Saúde: Planos de Lula e Flávio não dizem quem paga a conta - 14/08/2026 - Política - Folha

🗓️ 2026-08-15 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Os programas de governo de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) para a saúde partem de diagnósticos opostos sobre o papel do Estado, mas compartilham uma mesma fragilidade: metas pouco quantificadas e financiamento não equacionado.

Isso ocorre num momento em que o orçamento da Saúde enfrenta restrição histórica. Uma nota técnica do Senado aponta uma restrição de R$ 105,5 bilhões nas despesas não obrigatórias da União em 2026, com a Saúde entre as pastas mais atingidas.

O programa de Lula aposta quase inteiramente na continuidade de políticas já em execução: Mais Médicos, Farmácia Popular, Agora Tem Especialistas e digitalização do SUS. A vantagem é ter histórico de execução para mostrar (e resultados parciais mensuráveis para cobrar), o que também é uma desvantagem.

O Agora Tem Especialistas, principal aposta para reduzir filas, é exemplo disso: apesar de ter alcançado cerca de 15 milhões de cirurgias em 2025, maior volume da história do SUS, o programa teve fragilidades de execução escrutinadas pelo TCU (Tribunal de Contas da União).

O programa de Flávio Bolsonaro propõe uma reformulação mais ampla, batizada de "Plano Real da Saúde" e conduzida pelo ex-ministro Marcelo Queiroga: correção da tabela SUS, migração para pagamento por desempenho (em vez de por volume de procedimentos) e prontuário único interoperável com o setor privado.

É um diagnóstico que dialoga com debates já em curso dentro do próprio SUS, mas apresentado sem estimativa de custo, prazo ou fonte de recursos, vácuo que especialistas apontam como risco de aumento permanente de despesa sem compensação orçamentária, justamente o tipo de contradição que o programa tenta evitar ao prometer, ao mesmo tempo, forte disciplina fiscal.

Ambos apostam em capacidade ociosa do setor privado para reduzir filas, com desenhos diferentes. O Agora Tem Especialistas amplia parcerias com hospitais privados em troca de crédito financeiro e mostra resultado real. Por exemplo, cirurgias eletivas subiram de 10,8 milhões em 2022 para 14,7 milhões em 2025. Mas o TCU pondera que ainda é cedo para saber se isso reduziu o tempo de espera, apontando como gargalo a falta de integração de dados para acompanhar a fila na ponta.

Já o programa de Flávio propõe contratar exames em horários ociosos da rede privada, proposta que Mario Scheffer, professor de medicina preventiva da USP, classifica como repaginação do "Corujão da Saúde" de João Doria em São Paulo, e que considera menos elaborada que o programa equivalente de Lula.

Em ambos os casos, a crítica de fundo é a mesma: aproveitar capacidade ociosa não ataca os gargalos de infraestrutura, pessoal e integração de sistemas. São soluções paliativas, não estruturais.

Os dois programas prometem prontuário eletrônico único, proposta que não é exclusividade de nenhum candidato. A diferença está no escopo: Lula fala em integração entre níveis de atenção do SUS (UBS, ambulatórios e hospitais); Flávio propõe explicitamente interoperabilidade entre redes pública e privada.

Scheffer identifica nessa proposta de Flávio o retorno do Open Health, projeto de 2022 já rejeitado pela saúde coletiva e associado a interesses do setor de planos de saúde. Para ele, a circulação de dados de pacientes entre operadoras, mesmo consentida, abriria caminho para seleção de risco e venda de planos de cobertura reduzida, problema que o programa de Lula, ao manter a integração dentro do sistema público, não apresenta.

Já a proposta de Lula de incluir testes diagnósticos na Farmácia Popular também é criticada por Scheffer, que aponta conflito de interesse entre vender remédio e diagnosticar no mesmo local, além de limitação técnica: testes rápidos de glicemia não diagnosticam diabetes, e uma medida isolada de pressão arterial pode gerar falsa sensação de controle.

Nenhum dos dois programas resolve a questão mais basilar: como pagar pelo que promete. Lula depende de equacionar o embate entre o arcabouço fiscal e o piso constitucional da saúde, problema orçamentário fora do Ministério da Saúde.

Flávio promete correção da tabela SUS e migração para pagamento por desempenho sem detalhar custo ou fonte de recursos, convivendo com uma agenda paralela de corte de gastos: assessores ligados à pré-candidatura chegaram a estudar desvincular os gastos mínimos com saúde da receita da União, corrigindo-os apenas pela inflação —ideia negada pelo candidato após repercussão negativa.

Os programas também convergem, com o mesmo padrão de imprecisão, em saúde mental e cuidado com idosos. Lula promete ampliar a Rede de Atenção Psicossocial e os Caps (Centros de Atenção Psicossocial), com prioridade para crianças e jovens, além de atenção a pessoas com autismo. Flávio cita diagnóstico precoce de TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade), e cuidados com depressão, ansiedade e pacientes com Alzheimer.

Nenhum define quantos serviços seriam criados, em que prazo ou com que investimento. Para o cuidado com idosos, Flávio propõe o programa "Casa Segura para Envelhecer" e um aplicativo de companhia e alerta. Lula não detalha uma política específica equivalente no capítulo de saúde, tratando o tema de forma mais genérica dentro do eixo social.

Por fim, câncer, vacinação e soberania sanitária são três eixos em que o programa de Lula tem mais conteúdo e histórico de execução para apresentar, inclusive um capítulo inteiro dedicado ao Complexo Econômico-Industrial da Saúde, que soma 31 parcerias de desenvolvimento produtivo já assinadas desde 2024.

O programa de Flávio não trata nenhum desses três temas como capítulo específico, uma ausência que não é neutra: são áreas de política de Estado de médio-longo prazo, que dependem de continuidade entre governos.

A vacinação é especialmente sensível, por ser uma frente em que o país teve retrocesso de cobertura e vem em recuperação. E a produção nacional de insumos tem impacto direto sobre o custo do SUS e a dependência externa do país.

No fim, os dois candidatos pedem ao eleitor o mesmo voto de confiança: acreditar em promessas de saúde sem os números que permitiriam cobrá-las depois.