar ao passado recente da Ucrânia, com o documentário Maidan (2014) e a comédia negra Donbass (2018).

Imperium, a sua mais recente obra documental e que será exibida fora da competição em Veneza, segue a mesma esteira, baseando as suas três horas de duração em imagens de arquivo filmadas por um grupo de italianos que, graças à autorização do Partido Comunista Italiano, puderam realizar três expedições de filmagem à União Soviética entre 1970 e 1973.

No cerne desta polémica está o facto de a Rússia ter retomado a sua participação na 61.ª Bienal de Arte de Veneza com o projeto The tree is rooted in the sky (“A árvore tem raízes no céu”, em tradução livre), comissariado por Anastasiia Karneeva, trazendo uma exposição que reúne cerca de 40 artistas.

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A organização do certame nunca chegou a proibir oficialmente Moscovo de fazer-se representar na exposição internacional; em 2022, na sequência da invasão à Ucrânia, os artistas e curadores russos desistiram de participar como forma de protesto contra a guerra. Já em 2024, voltou a não participar, cedendo o seu espaço à Bolívia.

O regresso da Rússia, assim como a contínua participação de Israel, mereceu várias condenações públicas de artistas — incluindo do representante português — e de vários Estados. A organização reagiu ao decidir não atribuir distinções a artistas de países cujos líderes estivessem sob investigação do Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade, efetivamente impedindo representantes russos e israelitas de serem premiados. Tal decisão levou o júri da Bienal a demitir-se em bloco a apenas nove dias da abertura, defendendo a neutralidade institucional e recusando qualquer forma de censura.

Ainda durante a fase de antevisões — a chamada vernissage — iniciada a 6 de maio, o pavilhão russo foi alvo de protestos no local por parte de ativistas russas e ucranianas do coletivo punk Pussy Riot e da organização Femen, forçando o seu encerramento temporário. A pressão sobre a organização levou a que o pavilhão da Rússia só tenha estado aberto durante esta fase, encontrando-se fechado ao público desde 9 de maio, dia da abertura oficial da Bienal.

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Não obstante a Rússia ter ficado com o seu pavilhão inacessível durante todo o período em que dura a exposição — que termina a 22 de novembro —, a Comissão Europeia, que já tinha ameaçado com a retirada da sua subvenção plurianual de 2 milhões de euros à Fundação da Bienal, confirmou o ato em julho. Thomas Regnier, porta-voz da instituição, defendeu o ato ao lembrar que “os eventos culturais financiados pelo dinheiro dos contribuintes europeus devem salvaguardar os valores democráticos e promover o diálogo, a diversidade e a liberdade de expressão”, princípios que “não são respeitados na Rússia de hoje”.

O corte mereceu reação da organização da Bienal de Veneza, que sublinhou que este financiamento agora cancelado se destinava a projetos “sem qualquer ligação” à participação da Rússia na exposição internacional. Um deles está relacionado com o Festival de Cinema de Veneza que teve início esta quarta-feira, já que parte das verbas se destinava ao Biennale College e à Venice Production Bridge.

[De regresso a Portugal, Carvalhão Gil garante que não se vendeu aos russos e que nem sequer sabia que o homem com quem foi detido trabalhava para o SVR. Para ele, era só um “parceiro de negócios”. Mas as buscas às casas do espião contam uma história diferente: a PJ encontra milhares de euros escondidos em casacos, gavetas e envelopes; dezenas de documentos secretos espalhados pelas várias divisões; e até um revólver dissimulado numa estante. Já está disponível o quinto episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor”. Pode ouvir no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]